Numa cidade de mais de dois milhões de habitantes, uma mãe morre e dilacera uma família inteira. Do outro lado do mundo, em festa, um filho tem que interromper a cavalgada em um avestruz para receber a notícia. Sua mãe está morta.
A cidade é Belo Horizonte; o filho é Rafael, o narrador deste romance avassalador. Rafael é também o nome do autor deste livro, e eu e você não saberemos se é coincidência ou um pouco mais que isso. Rafael, o autor, escolhe com cuidado as suas epígrafes: Laura Aleixo, Pedro Nava, Drummond, Gabriel García Márquez. Os quatro, juntos, nos dão pistas do que vamos encontrar aqui, neste Dos que vão morrer, aos mortos: uma escrita da intimidade, voltas e voltas no cemitério, a morte tão insistente, inevitável, maldita, inadiável. O nosso lugar no mundo, aqui, onde nos morrem os nossos, no meio da nossa cara, uma ferida aberta. Até quando?
Rafael, o autor, dança com a morte como quem dança com um inimigo a quem se deve muito respeito, reverência e mesmo alguma admiração. Um inimigo que está do outro lado por causa das circunstâncias, e só. Rafael, o personagem, talvez ainda não tenha descoberto a mesma força, ou resiliência, mas faz esse caminho, pelas ruas de uma Belo Horizonte que é inconfundível, apaixonante e que testemunha em silêncio a história de uma família que podia ser a minha ou a sua: que se quebra, se esfacela, se reencontra, se reconstrói. E depois outra vez. Uma mãe, uma Laura, que podia ser a sua, a minha, que podia ser eu ou você, que se perde, que se quebra, que se encontra numa igreja também quebrada. Que morre e que com isso move mundos inteiros. Um livro para ser lido imediatamente. E depois outra vez. Se possível, nas ruas da cidade que, por sorte, é a do Rafael autor, a do Rafael personagem e, também, a minha.
"Na morte de minha mãe, me fiz adulto. No luto pela partida dela, fui aprisionado pelo medo. Este livro é minha libertação, e estas páginas foram um exorcismo."
Li numa sentada só. Uma abordagem muito emocionante e sensível do luto. Impossível não se tocar pela forma como é conduzida a narrativa. A história é alternada entre o ponto de vista do filho enlutado e cartas escritas pela mãe morta.
Conhecer um pouco mais do que poderia ser os sentimentos de Dona Laura ajudam muito a humanizá-la para o leitor, que é então inserido em uma tragédia na qual nenhum dos envolvidos é culpado: nem a mãe, nem a família.
Me emociona muito, em particular, o capítulo 11. Ele mostra como o luto é um sentimento muito confuso e é possível ter momentos muito felizes em meio a algo tão imponente como a perda de alguém muito querido.