Coxas, de 1979, é o quarto livro do poeta Roberto Piva.
SBORNIA FILAMENTOSA
O pitecantropus as cidades gregas as doces cobaias requentadas & comidas nas favelas o divã da histeria relembrando sonhos tribais fuxico do chefe sandálias desafiveladas na casa das máquinas o prédio é de Maria- Mole onde roncam cascavéis humanas minha mão é deus passo decisivo para el tránsito del mono al hombre miniatura da linguagem ruborizada Macunaíma-Pop aventais de luxo balançam nos varais de Cobra Norato Panis angelicus você sabia que Simão o Caolho vem para jantar? por que não o bispo de Berlim? a cicuta é grátis o corvo nada entende de política o jaburu come picadinho & tira a bengala do ar igapós sonham com coalhada a menina ficou atrapalhada na casa das máquinas tenebroso impeachment do caos Engels de turbante & su Dialectica de la Naturaleza (que Polén leu chapado nas montanhas de Atibaia) cantando um agente da CIA de chuteiras cidades de metal precário um quimono para o Príncipe das Trevas dos ovos saltaram duas anãs obscenas que acenaram lenços alaranjados & partiram para sempre em direção à curva de nível. Deus é quimbandeiro.
esta homenagem coincide com a deterioração do Gulag sul-americano minado pela crise de corações & balangandãs econômicos onde se mata de tédio o poeta & de fome o camponês & sobre os pés femininos se calça a bota de chumbo de várias cores gamadas com Hitleres de plantão em cada esquina recoberta de saúvas & amores escancarados como túmulos onde tuas coxas, Marquês, servem de amparo delicado para o garoto que chupa teu pau enquanto uma mulher ruiva te cavalga Assim, anotemos o nome da vítima-orgasmo-blasfêmia antes que as araras entrem na orgia com seus estimulantes bicos recurvos & um estratagema de cipós afague os sóis da desolação cotidiana em nível de paraíso A noite é nossa Cidadão Marquês, com esporas de gelatina pastéis de esperma & vinhos raros onde saberemos localizar o tremor a sarabanda de cometas o suspiro da carne.
Não havia lido Roberto Piva, mas ao passar pelas páginas de COXAS me deparei com algo surreal, breve porém surreal, o antropofágico sensualizado, numa sexualidade sem falsos moralismos ou romanticismo barato, aqui nada de regra clássica sobrepoe ou atrapalha a existência do mais belo do ser humano, a sua pureza instintiva sem necessidade de falsos rodeos, nada adocicado tampouco fácil de digerir, Coxas é de uma estrutura poética muy singular, a la Bocage, é uma obra que fácilmente estaría no palco de Zé Celso. Fuder é fuder (nesta grafia), cú e cú e tudo isso ainda é capaz de carregar ternura sendo o que é. É Piva e sua "destruição maravilhosa do Carácter " ou do falso Carácter.