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Tisanas

«Com o tempo as Tisanas foram evoluindo, reflectindo a minha própria evolução. Com todas me identifico e surpreendo.»

Estas Tisanas, pequenos poemas em prosa, foram um trabalho constante da vida literária de Ana Hatherly, iniciado em 1969. Durante a vida da autora, estes poemas conheceram várias publicações, sendo um grande número de novos poemas acrescentados e redigidos ao longo dos anos. A recolha que agora se apresenta tem por base a última revista pela autora, com um posfácio de Ana Marques Gastão.

224 pages, Paperback

Published January 1, 2024

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About the author

Ana Hatherly

62 books31 followers
ANA HATHERLY nasceu no Porto, a 15 de Maio de 1929. Licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, fez estudos cinematográficos na London Film School e doutorou-se em Literaturas Hispânicas na Universidade de Berkeley, com a tese “A Preciosa”, de Sóror Maria do Céu. Edição Crítica e Comentada do Códice 3773 da Biblioteca Nacional de Lisboa.
Foi professora na escola de artes visuais Ar.Co, na Escola Superior de Cinema e no departamento de Literatura Portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH-UNL) e investigadora integrada do grupo «Cultura e Literatura» do Centro de História d’Aquém e d’Além-Mar (CHAM).
Destacou-se com investigadora do barroco, como ensaísta e escritora, mas talvez seja sobretudo reconhecida como artista plástica, carreira iniciada nos anos 60, com um extenso número de exposições individuais e colectivas em Portugal e no estrangeiro. Foi ainda uma das fundadoras do PEN Clube Português (de que foi vice-presidente durante 10 anos e presidente entre 1992-1994), e tem o nome inscrito na criação das revistas “Claro-Escuro” e “Incidências”.
Nas artes visuais, tem obra presente em várias colecções, nomeadamente na Fundação Calouste Gulbenkian e no Museu de Arte Contemporânea de Serralves, Museu do Chiado, Colecção Berardo e Cinemateca Portuguesa.
Em 2009 foi condecorada com o Grande-Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique. Faleceu em Lisboa, a 5 de Agosto de 2015.

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Profile Image for Paula  Abreu Silva.
423 reviews119 followers
July 5, 2026
"Atravessadas por apontamentos diarísticos, estas micronarrativas, muitas de tendência autobiográfica ou onírica, assentam numa forte erudição e no estudo de textos essenciais da cultura europeia e da sabedoria oriental nos domínios literário, filosófico, científico, artístico e espiritual.
(...)
A ecocrítica e a reflexão sobre um mundo acelerado e hipertecnológico eram, por outro lado, já evidentes em as Tisanas (ver tisana 228)."
- Ana Marques Gastão em "Tisanas - Um Itinerário Da Memória"


72.
Era uma vez uma ausência que andava em missão de viagem. Quando chegava a uma encruzilhada dava três voltas sobre si própria para perder por completo a noção do caminho por onde viera atingindo assim com regularidade as regiões efémeras do esquecimento. Depois regressava a casa.

228.
Neo-apocalipse: Quando a população do mundo tiver aumentado tanto que o seu peso ultrapasse todas as leis conhecidas, então tudo se soltará da superfície da terra e os próprios seres que hoje eu me admiro de não ver cair pelo espaço fora irão cair ainda mais infinitamente pelo espaço de não-ser.

297.
Almoço de artistas. O possível comprador estrangeiro obrigou toda a gente a vestir-se bem e a falar cuidadosamente. A conversa é muito cultural. Não sei porquê fala-se dos romanos. Então eu digo: os legionários tinham umas pernas que nem as baigneuses de Picasso.

309.
Estou num Hotel. Leio Cioran. O meu quarto dá para um pátio interior. Olho pela janela. Uma modesta dona de casa estende a roupa. Vê-me sentada à mesa lendo e escrevendo. Sólito lugar, não insólito. Passo a vida voltada para o interior das vidas.

414.
Um aforismo sufi diz: as palavras ficam na margem. Eu pergunto: na margem de quê? Do seu íntimo silêncio o poema emerge como o som de uma pedra que cai num poço.


Sobre as Tisanas, escreveu Ana Hatherly:
"No que diz respeito à estrutura da narrativa aí pode detectar-se algo herdado da tradição Zen: Todas as Tisanas obedecem a um princípio semelhante ao do Koan budista, são sempre, directa ou indirectamente, um acontecimento, um evento, mesmo que seja apenas linguístico. Todas as Tisanas dizem sempre respeito a algo que acontece, ao significado ou à questionação do significado de um acontecer que se depara ao narrador e que se oferece ao leitor como um desafio. Em todas as Tisanas encontra-se algo dessa «indeterminação deslizante» do pensamento Zen, associada a uma técnica de destruição da certeza, mas também consequência de uma meditação sobre a natureza da linguagem baseada em pressupostos da linguística moderna ..."
Profile Image for LeiturasQueer.
64 reviews14 followers
March 27, 2024
“Todos os anos pela Primavera, nas traseiras da minha casa, eu ouvia um pássaro que cantava maravilhosamente. Ouvia-o e dizia para comigo: que bom, que numa cidade moderna como esta, em algumas casas velhas haja ainda pequenos quintais com árvores onde podem vir poisar aves como esta. Um dia, porém, descobri que pássaro, cuja voz me encantava, estava numa gaiola pendurada à janela de uma dessas velhas casas e que o seu canto maravilhoso era afinal o grito de um prisioneiro solitário, que em vão chamava.”
Ana Hatherly, Tisanas (Assírio&Alvim, 2024)

Estas Tisanas, escritas sobe diferentes influências, são um convite literário à meditação pela palavra, para serem saboreadas gole a gole, lentamente, como que de uma terapêutica para o espírito.
40 reviews2 followers
March 30, 2024
Não conhecia Ana Hatherly. Ler "Tisanas" foi como pegar no seu diário secreto, onde a autora apontou as suas alquimias diárias na escrita, e decifrá-la palavra a palavra, letra a letra. Foi desvendar as cidades-estado que ela criou ao longo dos 37 anos em que as "Tisanas" foram coligidas e descobrir que ela inventou utopias e fórmulas de compreender o mundo a partir da sua janela onírica e poética.
Profile Image for Joao Gomes.
46 reviews2 followers
June 17, 2025
Esperava mais, mas vale por pérolas como esta:
"Era uma Vez Duas Serpentes":
Era uma vez duas serpentes que não gostavam uma da outra. Um dia encontraram-se num caminho muito estreito e como não gostavam uma da outra devoraram-se mutuamente. Quando cada uma devorou a outra não ficou nada. Esta história tradicional demonstra que se deve amar o próximo ou então ter muito cuidado com o que se come.
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