Do dia 15 ao dia 19 de outubro do ano de 2019, em pleno desgoverno Bolsonaro, período nefasto em que a democracia assim como o Estado Democrático de Direito, correram sérios riscos aqui no Brasil (e também na “terra da oportunidade”, os Estados Unidos da América, em que o igualmente nefasto “trumpismo” se encontrava no poder), o Sesc São Paulo, em associação com a Editora Boitempo promoveu o seminário “Democracia em colapso?”. Como destaques três grandes mulheres, intelectuais e ativistas ligadas às questões dos direitos humanos e, talvez principalmente, ao movimento feminista: a estadunidense Angela Davis, nascida em 1944, filósofa, professora, ativista e escritora, a italiana Silvia Federici, nascida em 1942, escritora, militante feminista e professora e a estadunidense Patricia Hill Collins, nascida em 1948, professora, escritora e ativista.
O evento promoveu a discussão dos temas mais candentes desse surpreendente século XXI como a questão da representatividade feminina, o que é o feminismo e o que é ser feminista, a persistência e ao mesmo tempo a crise do patriarcalismo/machismo, a democracia e acima de tudo: pode a democracia, em sua acepção mais abrangente e “realmente democrática”, existir sob o capitalismo, um sistema que, no entender das autoras e de muitos especialistas, privilegia o acúmulo de bens, o consumismo, as desregulações e “flexibilizações” que destroem o meio ambiente, aviltam o trabalho e os trabalhadores e que convive bem com a desigualdade que “paradoxalmente” impede a existência da “verdadeira democracia”?
Questões muito polêmicas e instigantes que são abordadas pelas ativistas com coragem e consistência.
O seminário foi transformado em livro e lançado neste ano de 2024 em que o clima está relativamente desanuviado com a derrota (por enquanto) do “trumpismo” nos USA e do “bolsonarismo” (por pouco e por enquanto) no Brasil.
É um privilégio tomar contato com o pensamento arrojado e eivado de grandes argumentos das ativistas.
Vale a pena citar, ainda que de forma bem objetiva a essência do pensamento das três damas do ativismo social e do feminismo:
“Frequentemente pensamos sobre a violência contra a mulher apenas como algo que se desdobra entre indivíduos, dentro de relacionamentos e entre pessoas desconhecidas. Mas ela é parte das estruturas sociais, políticas e econômicas. A melhor maneira de começar a confrontar essa violência é continuar a construir movimentos, torná-los mais fortes e reconhecer que não se trata de ataques a mulheres individualmente”.
Angela Davis
Mas dentro do feminismo negro, em sua tradição de resistência intelectual e política, tem havido uma questão constante: o que é necessário para que as pessoas negras sejam livres? Ninguém está livre até que as mulheres negras sejam livres. Não podemos ter mulheres e homens negros livres e ainda ter pessoas LGBT subordinadas. Isso não pode existir. Será que somente as pessoas negras de classe média podem ser livres? E quanto às pessoas negras pobres? Então, entramos nesse discurso em particular ao longo do tempo. Não é uma epifania de ideias, mas um trabalho diário e contínuo”. Patricia Hill Collins
“A primeira reflexão é sobre a democracia em colapso. A pergunta é: se olharmos a história dos últimos quinhentos anos, podemos realmente dizer que houve um tempo na história em que o capitalismo foi de fato democrático? Se a democracia significa autodeterminação, se a democracia significa ‘governo do povo para o povo’, como dizem nos Estados Unidos, e se a democracia significa que todos têm acesso igual aos frutos da Terra, infelizmente sou levada a concluir que nunca houve nada semelhante na história do capitalismo moderno”.
Silvia Federici
Excelente e leitura obrigatória para todos aqueles e aquelas realmente interessados em refletir de verdade acerca das grandes questões de nossos tempos.
Pena o livro ser tão breve (apenas 128 páginas) e deixar um “gostão” de “quero mais”.