✨”Palavras são estradas” e com elas podemos construir ruas e avenidas que nos atravessam, tecendo reflexões acerca dos fragmentos de memórias resgatamos e da saudade que se faz presente num sentimento perpétuo de ser-se pessoa.
Neste seu livro de estreia, José Henrique Bortoluci tece uma bonita e sincera homenagem ao seu pai, compilando em prosa as suas conversas, relatos e vivências enquanto camionista, entre 1965 e 2015. Ao mesmo tempo, o autor empreende uma reflexão profunda e muito esclarecedora, por um lado sobre a doença oncológica que acometeu o seu pai durante a pandemia e, por outro lado, sobre o Brasil e sua história recente, marcada por promessas ainda distantes para muitos.
Foi precisamente este registo dual que mais chamou a minha atenção: por um lado, a relação entre um filho e o seu pai e, por outro lado, o olhar sociológico de um Brasil que eu própria tenho no coração porque, em criança, o meu pai viveu neste país. Ainda hoje, na casa dos 80, o meu pai emociona-se sempre que fala do Brasil e, apesar das histórias serem as mesmas, existem sempre variações e, sobretudo, aquele brilho no olhar que eu não me canso de sentir.
Regressando a este livro de não ficção, devo dizer que ele se encontra muito bem estruturado, sendo igualmente pontuado por reflexões belíssimas e pertinentes sobre a vida, a saúde (e falta dela), a família, o companheirismo, a honra, o legado pessoal, a saudade, o amor, a identidade brasileira e as recentes (mas infelizmente contestatórias) práticas políticas, sociais e económicas.
Acrescento que descobrir o significado do título “O que é meu” comoveu-me e, ao mesmo tempo, insuflou-me de esperança e tenacidade, refletindo sem dúvida alguma o tamanho da dignidade de uma pessoa que vos será igualmente querida.