... é o segundo volume da trilogia histórica medieval, criada por Marcello Simoni, aclamada e premiada em Itália, seu país de origem.
Tem como figura principal um negociador de relíquias, de nome Ignazio Álvarez, um moçárabe, mais conhecido por Ignazio de Toledo.
Os livros constituem aventuras independentes, que, no entanto, acompanham o desenrolar da vida desse mercador, da sua família e dos amigos que ocasionalmente se lhe foram juntando pelo caminho.
Têm, como ponto de partida, missões que lhe são atribuídas por altas figuras do reino de Espanha, com base na fama adquirida de homem conhecedor, culto e astuto, com relutância em exprimir sentimentos.
Bem caracterizado física e psicologicamente, Ignazio parte, desta vez, para o sul de França, ao serviço de Fernando III, rei de Castela. O objetivo declarado era descobrir o que estaria por detrás do desaparecimento da sua tia, a rainha Branca de Castela, viúva do monarca francês.
A trama é de autoria do escritor, mas baseada em factos realmente acontecidos durante o século XIII, quer no plano político, quer no plano cultural, social e lendário.
Com talento e habilidade para ir ao cerne das questões, uma capacidade de observação sem par e uma enorme aptidão dedutiva, Ignazio consegue resolver, a custo, o problema que afligia a corte castelhana, pondo a nu a verdade escondida.
Vagueando pelas terras do Languedoque, no sul do território francês, em pleno período de ascensão dos cátaros e difusão dos poderes da alquimia, o mercador toledano, com ar entre o mundano e o filosófico, inicia uma investigação que, desde logo, se revela cheia de perigos, intrigas, meias verdades e traições. Com o desenrolar dos acontecimentos, ele apercebe-se de que lhe será imprescindível chegar ao paradeiro de um importante e misterioso manuscrito para que a verdade seja revelada. Deslindar os factos à volta das perseguições religiosas, descobrir o segredo do ouro alquímico e o lugar que o fabricava era meio caminho andado para concluir a investigação que levara a cabo pelo caminho trilhado pelos peregrinos da Idade Média.
Mesmo sendo bem sucedido, Ignazio usa de alguma astúcia e meias palavras para informar o rei do final da sua investigação. Aludindo indiretamente à realidade dos acontecimentos ocorridos nos meses de verão daquele ano e evitando palavras demasiado acesas, o moçarabe consegue, assim, que o soberano o continue a achar útil; evita, simultaneamente, o poder da igreja estabelecida que ardia na vontade de o interrogar e contra ele formular uma acusação de heresia. É que o frade dominicano que rodeava o rei também não era bem quem parecia ... e o soberano não só o sabia como lho atirou à cara.
É interessante e palpitante ver como estes jogos duplos de interesses e ambições fizeram sempre parte das sociedades ... como, desde sempre, o fingimento coabitou em relações cultivadas e toleradas para atingir objetivos que, embora de maneiras diferentes, servissem todas as partes.
Eva Laginha