O alfabeto deste livro não segue uma ordenação típica. Em vez disso, ele percorre um caminho de colisões, da escrita do que se entrega só como espanto e impacto. Trata-se de uma amostra da vasta produção de Vladimir Safatle, feita de fragmentos, suas “escritas em farrapos” que misturam as muitas facetas de seu pensamento – política, ética, psicanálise, estética, filosofia, crítica cultural. Para quem já acompanha o trabalho de décadas do filósofo, o livro é uma surpresa. O rigor acadêmico de suas outras produções dá lugar a uma escrita de tateamento, com certo componente lúdico que nos leva a uma espécie de ensaísmo de pequenas formas. Para quem está pouco familiarizado com essa produção, a obra é um generoso convite a conhecê-la.
5/10 Em 160 páginas, o filósofo, pesquisador e professor da USP, Vladimir Safatle esbraveja sua opinião, boa ou ruim, sobre pontos diversos, sejam ele interessantes ou não, ao leitor nessa aventura gramatical e linguística.
Sua ideia literária parte de um insight interno sobre reformular o alfabeto para entregar uma análise política/cultural/sociologica ampla, porém rasa, sobre temas sociais e políticos que são anexados a letras do alfabeto. Seus 26 textos são intrigantes, subjetivos, filosóficos aos seus termos e indicam reflexões que atacam o interno, o ego e a própria materialização do normal perante ao ser social.
Vale a pena a leitura? Funcionando igual a uma peneira, há de ter esforço em achar os verbetes mais úteis ou que apresentam ideias mais representativas que os outros. A maioria, infelizmente, é um devaneio turvo e sem conclusão, um nó sem ponta esperando ser desatado talvez pelo analista do autor. Pouquíssimos são os que se salvam na bagunça mental de sua escrita, não obstante, estes respectivos valem pelo restante e ainda lucram sobre a ideia racionalizada independente de qual seja ela.
E um famoso e clássico “vá por sua conta em risco”, ainda sim acredito que a soma dos fatores ao final da obra seja positiva, mesmo que o trabalho investido seja alto. A leitura, pelo menos, é rápida, consegui terminar o livros em um dia.
como de praxe, ao receber o livro pelo circuito ubu, abri para dar uma lida nas primeiras páginas; foi meu erro – aliás, o meu acerto. o texto de safatle faz exatamente o que ele propõe que deve ser a finalidade da filosofia: chegar no limite da linguagem.
como é de se esperar de um grande intelectual, sua escrita é carregada de conceitos e referências, mas isso não significa que é um livro hermético. pelo contrário, com uma prosa de tamanha generosidade, safatle instiga a inteligência do leitor para expandir seus horizontes. o nexo entre entre os textos também é muito surpreendente. sempre há algo na cadeia que faz com que o alfabeto desordenado constitua-se em uma consistência interna surpreendente.
muitas coisas bateram forte ao longo do livro, mas as reflexões sobre linguagem, política e subjetividade deixaram suas cicatrizes. os verbetes “tempo” e “(incógnita)” apresentam uma perspectiva radical da psicanálise, enquanto “heterossexuais” cria um eixo de rotação para pensar o desejo. os textos reunidos aqui demonstram porque safatle é um dos filósofos vivos que vale a pena ler.
Coleção de textos breves com considerações a respeito de estética, ciência política, história, ética, psicanálise, filosofia, antropologia... A forma breve dos textos, e uma certa vibração intimista, devem mais a tradição de diários do que a aforismos. Então, a 'filosofia prática' aqui é construída com uma escrita fragmentada - "em farrapos "-, que é seu modo próprio de resistir à separação da vida. As argumentações dão alguns saltos pois o interlocutor é íntimo. Mas nenhum argumento esquece suas origens: a partir de um sofrimento, de uma violência, cujo instrumento pode ser a própria linguagem. É esse pensamento que vem à luz nos textos, um pensamento que não operou uma (pretensa) cisão dos afetos que lhe animam e por isso pode resistir aos Grandes Temas, tratando-os com intimidade, pelo que provocam na sensibilidade, evitando grandes bocejos com platitudes corretíssimas e vazias.