Li a "Crítica da razão negra" de forma compartilhada, em uma disciplina do mestrado, e tenho bastante convicção de ser a melhor forma de se aproximar da obra do camaronês Achille Mbembe. Minha maior dificuldade com esse livro foi não ser versada no pós-estruturalismo francês, em Lacan e muito menos Deleuze - e a escrita de Mbembe, bastante poética, será completamente deleuziana, o que foi uma experiência (contraditoriamente, eu sei) quase alienante para mim. Começo por aí então: seu conteúdo será mais bem aproveitado se você tiver aproximação teórica com os pós-estruturalistas, e especialmente se você considerar que tais vertentes podem ser explicativas do mundo ao seu redor. Algumas asserções muito básicas para estes teóricos me causam desconforto enorme (como, por exemplo, de que o mundo existe por nomeação).
Assim, nitidamente, os momentos mais proveitosos do livro para mim foram os que Mbembe se aproxima da obra de Frantz Fanon e Aimé Césaire. É interessante pensar que, depois de meramente sobreviver à leitura do capítulo 5 (que para mim não poderia ser mais abstrato e incompreensível - sensação que pareço dividir com meus colegas, eles sim pós-estruturalistas), no capítulo 6 ele apresenta estes dois autores importantes para o pensamento pós-colonial quase pedindo desculpas: "pode parecer que o fulano está essencializando, mas não é isso"... O que eu entendo como um pensamento concreto, a partir das condições materiais históricas do mundo, para ele precisa ser explicado para que seus leitores não o pensem como uma essencialização. Para mim, o processo explicativo inverso seria proveitoso.
Ainda que Mbembe não faça nem uma única concessão ao marxismo e ao materialismo histórico de Fanon e Césaire (seus conceitos e ideias são apresentados de forma menos concreta), muitas das conclusões me parecem ser similares: proclamar a diferença é apenas um momento no processo que nos levará ao objetivo final de abolição da raça, processo que pode precisar ser atingido por vias violentas. Para mim, a diferença é que Fanon e Césaire nos apresentarão vias concretas para isso, enquanto Mbembe parece acreditar que uma revolução pelo discurso e pela linguagem é possível - ou, se ela deve ser feita concretamente, seu caminho não foi apresentado.