«— O que é isto?! A dona da lavandaria segurou-o com cuidado, pousou-o depois no balcão. — É o teu vestido de noiva? Que lindo! Olhou então a vizinha e perguntou, perplexa: — Branca! Porque é que estás nua? Branca olhou por si abaixo como se também para ela fosse uma surpresa, mas mostrou-se absolutamente indiferente: — Porque posso.»
- Já tens vestido de noiva? Como é que sabias que te ia pedir em casamento? - Gaspar, o casamento não se pede, dá-se ou não se dá. E tu CONVIDAS-ME para casar dia sim, dia não…
Sei pela soberba poesia que escreveu que Filipa Leal é ácida, mas a forma como a aplicou neste conto não me convenceu totalmente; por um lado, pelo ambiente queque que criou, por outro, pela inclusão de personagens-tipo, como é o caso da sogra e de dois gays casados ou divorciados. Sei que acontece, mas logo dois em 80 páginas? Logo duas mulheres totalmente tapadinhas em 80 páginas? E eu é que saio pouco… “O Vestido de Noiva” é, porém, uma divertida história de vingança que ainda deu para começar o dia a rir e a rolar os olhos com a super-tia das vinhas do Douro que vem a Lisboa combinar com o super-beto do filho a festa de arromba de 50 anos e de 10 anos de casamento deste, um inepto profissional do marketing que vive às custas da mulher ricaça e pintora e que, quando não está na esplanada, está no clube de padel das ‘migas, além de dar jantares para imensa gente possidónia, que bebe água com hortelã, come gaspacho de abacate e consegue empilhar numa única tosta brie e compota de abóbora e nozes. Que alívio ser pelintra… Amiúde, Filipa Leal deita a quarta parede abaixo para testar a simpatia do leitor pelas personagens, mas sinceramente só gostei do Adolfo, o cágado. Mais 0,5* por usar o termo "cágado" que me faz lembrar tempos e locais distantes.
Branca sorri. Sabe que Álvaro finge ter ciúmes do cágado real de Maria Eugénia mas que, de certa forma, tem hoje pelos dois o mesmo tipo de afecto: quase nenhum.
"Neste século do Tinder e de relações virtuais, há duas perguntas que poderíamos fazer em quase todas as aldeias universais: E vocês, estão felizes juntos? E tu, estás feliz sozinho? A vida contemporânea num certo mundo é hoje, mais do que nunca, uma "dança das cadeiras". Senta-se quem for mais rápido quando a música pára. Mas, ao contrário de outros tempos, só vai a jogo quem quer. E quem vai a jogo, quem ainda se casa ou quer casar-se, fá-lo porquê? Por amor? Por pressão social? Familiar? Para deduzir despesas no IRS?"
Primeira obra que leio de Filipa Leal. Um conto muito bem escrito e com um final surpreendente.
Gostei bastante deste conto de Filipa Leal. Prefiro a sua poesia, mas na prosa também está aquela magia que cria mundos onde apetece estar. Um talento único.
“É sabido que os hábitos variam muito mas, geralmente, quando uma mulher se casa, na maior parte das cerimónias, tem de haver um vestido de noiva. Em Portugal, costuma ser branco, símbolo de virgindade e pureza. Na China, por exemplo, deve ser vermelho, para assim trazer boa sorte e afastar os maus espíritos do casal. Na Índia, é comum ser rosa; na Nigéria, pode ser cor-de-laranja com brilhantes e garridos laços grandes na cabeça. (…) É a única peça de roupa que, sobretudo as mulheres, e em princípio, usam apenas num dia das suas vidas: o vestido de noiva.”
Um pequeno conto que trata o casamento e as relações humanas com humor, ironia, desconfiança e até alguma malícia.
A hora do conto. Uma hora basta para ler este pequeníssimo livro. E não dei essa hora por desperdiçada, ainda que esteja desconcertada com a narrativa que mais parece um guião com cenas de muito sarcasmo.
Branca é quem tem um vestido de noiva que quer tingido de preto. O motivo... É inesperado. Como todo aquele grupo de amigos. O final é um sucesso. Uma festa!
Conhecia esta autora por ter cá em casa o seu livro de poemas, "Vem à quinta-feira". Os meus filhos já o leram e gostaram muito, por isso, quando vi este pequeno conto não resisti a trazê-lo para casa.
Branca é casada com David e fica destroçada quando descobre que ele é amante de Bárbara. Ema, que é irmã gémea de Rita, é a melhor amiga de David. O melhor amigo de Branca é Pedro, ex-marido de Ana, namorado de Lucas. Há ainda a Vera e o namorado, Gaspar.
David está a preparar uma festa para celebrar os seus 50 anos e o seu décimo aniversário de casamento com Branca. Tem a ajuda da sua mãe Maria Eugénia. Para completar o rol de personagens, temos ainda o pai de David, Álvaro, e um cágado que se chama Adolfo.
Um pequeno conto que fala de casamento, de relações amorosas e de amizade. Tem um ritmo algo frenético, no bom sentido, e um tom sarcástico que me agradou. E o final, embora sejam dadas algumas pistas, é inusitado e surpreendente.
Este conto é insólito, irónico, com um tom cómico, que levanta questões muito relevantes sobre relações amorosas/familiares, preconceitos e tudo aquilo que tentamos esconder dos outros e de nós. Além disso, achei interessante a forma como o narrador nos conduz pela narrativa, como vai levantando o véu, mas depois nos deixa em suspenso
"(...) A vida contemporânea num certo mundo é hoje (...) uma dança das cadeiras. Senta-se quem for mais rápido quando a música pára Mas, ao contrário de outros tempos, só vai a jogo quem quer. E quem vai a jogo, quem ainda se casa ou quer casar-se, fá-lo porquê? Por amor? Por pressão social? Familiar? Para reduzir despesas no IRS?" Pág 42/43
Trágico-cómico ☺️ adorei a forma como o narrador nos conduz pela história (ou pelas várias histórias) e o tom sarcástico que acompanha toda a narrativa. Gosto mais de Filipa Leal na poesia mas foram umas horas bem passadas dentro deste conto!
Livro (prosa - é um conto) curto e que se lê muito bem e rápido. Escrita fácil. História interessante. Gosto muito de Filipa Leal mas sou da opinião que é uma melhor autora em poesia ( das minhas favoritas). Em relação à história, tem personagens interessantes; diálogos bem conseguidos e outros nem tanto. Não encontrei passagens marcantes, nem grandes frases ou ações que deixassem a pensar. Por tudo isto, é um livro que me soube a pouco.
Sarcástico e desconcertante, este conto de Filipa Leal surpreende sobretudo pelo registo inusitado e pelos dispositivos narrativos a que recorre. Vidas do avesso, ziguezagues nessa estrada tragicómica que é o tempo feito jogo de espelhos, capaz de estilhaçar a autenticidade contra as convenções e expectativas. Nós, os outros e os abismos que nos separam. Pode alguém ser quem não é?, já perguntava Sérgio Godinho na canção. David e Branca respondem-lhe com a sua história. 3,5*
Branca leva o seu vestido de noiva à lavandaria de Vera. Esta fica surpreendida, não só pela forma como Branca aparece na lavandaria, como pelo pedido que lhe faz. Ao longo deste pequeno conto, acompanhamos a história de Branca e David que fazem 10 anos de casados. Conhecemos amigos, familiares e outras personagens que vão surgindo no desenrolar da trama. Esta história está contada com alguns saltos temporais que provocam no leitor a curiosidade de avançar na leitura. Há alguns apontamentos de humor e outros de sarcasmos muito bem escolhidos pela autora.
É um conto breve, de leitura rápida e instigante, sobre as relações entre casais, entre amigos, entre amantes, entre famílias. Inicia com com acontecimento inusitado, e termina com outro não menos desconcertante.
Adorei este livro, q ironia sempre presente na autora, faz com que queiramos ler tudo de uma vez só. Infelizmente o caso de David é mais comum do que possam imaginar, o que me leva a ter pouca esperança no mundo…
Deu-me muito gozo este livro! Foi como petiscar numa esplanada depois de sair do trabalho. :) Li algures que se trata de um conto, mas achei mais estilo novela... e lembrou-me os textos de teatro! Foi uma leitura divertida, irónica, e malandra; a autora parece pedir segredo (mesmo como se nos piscasse o olho enquanto coloca o indicador sobre os lábios em "chiu!") e simultaneamente lembrando-nos que as coisas por vezes enganam.