Trata-se do resultado de uma cuidadosa (e contínua) pesquisa-coleção que vem sendo realizada pelo autor desde sua formação intelectual, na graduação em História (Univates), sobre vivências LGBTQIA+ no Rio Grande do Sul. Seu livro anterior, O crush de Álvares de Azevedo (Libretos, 2020), venceu o Prêmio Açorianos de Literatura de 2021 nas categorias Ensaios de Literatura e Humanidades e Livro do Ano. Jandiro convida o leitor dialogar e refletir através de uma escrita de cadência elegante, que afina o rigor na pesquisa com a clareza no texto, para que todas as pessoas interessadas no assunto se sintam convidadas a participar da conversa. O gaúcho era gay? Mas bah! (1737-1939) é um livro de formato híbrido que pode ser visto como uma espécie de enciclopédia comentada, com seus “verbetes” (pessoas, lugares, notícias, acontecimentos, etc.) organizados por tema. Há um significativo relevo às fontes históricas – jornais, revistas, documentos, entre outras – sinalizadas em notas de rodapé. Material recolhido em visitas a museus e acervos por todo o estado. Um tomo como esse, com essa abrangência, é um feito inédito, que pretende contribuir para os estudos LGBTQIA+ no Brasil.
Com rigor científico, respeito e exposição de fontes é um toque pessoal do autor, marcado por uma fala e escrita sem rodeios e perspicaz, a obra se insere no panteão das grandes pesquisas para contar a história das gentes - no caso, uma gente bem identificada, pertencente ao grupo LGBTQIA+ no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. O gaúcho autoproclama-se macho, a dureza da lida do campo e as inúmeras guerras de fronteira ou internas (Revolução Farroupilha, 1835-1845, a Revolução Federalista, 1893-1895, e a Revolução de 1923, entre outros) contribuíram para o desenvolvimento de um modo de pensar extremamente conservador, e, acima de tudo, tradicionalista. No entanto, sabe-se que a complexidade das relações sociais e a multiplicidade de gêneros sexuais conceituados hoje não são “invenções modernas”, e sim entendimentos sobre formas de viver que sempre existiram. Já se utilizou, em outros escritos, a expressão “mulher-macho”, para eliminar a diferença entre homens e mulheres e entendê-los sob uma perspectiva comum humana. Dentro dessa lógica, não há como negar a existência do “gay-macho” - transformando, definitivamente a “macheza” em característica humana, comum e acessível a todos, em maior ou menor grau. Mas não é sobre isso que o autor escreve: é sobre como a existência de pessoas com diversidade de gênero sempre existiram, de como elas (sobre)viveram e de como essa história precisa ser contada para que não sejam mais tratadas como algo diferente ou não-natural, raiz de toda a estrutura de preconceitos e discriminações. E Jandiro Koch atinge o objetivo, entrega a verdade e a lógica estatística, sem perder o bom humor e a (sadia) provocação. Uma obra que deveria ser trabalhada nas escolas de todo o mundo como exemplo de civilidade na reconstrução histórica de povos e grupos neglicenciados e/ou perseguidos.