#JulhoNobel
Queria muito ter gostado deste segundo livro que leio de Grazia Deledda, uma das poucas mulheres a serem agraciadas com um Prémio Nobel da Literatura, uma escritora que desafiou Mussolini, uma autodidacta que não era vista com bons olhos pelos seus conterrâneos porque expunha a sua ilha natal, a Sardenha, como o sítio agreste, pobre e conservador que era no início do século XX.
Esperava algo contido e sóbrio como “Depois do Divórcio”, livro de que gostei bastante, no entanto, encontrei uma tragédia histriónica em que personagens torpes e degradantes coabitam num cenário de miséria humana e económica de hiper-realismo insuportável.
Naquele gemido juntava-se toda a dor, a doença, a miséria, o abandono, a angústia não escutada do lugar e das pessoas; era a própria voz das coisas, a lamentação das pedras, (...) da gente que não comia, das mulheres que não tinham vestidos, dos homens que se embriagavam para se atordoarem e que batiam nas mulheres, nas crianças e nos animais, porque não podiam bater no destino, das doenças não tratadas, da miséria aceite inconscientemente como a própria vida.
Depois de ser enganada por um homem casado, Oli, com apenas 15 anos, expulsa de casa e sem meios de subsistência, decide largar o pequeno Anania em casa do seu sedutor e desaparecer sem deixar rasto. Ainda que acarinhado pela madrasta e com a protecção de um padrinho abastado que lhe permite prosseguir com os estudos fora da aldeia e até lhe concede o que ele mais deseja no mundo, Anania tem a obsessão de encontrar a mãe, mesmo suspeitando que a vida não lhe terá sorrido como a ele.
Invadiu-o uma sensação de gelo. Quem era aquela mulher que ele injuriava? Aquele montão de trapos, aquele asqueroso caracol, aquela mendiga, aquele ser sem alma? Podia porventura ela compreender o que lhe dizia? O que tinha feito? E aliás, que podia haver em comum entre ele e aquela criatura imunda? Seria, realmente a sua mãe, aquela? E, se o era, que significava isso?
Recorrendo a uma prosa empolada, a transbordar de interrogações e exclamações, com um protagonista a raiar muitas vezes a histeria, “Cinzas” assemelha-se a um autêntico faduncho num LP que gira a 45 rotações por minuto.
O que era, pois, o homem? E o coração humano? E a vida, a inteligência, o pensamento? Ah, sim, agora que estas perguntas lhe subiam já não ociosamente aos lábios, agora que a realidade batia em volta dele as suas asas fúnebres e rasgava os vapores da ilusão, agora ele respondia às suas perguntas e sabia o que era o homem, o seu coração, a sua vida: engano, engano, engano!