Abraçamos um livro de João Pedro Vala com a certeza de que não nos iremos deparar com aquele tipo de leitura que nos faz penar eternidades ou nos obriga a abandoná-la ao fim de umas quantas páginas. A sua escrita espelha um quotidiano do qual nos sentimos cúmplices, discreto na sua essência, despojado de artifícios, que nos faz sorrir das nossas fraquezas, desventuras e imperfeições. Dispensando o grande artifício, as histórias revelam-se plenas de ironia naquilo que a própria vida tem de irónico. Desperdiça-se o tempo em frente ao televisor a ver o Canal Hollywood ou o Roland Garros, elegem-se as citações à categoria de frases filosóficas, o “percebes” é um tique de linguagem que contamina os diálogos, discute-se política em defesa da hombridade do Passos Coelho e o sexismo ainda faz valer a sua lei. Aos domingos, acorda-se estremunhado, espreitando pela fresta a ver se é dia.
A tendência para falar a brincar de coisas sérias é algo que sabíamos de “Grande Turismo” ou do pequenino mas enorme “Muro”, divertidíssima peça literária que resulta de uma residência artística em Figueiró dos Vinhos. Em “Campo Pequeno” João Pedro Vala volta a surgir-nos na pele do narrador e a desenhar o mesmo olhar sobre a vida, embora distanciando-se dela o suficiente para que melhor a possamos observar. Vemos, então, o que distingue aquilo que, na vida, faz sentido (“casar em Outubro por ser mais barato e ainda se apanhar o tempo quente”) e não faz sentido (“não privatizar a TAP, agora tudo ser racismo, ler poesia, uma pessoa ainda descontar para a Segurança Social em vez de haver um sistema de pensões como deve ser”). Nestes pequenos nadas percebemos o reflexo de uma sociedade sem crédito nem ideias, acomodada e falha de iniciativa, a não ser a de se enforcar no coreto do terreiro, como o grande Toninho Mamas.
Laura e Heitor, Gabriel e Mafalda. Mas também Heitor (o pai do Heitor), Manuela e Francisco, Hugo e o pequenino Tomé. Uma freira semi-atropelada, um conquistador mongol, uma mulher roxa, um beatboxer amador, um casal sado-masoquista, um caçador ocasional, um cangalheiro que tira cervejas durante os Santos Populares, uma mãe negligenciada, um actor italiano, um jogador de futebol dos campeonatos distritais, um consultor chato como tudo e um cão. São figuras de uma história que, pontas ligadas, ilustra a demanda do autor sobre o sentido da vida. Entre a esperança e o desânimo, a norma e o desconcerto, todos eles são arquétipos de um quotidiano que cabe, inteirinho, num “campo pequeno”, fechado sobre si mesmo, feita de voltas que se sucedem numa lógica de eterno retorno. No final, não ficará das personagens grande coisa para contar, antes a ideia de identificação com o afã constante de quem se esquiva a uma bandarilha ou sobrevive a uma orelha cortada.