As histórias que estão por contar Com o 25 de Abril, mais de seiscentos mil portugueses abandonaram África – para muitos a única casa que até então tinham conhecido – e chegaram a um Portugal que os ostracizou, perpetuando uma sensação de abandono a quem partiu de mãos vazias. Neste livro, Marta Martins Silva dá voz a vinte e uma histórias, relatos impressionantes, que se cruzam com a análise histórica, política e social da época sobre a qual se edificou o Portugal contemporâneo. Nestes testemunhos, cabem dias repletos de amor, dor, luta e desespero – sentimentos que parecem unir a vida no antes e no depois do retorno –, mas também de resiliência e superação. Permitindo ao leitor recuar no tempo e ficar a conhecer, através de quem lá esteve, um momento fundamental da História de Portugal, este livro assume-se como um importante exercício de preservação da memória coletiva. Honrando a verdade da História e de todas as histórias que se construíram num período em que muitos foram esquecidos e injustiçados, quase cinquenta anos depois recordam-se vidas que, após o regresso, nunca mais foram as mesmas.
Uma leitura especial, onde muitas vezes eu era também uma personagem do livro. Nunca me considerei retornado, porque nunca tinha cá estado. Hoje já fiz o luto desses tempos porque não adianta chorar em leite derramado. E hoje sou um português de Luanda. Admiro a capacidade que os retornados tiveram para se adaptarem a uma nova vida, a um novo futuro. Foram muito resilientes. Mas tiveram de lutar, contra quem cá estava, que tinha medo que lhes roubassem os seus trabalhos e por isso muitos como eu, tiveram de andar a mudar de sitio. E lutar contra um racismo entre o mesmo povo. Portugal era um país muito atrasado, muito fechado, muito preconceituoso...ainda é em alguns casos e muitos não foram bem recebidos, até mesmo pela sua família. A culpa do regresso e a forma como foi feita, é apenas de quem estava no comando de Portugal . Mas era previsível. Muito obrigado à Marta por juntar e escrever estes relatos, que são semelhantes a muitas outras histórias, dos que a viveram. Capítulos da vida que julgávamos que iriam ter continuidade e que estarão sempre na nossa memória.
Ouvi, ao longo da minha vida em Portugal, muitas histórias das casas que ficaram para trás, dos carros enterrados nos quintais à espera do regresso dos donos, da maneira apressada como as pessoas tiveram de sair de Angola e Moçambique, do caos nos aeroportos… até que, finalmente, li um livro sobre este assunto: “Retornados E A Vida Nunca Mais Foi a Mesma”, escrito por Marta Martins Silva e publicado pela Contraponto Editores.
O livro intercala notícias da época e relatos de pessoas que tinham Angola e Moçambique como suas terras, com um amor profundo por aqueles países, o que de pouco importou para evitar o caos da descolonização.
Confesso que, ao longo da leitura, senti um grande incómodo com os termos que alguns usavam para falar da população local: “pretinhos”, “os pretos” ou “os negritos”. Também questionei se a Angola daquelas pessoas era a mesma dos angolanos que não descendiam de portugueses. Num dos depoimentos foi mencionado que “não havia diferenças, não havia classes, toda a gente se dava com toda a gente” pensei se isso acontecia sob a perspectiva de colonizador e colonizado ou se era mesmo assim.
Há depoimentos cheios de emoção que relatam exemplos da verdadeira generosidade portuguesa, da resiliência de muitos. Ainda que saibamos as qualidades dos portugueses, as diferenças no tratamento dado aos “retornados”, levou à indignação de parte da população da “Metrópole” e algumas das situações menos nobres também são relatadas no livro: “E havia muito aquela coisa de “ah, os retornados, vieram para nos tirar o lugar””; (…) a minha mãe foi pôr o relógio a arranjar e (…) a etiquetazinha que não dizia o nome da minha mãe e sim “a retornada”.
A Marta conta-nos esta parte da história portuguesa num livro que se lê num ritmo intenso. Tive muitos sentimentos misturados ao longo da leitura: inquietude, tristeza, indignação, alegria, compaixão… é uma leitura que mexe muito connosco e da qual não me vou esquecer.
Marta Martins Silva transcreve os relatos dos retornados que deixaram não só os seus bens materiais e financeiros em África, mas também os seus corações e as suas melhores memórias. É um livro importante para percebermos que todos somos humanos com sonhos, desejos e objetivos e que todos merecemos um espaço para nós. Os relatos são duros de digerir, porém impera-se que sejam expostos para que se perceba a realidade da vida que era e deixou de o ser de uma forma tão violenta e desumana. Pouco se fala sobre este capítulo da história de Portugal e aqui podemos encontrar os detalhes desta altura difícil.
Muito bom! Parabéns Marta Martins Silva por continuar a dar voz a aos humilhados, violentados e espoliados de um certo “estado português”, que continua a enterrar a cabeça na areia em relação aos portugueses que quiseram, e arriscaram, ser bons portugueses fora da pobreza continental. “Que estes milhares de portugueses encontrem aqui um eco de proximidade e de respeito pela sua história, que a História tão pouco refere.”
Um livro fantástico que relata histórias emocionantes de quem "voltou" à sua terra mãe, mostrando o lado humano de mudanças políticas e de guerras que muitas vezes é esquecido e/ou ignorado.
I think it is the first serious material I read about recent portuguese history as a non-portuguese person myself.
It is beautifully written and it made me feel a mix of nostalgia and sorrow for a time period and context I never experienced. The stories, every single one of them, speak about honesty and sacrifice of the times they went through and the writer has the ability to reach you by ecchoing the voices of the grandparents of our generation.
On the other hand, and I'm aware of the sensivity of the matter, I couldn't but keep thinking about how biased the stories sound from the perspective of young, white people who describe their time in the pre-war time colonies as some sort of "Utopia" completely ignoring the native reality (even those who positioned with the portuguese). The book repeatedly insists on the idea that the portuguese on the colonies were not necessarily racist (which we can agree with), but it is a fairy tale to pretent that the system in which they enriched themselves was not.
By all this I don't mean to question suffering the retornados, but the line that separates nostalgia from sugar coating here is vague.
Fraquinho Uma grande ideia.Um tema pertinente da história de Portugal. Infelizmente um livro nao é uma revista de domingo com histórias mal contadas.O depoimento jornalístico nao se pode confundir com o trabalho final .O resultado devia ser esforço na construção. O resultado é tremendamente trapalhão. Fica a boa intenção.
Ao longo da minha infância / adolescência / vida, sempre me questionei sobre onde estavam os outros “retornados” e porque é que nunca tinha ouvido falar deles, sobre porque é que só ouvia falar do 25 de abril na sua vertente boa, para os portugueses que cá viviam, mas nunca ouvia falar da outra parte do 25 de abril, a parte que obrigou mais de meio milhão de portugueses a regressar - muitas vezes sem nada - com o rótulo de retornados, muitos deles não retornando a lado nenhum porque nem sequer tinham nascido cá.
Questionei-me não só em relação a como é que tudo aconteceu com as outras pessoas como relativamente ao facto de não poder falar abertamente sobre isto, sem sentir um estigma enorme - estigma esse que ainda hoje sinto caso diga a alguém que sou neta e filha de retornados.
Aqui estão elas: as histórias que sempre quis ouvir (neste caso, ler) e que me deixam com uma sensação de pertença indescritível. Afinal não foi só a minha família a passar por isto e estão aqui dezenas de histórias de outras famílias que passaram pelo mesmo!
Eu cresci a ouvir a minha avó e a minha mãe a contarem-me histórias sobre Moçambique, cresci a saber o significado de várias expressões, que a minha avó nunca deixou de utilizar, como “maningue”, “mata-bicho”, “milando”, entre outras e agora, graças a este livro, também tive acesso a dezenas de histórias de outras famílias que passaram e sentiram o mesmo que a minha.
Obrigada Marta por criares e escreveres este livro, tão rico tanto para nós, netas de retornados, como para todos os que se interessam por saberem mais sobre este tema. Obrigada por homenageares a história dos nossos antepassados ao imortalizares alguns testemunhos desta época da história que tende a ser convenientemente esquecida.