3.5**
Acompanhar o percurso de um autor é sempre uma experiência recompensadora. À medida que ficamos mais velhos, escrevemos mais, lemos mais há sempre perspectivas diferentes da nossa vida que influenciam a escrita mas também a leitura.
Não querendo tecer elogios rasgados até porque costumo ser bastante comedida nisso, mas tenho a Célia como uma boa autora. Não uma boa autora portuguesa mas sim uma boa autora independentemente da nacionalidade. Quando li "A filha do barão" e "Uma mulher respeitável" achei que seria evidente que a partir dali só conseguiria atribuir nada mas elogios às suas publicações. No entanto sinto que no "No tempo das cerejas" lembrou-me mais a Célia do "Funeral da nossa mãe" do que a Célia dos tempos da Marcador. Se você leitor gosta da Célia desse período inicial, então este livro é para si!
"No tempo das cerejas" é um Bildungsroman, que de acordo com a Wikipedia se traduz para português como romance de formação e, como não gosto desse termo, irei continuar a apelidar esses livros como Bildungsroman. É um subgênero literário no romance, onde o leitor acompanha o crescimento moral/físico de uma personagem desde a sua infância até, pelo menos, à idade adulta. Vemos o mundo a mudar em contraste com a personagem principal e acompanhamos também as mudanças dela vs. o seu redor. Por norma, num Bildungsroman a parte da infância é sempre a mais curta. Já em Jane Eyre acompanhamos o percurso dela breve na escola e é a parte mais curta mas também a mais monótona.
"No tempo das cerejas" a infância da Irene ocupa quase 100 páginas o que num romance de 374 páginas é bastante espaço ocupado com a Irene e a sua infância que não teve muita coisa de marcante. Chega mesmo a partes que se arrastam um bocado porque mudamos de POV da Irene para o Serafim para ele nos dar contexto/descrições de Lisboa como estava em 1947 e andamos um bocado para à frente e para trás.
O romance é escrito na maioria pelas palavras da Irene com o que ela se lembra, ou seja os acontecimentos são ora ditos ora demonstrados. Quando são demonstrados, nota-se uma diferença na fluidez na leitura. Quando são contados apresentam sempre um biased da parte da Irene.
O que me fez sentir que Serafim era um bocado inútil enquanto personagem, dado que ele não tem controlo nenhum sobre a narrativa. Ele é apenas um veículo sobre o qual nós sabemos a história, tal como em "A entrevista com o vampiro" Louis contrata um jornalista para contar a vida dele.
Durante a leitura, o biased de que falei anteriormente torna-se evidente - Irene tem dinheiro, não é muito bonita, mas é quanto baste - mas nota-se que o pessoal à sua volta no início são pessoas normais mas depois à medida que vão ficando adultos e o ponto de vista dela muda, também as descrições ficam mais amargas.
Pode ter sido sem intenção, mas as amigas viram inimigas, os amores viram traidores ou são ignorados. É evidente com o tempo que Irene é uma pessoa temperamental e que embora se ache uma coisa, as suas ações mostram outra. Este último torna-se mais claro com o final que vai um bocado contra a sua história de vida.
Tenho sempre alguns problemas com livros contados pela primeira pessoa por causa desse biased, vemos sempre o ponto de vista de quem está a contar mas não o das outras pessoas. Exceto mais para o final quando se introduz mais capítulos onde se mostra Irene a interagir com as personagens. Nesses capítulos as personagens deixam de ser o que Irene mostra delas e passam a ter voz. E esses são os melhores capítulos do romance, em especial na 2º metade do livro mais para o final, os capítulos com Rafael e Henrique (não é spoiler), onde lhes é permitida ter uma voz própria, o livro torna-se mais quentes.
A Célia captou muito bem a frieza da Irene em relação a tudo exceto ao fado. A vida para ela é cantar e mesmo as suas relações seja com a família/homens/amizade são relatadas com alguma indiferença. Muito disto acontece também porque a Irene conta-nos o que se passa, e é comum quando se passa para o contar em literatura, pode haver alguma ausência de emoção.
Gostava muito de ter visto a história da Helena pela POV dela, a Helena é uma personagem muito interessante com imensos temas psicológicos que seriam excelentes de explorar.
Quanto às descrições de Lisboa e da época, algumas são excelentes, outras aparecem em capítulos onde não acontece muita coisa, não há grandes desenvolvimentos. Senti que a leitura foi muito demorada em alguns capítulos onde terminei de os ler e senti que não tinha acontecido nada de relevante porque lá está ou eram capítulos para descrever a cidade/acontecimentos ou alguns tipo filler. O que contrasta com o final que foi tão abrupto que senti que foi um bocado uma chapada ao leitor. Até porque até atrevo-me a dizer que não houve uma conclusão para a sua vida. Houve um final sim mas não uma conclusão. Nem acho que fosse preciso um capítulo grande, mas sinto que não houve mesmo um final, uma conclusão.
Não sei se foram sugeridas outras formas de abordar o final (atenção não tenho nada contra o final em si, achei giro, mas foi mais a forma como foi escrita), mas eu teria sugerido outras formas.
"No tempo das cerejas" é um retrato bastante intimista da vida de Irene, contada pelos olhos dela, onde é evidente que este romance diz bastante à autora. Senti que era muito pessoal e que só a partir da segunda metade é que libertou o romance dela para mim, leitora. E quando conseguiu senti que estava a ler uma Célia que uniu toda a voz dos seus romances passado num só.