No ano em que se celebra o centenário de Wislawa Szymborska, e coincidindo com a data do 23º aniversário da atribuição do prémio nobel à autora, as Edições do Saguão e a tradutora Teresa Fernandes Swiatkiewicz apresentam uma antologia dos seus poemas autobiográficos. Para esta edição foram escolhidos vinte e seis poemas, divididos em três partes, que dão conta das três idades da vida.
Entre «o nada virado do avesso» e «o ser virado do avesso», a existência e a inexistência, nesta selecção são apresentados os elementos do que constituiu o trajecto e a oficina poética de Szymborska. Neles sobressai a importância do acaso na vida, o impacto da experiência da segunda grande guerra, e a condição do ofício do poeta do pós-guerra, que já não é um demiurgo e, sim, um operário da palavra que a custo trilha caminho. nos poemas de Wislawa Szymborska esse trajecto encontra sempre um destino realizado de forma desarmante entre contrastes de humor e tristeza, de dúvida e do meter à prova, de inteligência e da ingenuidade de uma criança, configurados num território poético de achados entregues ao leitor como uma notícia, por vezes um postal ilustrado, que nos chega de um lugar que sabemos existir, mas que muito poucos visitam e, menos ainda, nos podem dele dar conta.
Dantes sabíamos o mundo de trás para a frente: — era tão pequeno que cabia num aperto de mão, tão simples que se deixava descrever com um sorriso, tão comum como o eco de antigas verdades numa prece.
A História não nos saudou com uma fanfarra triunfante: — em vez disso, atirou-nos areia para os olhos. Diante de nós estavam caminhos distantes e sem saída, poços envenenados e pão amargo.
O nosso saque de guerra foi conhecer o mundo: — é tão grande que cabe num aperto de mão, tão difícil que se deixa descrever com um sorriso, tão estranho como o eco de antigas verdades numa prece.
Wisława Szymborska é, entre os poetas polacos, a autora mais traduzida. E isso não me parece por acaso: juventude, família, experiências de formação (com todo o embaraço e sucesso que acarretam) são características recorrentes da sua obra — e características que facilmente dialogam com o leitor. Sobretudo, numa coletânea como Um inconcebível acaso que reúne cronologicamente os poemas da autora dedicados, exclusivamente, à abordagem poética autobiográfica. Dividido em três áreas temáticas que acompanham a poesia dedicada à infância, à idade adulta e à maturidade da autora, este volume, que abre com o dístico o mundo nunca está preparado / para o nascimento de uma criança, consegue oferecer, simultaneamente, uma perspetiva da realidade e da identidade de Szymborska — mulher e poeta —, e da realidade da Polónia nos anos em que a guerra, a destruição e o horror dos campos de concentração lavraram a terra.
Sim, lembro-me dessa parede na nossa cidade em escombros. Projectava-se quase até ao sexto andar. No quarto andar tinha um espelho, um espelho inconcebível, inteiro e bem preso à parede.
Já não reflectia o rosto de ninguém, nem as mãos que compunham o cabelo, nem a porta que ficava em frente, nada que se pudesse chamar lugar.
(...)
E, como todo o objecto bem fabricado, funcionava na perfeição, com uma profissional falta de espanto.
Perpassados pela ironia, pelo alheamento da ocupação — que se revela na articulação de mecanismos de memória e revisitação no seu discurso poético — e pela sombra de uma cultura que se molda à força sobre escombros de dias que já não voltam, os poemas aqui reunidos lêem-se como uma fortíssima ode à vida (Acredito numa grande descoberta / Afirmo que tudo vai acabar bem), à esperança, ao amor, à arte e à liberdade (Eu ainda a dormir / e os factos já a acontecer). Declaradamente evocativos da condição da mulher (Não te devo nada, / eu, uma mulher normal, / que apenas sabe / quando trair / um segredo alheio), revestem-se daquela forma cândida, sensivelmente artística e quase acidental que apenas Szymborska conseguia alcançar:
O dia seguinte promete ser um dia de sol, embora àqueles que ainda estão vivos também possa ser útil o guarda-chuva.
O mundo nunca está preparado para o nascimento de uma criança. E para o nascimento de um poeta?
Incrível antologia desta autora. Deixo-vos uns excertos:
"O mundo apresenta-se claro mesmo em profunda escuridão. A todos é concedido por um preço acessível. E ninguém pede o troco à saída da caixa.
Quanto a sentimentos - satisfação. E nada de parêntesis. Vida com um ponto final nos pés. Ao som das galáxias."
"A História arredonda os esqueletos ao zero. Mil e um são sempre e apenas mil. Esse um é como se nunca tivesse existido: embrião imaginado, berço vazio, cartilha aberta para ninguém, ar que ri, que grita e cresce, escada para um vazio que dá para o jardim, lugar de ninguém numa fila.
Foi aqui, neste prado, que se fez carne. Mas o prado cala-se como testemunha subornada."
"À noite, no céu, brilhava uma foice que ceifava o pão sonhado. Voavam mãos de ícones enegrecidos segurando nos dedos cálices esvaziados, Na grelha de arame farpado, um homem balouçava. Cantava-se com terra na boca. Um belo canto sobre como a guerra atinge direito o coração. Escreve, quanto silêncio reina aqui. Sim."
"O nosso saque de guerra foi conhecer o mundo: -é tão grande que cabe num aperto de mão, tão difícil que se deixa descrever com um sorriso, tão estranho como o eco de antigas verdades numa prece."
"Sou um péssimo público para a minha memória."
E tantos, tantos mais. Leiam e reflitam e escrevam sobre estes poemas.
"(…) É a própria evidência existencial que força os poemas à autobiografia: os pais, o amor conjugal, a guerra. Há quem suspeite que a grandeza da poesia polaca moderna tenha alguma coisa a ver com a repercussão da História, com sucessivas tragédias como a invasão alemã, o extermínio dos judeus e o comunismo. Nesse contexto, a ideia de “autobiografia” confunde-se com a “História” enquanto tempo-que-nos-coube-viver, ainda que um poema avise, através de delirantes enumerações, que a torrencialidade da História a torna aleatória. As coisas acontecem de uma maneira e não de outra devido a acasos inconcebíveis, e a sua hipotética lógica é uma ficção retrospectiva. (…)" Pedro Mexia, "O jeito intrigado de Wisława Szymborska" - Jornal Expresso (5-Janeiro-24)