I knew I wanted to write about a young, sex-obsessed, angry, dry-witted woman,
but the main focus of the process was her direct relationship with her audience
and how she tries to manipulate and amuse and shock them, moment to moment,
until she eventually bares her soul.
Phoebe Waller-Bridge na introdução a este volume.
Fleabag é um monólogo absolutamente fora da caixa para uma atriz. A forma como aborda o tabu e quebra as expectativas de género sem qualquer timidez é refrescante, mas a sordidez (talvez a palavra seja forte, mas é a que me ocorre com maior propriedade) nunca me agradou - venha ela no masculino ou no feminino -, motivo pelo qual, apesar de o humor negro não me incomodar nada, e de acabar por ignorar (ou aceitar) um pouco da hipersexualidade da personagem, ainda assim sentir que a tentativa de inversão de papéis resulta aqui demasiado hiperbólica.
DAD. Okay?
FLEABAG (drunkenly). Okay... I don't... yeah... I... uh... um... It's a... hm... ah, fuck it.
I have a horrible feeling I'm a greedy, perverted, selfish, apathetic, cynical, depraved, mannish-looking, morally bankrupt woman who can't even call herself a feminist.
He looks at me.
DAD. Well... You get all that from your mother.
Apesar disso, esta é uma peça que vive da força e da capacidade empática da atriz que a sustenta ao longo de sessenta e qualquer coisa minutos, e creio que, com a interpretação de Phoebe Waller-Bridge, a situação melhore... e muito.
Fora isso, a construção da peça e as suas dinâmicas são qualquer coisa de muito original - com a autora a colocar constantemente em causa as barreiras entre monólogo, diálogo e solilóquio. A sua inventividade, e a capacidade de deitar abaixo as convenções dramáticas (ex.quarta parede) são atributos valiosos para quem, como a autora, virá a fazer parte do panorama teatral do futuro.
Fleabag foi escrita, interpretada e levada à cena por Phoebe Waller-Bridge em 2013, no festival Fringe de Edimburgo. Três anos depois, a autora escreve e protagoniza a série com o mesmo nome para a emissora BBC.
Como a peça não chega às nossas paragens, vou dar a hipótese a esta última.
FLEABAG. What's... wrong, Joe?
JOE (sighs). Ah my girl, I just... I love people. I love people. But... they get me down.
FLEABAG. Yeah. People are... shit.
He turns and I can see into every deep line on his face.
JOE. Oh no, darlin'. People are amazing, but... when will people realise... that people are all we got?
FLEABAG. He smiles, but I feel a bit ambushed. I pretend I have to wash the cappuccino machine, go inside and wipe the nozzle a bit.