As pequenas chances é sobre vida e morte - a dor da perda, o luto, a saudade, a efemeridade da vida - mas também sobre o que não é efêmero, permanece, se fragmenta em mil para resistir ao tempo, para se espraiar e se estender entre as muitas vidas que se sucedem, entre começos e fins.
Há sempre algo de generoso na partilha da intimidade não-confessional, seja das memórias dolorosas, difíceis de revisitar, seja das lembranças felizes, que guardamos, por vezes, como preciosidades tão essencialmente nossas que tememos tirar desse lugar inviolado. Que significados os outros imprimirão a isto que me é tão caro? Será que poderão entender, se irmanar nesse sentimento? Permanecerão impassíveis em seus desertos íntimos? E será que isso importa?
A ideia jogada ao mundo é ser alado, a quem não se dá direção, nem destino. Há uma intenção, por certo, mas não passa disso. Os caminhos da vida são por vezes mais oblíquos do que se pode imaginar. Num desses caminhos, uma escritora descobre uma semelhante, ambas buscando vestígios de um passado a ser desvelado, e encontra um desfecho para o seu livro inacabado, que aguarda o último fôlego, uma leitora cruza com o livro, agora já concluído, e lá se refugia para viver o luto pelo seu pai, que, interrompido, pendia também de um desfecho.
As pequenas chances, por vezes, acabam por se tornar grandes encontros, singelos em sua materialidade, mas enormes no indizível. E, para mim, este foi o caso aqui.