Tão bom que até chateia!
“Mais cedo secará a terra” é o melhor livro de ficção, com a dose certa de romance, que li este ano (até agora). Antes de passarmos à parte em que falamos desta obra com spoilers, quero apenas expor-vos alguns detalhes que considero interessantes sobre o enredo e os personagens: a narrativa desenrola-se na Espanha, em meados do século XIX, e seguimos a vida, essencialmente, de duas família aristocráticas — os Castronaveas e os Ordás — que ficam de costas voltadas devido a questões problemáticas relativas a terrenos dos Castronaveas, que foram ocupados pelos Ordás no intuito de expandir a exploração mineira destes. Toda a história gira em torno da rivalidade figadal entre as famílias, aliados aos problemas internos de cada uma delas.
O livro tem uma escrita simples, sem grandes complicações. Ainda assim, a história é bastante cativante e complexa. O tipo de enredo que é construído com ponderação, e do qual não restam pontas soltas. Uma história leve, e simultaneamente tão intensa.
As personagens são peculiares, sendo que a narrativa é construída num formato omnisciente e omnipresente, onde ninguém é excluído no que diz respeito ao que lhe vai na mente. Assistimos às lutas pessoais de cada um dos Castronaveas (do avô, Dositeu, de Amaro, seu filho, de Iria, meia irmã deste, de Amil, André, Basilisa e Matilda, irmãos, filhos de Amaro e netos de Dositeu) bem como aquilo que pensam os Ordás (os pais, Isidro e Cornelia, e o seu filho, Sebastian), mas também os capatazes de cada uma das famílias (Quinta e Horácio, respetivamente). Tudo enquanto se tenta manter o bom nome da família, a posição social, o decoro e a honra. O problema é que o coração fala sempre mais alto… daí aquilo que vos contarei a partir de agora, com spoilers.
SPOILER ALERT ⚠️ se não quiseres spoilers, salta para a próxima frase em MAIÚSCULAS ⚠️
Eu nunca pensei dizer isto, mas há uma química inigualável entre Iria e André (tia e sobrinho). O romance proibido destes dois apimentou muito a narrativa, e a preocupação, o zelo e o cuidado entre eles é palpável. Perante as desgraças que atingiram a família Castronavea — a derrocada que ia vitimizando Iria, Amil e Quinta; o incêndio, que matou metade da família; as investidas de Dom Isidro para arruinar a família; os casamentos não muito felizes e forçados de Basilisa e Matilda — verificamos que a relação enfrenta alguns momentos periclitantes, mas que acabam sempre por ser ultrapassados. Aquilo que sentem fala mais alto.
As minhas personagens favoritas foram, sem dúvida, a Iria e a Quinta. A Iria, enquanto filha de uma segunda relação do patriarca Dom Dositeu, revelou-se a grande matriarca da família. Já em vida do pai ela é que tomava as rédeas dos seus negócios (dada a moleza de Amil, Dositeu acabou por desprezar o seu neto mais velho — que o traiu ao se aliar aos Ordás contra o seu próprio avô) atribuindo os deveres de varão herdeiro a uma mulher. No entanto, devo ser sincera: a pujança e a inteligência de Iria humilha qualquer um. Uma mulher nos seus trinta anos, que decide não casar para manter a sua independência, e que acaba por se transformar no pilar mais forte da família, na mais respeitável mulher da sociedade. Já Quinta… Quinta é a capataz da família. A mulher que cresceu rodeada de lobos, que viu a sua mãe ser violada enquanto ela e o seu pai assistiam, e que se alimenta com o desejo de vingança. Mata a sangue frio para vingar e proteger os que ama, é leal e conhece tudo aquilo que se possa considerar mezinha, bruxaria, venenos e costumes meteorológicos. Assusta até o homem mais corajoso à face da terra. Desconfiei que ela fosse os olhos dos Ordás dentro d’As Airas (propriedade dos Castronaveas), mas o impostor acaba por se revelar outra pessoa. Uma coisa é certa: é muito melhor ser amiga da Quinta do que inimiga. Mais cedo ou mais tarde, prova-se da sua fúria.
Já os personagens masculinos, a grande maioria revela-se uma desilusão: homens que ostentam o seu poder, que vivem para fazer com que sejam temidos, e que acabam na maior das infelicidades. Os únicos que ganharam verdadeiramente o meu coração foram o André, o Ramiro e Dom Rodrigo. Atenciosos, verdadeiros gentlemen, dispostos a amarem incondicionalmente o próximo, ainda que rodeados de dúvidas, pressões sociais e dificuldades. Numa sociedade onde o homem possuía o máximo poder, todos os restantes poderiam ter-se servido disso para fazer o bem; no entanto, escolheram, sempre que puderam, a vingança e o ressentimento. Acabaram mortos. Todos. Como se as voltas que o mundo vai dando se revelassem no mais justo dos castigos.
Paralelos muito curiosos:
• Horacio ameaça Quinta, dizendo-lhe que despachou homens três vezes maiores do que ela. Essa mesma mulher acaba por matá-lo.
• Isidro nunca tinha tempo para um jogo de xadrez com Horacio. Quando o capataz começou a ser ferido e ameaçado de morte por Quinta, tudo porque estava a proteger a família Ordás, Isidro pediu-lhe que jogasse com ele. Horacio aceitou.
⚠️FIM DOS SPOILERS — a partir deste ponto, podes ler sem qualquer tipo de problema ⚠️
Posto isto, cabe-me agora deixar-vos algumas das minhas frases favoritas. Dei-me ao luxo de abusar porque creio que este livro MERECE! Aviso que algumas delas podem conter spoilers ou cenas mais chocantes:
1. «Lembra-te de onde és, André. Lembra-te de que pertences a esta terra onde os rios regam vales e quebradas, onde as pedras se vestem de um verde que é mais verde e bebem uma água cristalina que nasce dos cantos e da magia. Lembra-te sempre de que estes montes viajarão contigo para onde quer que vás, pois entranham-se desde que nasces, como a humidade das tempestades ou a frescura no verão que estas deixam para trás.»
2.
«- Iria, isto não é solução.
- É o melhor que temos agora, André - afirmou ela.
- Até quando?
- Até que te apaixones pela tua futura esposa. Então, isto já não será um problema. »
3. «O pior da velhice não é ser velho, mas saber que o espírito nunca envelhece enquanto o corpo se vai deteriorando. »
4. «-Amo-te demasiado para te deixar e demasiado para te condenar, não entendes? »
5. « Faça o que considerar oportuno, mas tenha em conta, antes de voltar a ameaçar-me, que se prejudicar a pouca família que me resta nunca mais voltará a poder chamar-se homem. E isto, sim, é uma ameaça. »
6. « De repente, um ardor no braço fê-lo gritar com as suas exíguas forças. Fitou-o e verificou que estava a arder. “Queimou-me o braço para que não me esvaia em sangue”, soluçou interiormente.»
7. « De novo a lunática o evitou com um movimento veloz, mas desta vez fê-lo descarregando o seu machado sobre o joelho de Dom Horacio, que estalou como um osso seco. (…) O machado cravou-se-lhe no meio dos olhos até lhe abrir metade da cabeça. »
8. « Assim te espero outros mil tempos. Consumirei mil noites a aguardar o teu sorriso, prenderei os mil verões dos teus gestos, porque o meu frágil coração bem sabe que não há lugar mais protegido do que estar entre as tuas mãos. Nenhum mal me pode acontecer aí. »
9. « Vicente e os lacaios desviaram também os olhos, nervosos, tão surpreendidos como ele com o silêncio inquisitivo das duas mulheres. Estavam todos perante um autêntico matriarcado. »
10. « Mas o passado não tem nada que ver com o presente, é só a parte que se solta da vida que nos compõe, a que nos diz de onde viemos, mas não quem somos, pois isso é uma tarefa constante que se dá no momento. »
11. «…mais cedo secaria toda a terra do que permitiria a desolação dos seus e das estirpes que estavam para vir. »