Publicados em sua maioria nos jornais Correio da Manhã e Jornal do Brasil, nos quais o autor ocupou cadeira cativa durante muitos anos, os textos de 'Quando é dia de futebol' mostram um Carlos Drummond de Andrade atento ao futebol em suas múltiplas variantes - o esporte, a manifestação popular, a metáfora que nos ajuda a entender a realidade brasileira. São crônicas e poemas escritos a partir da observação do autor sobre campeonatos, Copas do Mundo, rivalidades entre grandes times e lances geniais de Pelé, Mané Garrincha e outros. Selecionados por Luis Mauricio e Pedro Augusto Graña Drummond, netos do poeta, os textos oferecem um passeio - muito drummondiano, e portanto leve, inteligente e arguto - por nove Copas do Mundo - de 1954, na Suíça, até a última testemunhada pelo autor, em 1986, no México. Não são, claro, resenhas de certames nem tentativas de análise futebolística. Vão além, em seu aparente descompromisso, pois capturam no futebol aquilo que mais interessava ao autor; a capacidade que o bate-bola tem de estilizar, durante os noventa minutos de duração de uma partida, as grandes paixões humanas. 'Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério', anota o mineiro em um dos textos. Pura modéstia, como se verá na leitura deste 'Quando é dia de futebol', pois, se houve algum escritor brasileiro habilitado à decifração desse esporte apaixonante, foi mesmo Carlos Drummond de Andrade.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
Foi gostoso ver o futebol pelos olhos de um poeta. Os esportes, de forma geral, ganham mais cor e brilho vistos dessa forma. Foi interessante ler algumas análises que ele faz sobre a relação do brasileiro (da sociedade, não dos jogadores) com a bola. Os textos de que mais gostei: Futebol, Enquanto os Mineiros Jogavam, Mistério de Bola, Calma, Torcedor, No Elevador, O Importuno, O Torcedor, Pelé, o Mágico, Pelé:1000, Na Estrada.
It was lovely seeing soccer through the eyes of a poet. In general, sports become more colorful and more bright when seen from that angle. It was interesting coming to know his analysis of how Brazilian culture relates to soccer. The texts I enjoyed the most were: Futebol, Enquanto os Mineiros Jogavam, Mistério de Bola, Calma, Torcedor, No Elevador, O Importuno, O Torcedor, Pelé, o Mágico, Pelé:1000, Na Estrada.
O itabirano Carlos Drummond de Andrade (1902/1987) dispensa maiores apresentações. Considerado por muitos como nosso “poeta maior” foi o autor de uma obra poética que se situa entre as mais belas, inspiradas e inspiradoras peças da poesia em língua portuguesa. “Hoje é dia de futebol” reúne dezenas de crônicas escritas por Carlos Drummond de Andrade que abordam temas ligados à “paixão nacional”; o futebol. Estes textos foram publicados entre 1954 e 1986 e propiciam uma excelente oportunidade para reforçar a fama de excelente cronista de Drummond, talvez tão bom quanto Rubem Braga, Machado de Assis e Lima Barreto. Drummond, nessas crônicas, se debruça sobre temas muito diversos dentro do “futebolverso” como a alegria com as conquistas das copas de 1958 e 1962, a desilusão e a preocupação com o fracasso em 1966, a exaltação da seleção tricampeã em 1970, a melancolia com as copas seguintes em que a seleção brasileira não foi bem (Drummond não viveu para ver as conquistas de 1994 e 2002), a exaltação a Pelé e Garrincha, o seu espanto e indignação com o início da colocação de patrocínios nas camisas, a importância de exaltar as vitórias e também a necessidade de aprender com a derrotas, o impacto das transmissões televisivas do futebol no cotidiano dos torcedores, o futebol frente ao contexto social e político brasileiro e muitos outros mais. Vale a pena reproduzir um trecho da crônica “Mistério da bola”, publicada em 1954, em que Drummond, com seu talento inigualável, descreve sua perplexidade com os efeitos que a “paixão nacional” exerce sobre todos aqueles que o apreciam:
“Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério. Entretanto, a criança menos informada o possui. Sua magia opera com igual eficiência sobre eruditos e simples, unifica e separa como as grandes paixões coletivas. Contudo, essa é uma paixão individual mais que todas. Cada um tem sua maneira própria de avaliar as coisas do gramado, e onde se vê a arte mais fina, outro denuncia a barbeiragem ou talvez um golpe ignominioso. Pelo nosso clube fazemos o possível e principalmente o impossível. O jogador nos importa menos que suas cores, e se muda de camisa pode baixar em nossa estima, à revelia de toda justiça. A estética do torcedor é inconsciente; ele ama o belo através de movimentos conjugados, astuciosos e viris, que lhe produzem uma sublime euforia, mas se lhe perguntam o que sente, exprimirá antes uma emoção política. Somos fluminenses ou vascaínos pela necessidade de optar, como somos liberais, socialistas ou reacionários. Apenas, se não é rara a mudança do indivíduo de um para outro partido, nunca se viu, que eu saiba, torcedor de um clube abandoná-lo em favor de outro”.
Outro ponto forte do livro é o posfácio escrito por ninguém menos do que Edson Arantes do Nascimento (1940/2022), o notório Pelé, o “atleta do século” (XX) considerado o maior jogador de futebol de todos os tempos. Certa feita Drummond disse que:
“O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé, é fazer um gol como Pelé”.
Pelé, sabidamente comovido por essa declaração aceitou escrever o posfácio desse livro. Vale a pena reproduzir trechos desse posfácio, escrito em 2002:
“Mineiro escrevendo sobre mineiro não é novidade, mas mineiro que usou os pés ao longo de sua carreira profissional ter que usar as mãos para poder se expressar sobre alguém que usou as mãos para colocar os admiradores a seus pés é realmente um fato importante em minha vida, e que muito me orgulha. [...] Peço licença aos netos de Drummond, Luís Mauricio e Pedro Augusto, idealizadores dessa obra, para poder parafrasear essas palavras do avô:
‘O difícil, o extraordinário, não é escrever mil textos, como Drummond. É escrever um texto como Drummond’”.
Excelente e, ouso dizer, ótima e agradável leitura oriunda da lavra de um mestre de nossas letras, mesmo para quem não gosta da “paixão nacional”.
Há quem não goste e há quem ame o futebol divide pessoas seja por diferença de time ou por não gostar. Mas a verdade é que o futebol mais une do que separa. O livro reúne textos, poesías e observações sobre 9 copas do mundo desde 54 até 86. Fala de Pelé à Maradona, de Guarrincha à Zico até de Vasco à Flamengo. Os textos de Drummond não debatem futebol ou tentam entender as táticas os textos são, sobre os torcedores, jogadores e suas influências em nossas vidas. A importância de uma copa do mundo na política, a felicidade de um ascensorista com a vitória do Vasco ou com a futura vitória. De como tudo parava para assistir o jogo da seleção até horas antes do jogo. Até um sermão é feito para os torcedores. "Bem aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino na tranquilidade." Ainda contém vários textos sobre Pelé o maior jogador de todos os tempos. Carlos disse assim "O difícil, o extraordinário, não é fazer mil gols, como Pelé. É fazer um gol como Pelé."
Para quem ama futebol cada palavra é uma verdade, do que vivemos, sofremos e sentirmos por esse esporte, que muitas vezes até nos o odiamos desejamos que não existisse, desejamos não torcer por nenhum clube, mas na segunda estamos de pé pensando no próximo jogo.
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No mais, é celebrar como começamos a fazer ao primeiro gol e não sei quando acabaremos, que isso de sofrer rente ao rádio, vezes e vezes repetidas, embora de coração esperançoso ou por isso mesmo, exige expansão compensadora e farta, ai meu Deus, minha nossa senhora da Cancha, meu senhor bom jesus do tiro de Meta! Como deixar de lançar papeizinhos ao ar, sujando a cidade mas engrinaldando a alma, e de estourar bombas da mais pura felicidade e glória, mesmo que arrebentemos os próprios tímpanos, se não há jeito de reprimir a onda violenta de alegria que se alça até os mais ignorantes do futebol, criando esse calor, essa luz de unanimidade boa, de amor coletivo, de gratidão à vida, que hoje nos irmana a todos?
"Confesso que o futebol me aturde, porque não sei chegar até o seu mistério. Entretanto, a criança menos informada o possui."
Se Nelson Rodrigues, como bom dramaturgo, trouxe os personagens e as tragédias para a crônica do futebol, Drummond contribuiu com toda a sua carga poética simples.
As crônicas e poemas são mágicos e potentes, especialmente quando lidam com as derrotas.