Luciana é uma assistente social capturada por enigmas pessoais e que procura manter trajetos desatentos de si ou de seu desejo. Claudia, mulher que habita as calçadas úmidas da cidade, expõe com sua existência barulhenta e desconcertante que sempre há algo que se agita nas margens. O dorso encurvado de Almerinda carrega mais do que dor, nas curvas de que é feita ela sustenta restos de histórias que alimentam as raízes de uma árvore frondosa. Uma Porto Alegre que é bem mais do que pôr do sol, uma cidade que tem suas margens lambidas, ameaçadas, engolidas e vomitadas, é nesse cenário que se desdobram os caminhos encharcados das mulheres que transbordam em encontros, estranhamentos, perdas, delicadezas, generosidade e desamparos. Com uma escrita literária que entrelaça em sua trama de modo habilidoso política e poética, nada falta ou sobra no texto de Carolina Panta, e a autora constrói uma história conduzida por uma narradora que ignora os muros da cidade. A continuidade entre dentro/fora é paisagem e personagem, fazendo emergir emaranhados ocultos e elos aparentemente rompidos. Falso Lago é a narrativa de uma geografia feminina feita a partir do que não tem nome ou dos nomes que necessitam ser desfeitos. Quem precisa saber se rio, lago ou estuário na inundação das ruas? Depressão e loucura se dissolvem nas águas, ilhas, tripas, sulcos da cidade. E o que resta é profundamente humano.
O guaiba é um corpo d'água que não se encaixa bem nos conceitos geográficos padrões.
A Luciana é mãe e assistente social que também não se enquadra perfeitamente em nossas categorias.
O livro é sobre o que fica a margem, o que não se enquadra muito bem. Tanto em aspectos sociais, quanto em subjetivos. Traz temáticas de mudanças climáticas, críticas políticas e relações humanas profundas e variadas.
É um livro bonito e me emocionei com ele. Em parte porque admiro a região das ilhas de Porto Alegre e também porque amei ler um livro com um jeito de se expressar tão próximo ao meu.