Uma doença sem diagnóstico acomete meninas do internato regido por freiras em Costa Branca, comunidade fictícia no interior do Rio Grande do Norte, conhecida por suas grandes salinas. Dores, paralisia, distúrbios de comportamento, mutismo. Exames não revelam a origem, a possibilidade de tratamento. O mistério se arrasta por um ano, até ser anunciado à imprensa. Clara, uma jornalista e escritora afastada de Natal, sua terra, retorna, então, para investigar e noticiar. Os acontecimentos do romance Salitre, de Danielle Sousa, se mostram numa rede ampla: passado e presente estão conectados a uma figura mitológica, mas muito real, capaz de vingar o sangue derramado de mulheres: Diana. A deusa da caça atira e mata, anônima, numa desforra contra a misoginia. Clara se vê diante não só das consequências da impunidade a homens criminosos no corpo de adolescentes, como no centro de um combate velado, oriundo anos antes de seu nascimento.
Num internato regido por freiras em Costa Branca, no interior do Rio Grande do Norte, as internas começam a apresentar sintomas estranhos: rosto enrijecido em caretas, afonia, desmaios, paralisia. Clara, jornalista potiguar há muito tempo distante de seu lugar de origem e reconhecida por um trabalho investigativo anterior sobre uma justiceira da cidade que matava homens condenados por estupro, volta ao seu estado para cobrir esses fatos.
A trama do internato por si só já é muito interessante, mas ela ganha ainda mais força graças às diferentes camadas de enredo que lhe são adicionadas: primeiro, a história familiar da protagonista, a jornalista Clara, de algum modo ligada aos acontecimentos estranhos; segundo, o cotidiano da cidade de Costa Branca, marcada pela banalização e impunidade da violência contra a mulher; terceiro, a história das mulheres, da patologização de certos comportamentos, dos subterfúgios de resistência; quarto, uma história meio sub-reptícia, escondida, da natureza; e quinto, e talvez o mais potente, a recuperação do mito greco-romano da caçadora Diana/Artemísia, personificada em diferentes personagens (que se soma perfeitamente às figuras católicas evocadas pelo cenário principal).
Tudo isso é amarrado discretamente no romance, que se estrutura de forma não linear pela alternância muito bem aproveitada entre a narradora em primeira pessoa, Clara, e um narrador de terceira, com diferentes alcances dos acontecimentos e também tonalidades na linguagem. Isso contribui para a consolidação de um ritmo veloz e meio investigativo, com reviravoltas provocadas pelo modo como a autora distribui certas informações no texto. Depois que comecei, não consegui parar.
Me chama a atenção também a ambientação potiguar. Fico muito feliz de ver uma escritora de Natal, terra de muitos poetas, escrevendo ficção — principalmente qnd essa ficção é de qualidade e cheia de referências ao nosso estado. Não tem como não esboçar um sorrisinho ao ver uma menção ao mate da cidade, à ladeira da Romualdo Galvão, ao Severino Lopes (o sorrisinho começa a desaparecer), a outras ruas... E, principalmente, destaco a construção de Costa Branca, a cidade fictícia no interior, que muito se alimenta da nossa paisagem interiorana: o sol escaldante, o açude, os tipos humanos, a arquitetura, o tempo meio estagnado, as dunas de sal de Macau. É um cenário aparentemente improvável para a situação, mas muito propício para os sentidos do texto: a brancura do sal acumulado em montes passa essa noção de beleza, de tranquilidade, de harmonia ao olhar; mas por trás dessa brancura, por trás das dunas salinas, há rastros de violência à vista, perigos que rondam meninas e mulheres. Mas contra o sal há outra imagem poderosa aqui: o salitre, fertilizante e explosivo, pronto para insurgir.
O fim do romance me parece bem alinhado com certo tipo de desenlace apoteótico da narrativa brasileira contemporânea no qual o oprimido reage ao opressor, e isso muito me interessa. Está de forma mais evidente em Bacurau, mas também em Torto Arado, Caminhando com os Mortos, Onde pastam os minotauros (esses dois inclusive vieram à minha mente várias vezes na leitura de Salitre — o de Micheliny, pela questão de gênero e pela ambientação no interior do país, que muito lembra a ambientação de Costa Branca; o de Joca, pela recuperação do mito). O modo como a autora faz isso aqui é singular: sem muitos spoilers, penso que o romance se encaminhava para um fim de permanências, meio que descrente na possibilidade de reação, de """destruição do opressor""" (não é essa a expressão, mas fiquemos com isso) — só que isso muda nas últimas páginas de modo interessante, pela ação do elemento natureza (e aí tudo ganha um tom meio apocalíptico que casou bem com a dimensão mítica do texto).
"Aconteceu no passado, acontece hoje e o futuro só poderá ser detido se a cidade for varrida para dentro do mar em sal. Duvido muito que isso aconteça. Olho as alunas deitadas nas camas da enfermaria improvisada, quem acreditaria nelas? Quais histórias se escondem na perna dormente, no desmaio fora de hora, no esquecimento ou no riso constrangedor?
Que saída se tem, além do corpo que fala?" (p. 89)
Incômodos: no início do livro, a narradora Clara por vezes usava o artigo definido antes dos nomes das pessoas. Achei meio estranho um "grito pela Mari" vindo de uma narradora potiguar. Mais pra frente, deixei de reparar nisso e dps fiquei pensando se não foi uma forma de mimetizar na linguagem o afastamento/a repulsa que a personagem tem em relação ao seu lugar de origem. Ela viveu fora, não sabemos exatamente onde, e pode ter incorporado outros hábitos de fala.
As cenas de violência são mto agonizantes e minuciosamente bem escritas. Tudo sobre a justiça feita pelas mãos da Diana é satisfatório e perturbador. Muito interessante ler uma história ambientada em Natal, ainda que não tenha tanta referência aos espaços reais da cidade mesmo, dá pra sentir um gostinho norte riograndense num geral.
This entire review has been hidden because of spoilers.