Nádia e Zana partiram no início da década de 1980 para umas férias de sonho, de quatro semanas num país exótico. País onde nascera o seu querido pai.
Ao chegarem ao Iémen, Zana e Nádia com 15 e 13 anos respetivamente foram apresentadas aos seus maridos, Abdulah e Zamir. O querido pai as vendera por 1300 libras cada uma.
Ficção? Ou Realidade?
Poderíamos estar perante uma história de terror, um conto, um romance, certamente interessante para uns outros, menos interessante para outros, mas não, trata-se da história de vida de duas jovens Britânicas, nascidas e criadas num país de primeiro mundo, ocidentalizado, um país que se diz “avançado” tecnologicamente e socialmente.
Miriam Ali desconhecia o paradeiro das filhas, perguntava-se porque não voltavam das férias quando se deparou com a triste realidade, o companheiro, pai das meninas, vendera-as e elas nunca mais irão regressar a Inglaterra.
Miriam, a partir de Inglaterra travou várias guerras:
Contra o companheiro, pai dos seus sete filhos, implorou-lhe que fizesse as meninas voltarem a Inglaterra, mas sem êxito. Separou-se dele, este seu companheiro e pai asqueroso já lhe tinha levado dois filhos anos antes, e nunca os fizera voltar, dizendo que os filhos estavam bem e que eles próprios é que preferiam o Iemén à Inglaterra, mentira.
Teve como adversário de luta o governo de Inglaterra, que se recusava a qualquer tentativa de fazer regressar ao país, as suas cidadãs, Nádia e Zana, dizendo que as jovens estão casadas e não podem sair do país sem o consentimento dos maridos, são as leis do Iemén, ignorando, ou fazendo por ignorar totalmente as leis de Inglaterra, onde os casamentos das jovens fora anulado porque as certidões de casamento eram falsas. O pai falsificou os documentos, porque, não sendo casado com Miriam, Muthasa não tem poder paternal exclusivo sobre os seus filhos, as menores nunca poderiam casar sem o consentimento da mãe, as crianças também são propriedade da mãe enquanto menores de idade. Inglaterra ignorou e nada fez por esta mãe e por estas duas crianças.
Lutou contra o governo de Iemén que não colaborou na liberdade das jovens, sabendo que tinham sido, enganadas, violadas, forçadas a ter filhos e desejavam regressar ao seu país, criaram obstáculos burocráticos e não permitiam a sua libertação. Zana conseguiu muito a custo a sua libertação, devido ao seu temperamento difícil, que enfrentava todos os homens de cabeça erguida, apesar de levar tareia.
Foi a opinião pública, foram os média, foram as pessoas que se mobilizaram em torno deste problema, pressionando os governos a encontrarem uma solução. Uma guerra travada ao longo de 7 anos na justiça, nos tribunais, na polícia, em burocracias, e dois países totalmente diferentes entre si. Foi a opinião pública que conduziu ao Iemén centenas de jornalistas, de vários canais de televisão, juristas, advogados, diplomatas e uma mãe obstinada em fazer voltar ao seu lar, as suas duas filhas que lhe haviam sido roubadas. Apesar de todos os esforços apenas Zana regressou.
Zana nunca se deixou subjugar, soube que fora vendida pelo pai à família do marido, mas nunca aceitou essa decisão, o ódio apoderou-se do seu corpo e da sua mente, lutou com todas as suas forças contra o seu doente e enfezado marido de 14 anos, contra o seu sogro que lhe batia constantemente e a forçava a deitar-se com o filho, contra a sua sogra que a odiava, mas compreendia porque é que o seu marido tinha comprado a inglesa, pois era a única forma de casar o filho, nenhuma família Iemenita casaria a sua filha com um rapaz débil, sem saúde para trabalhar e a necessitar de tantos cuidados médicos.
Zana debatia-se contra tudo e todos, tentou o suicídio e a fuga, sem êxito, porque todos os olhos da casa permaneciam em cima dela. Não se conseguia adaptar a vida dura que as mulheres levavam. Sem eletricidade, sem água corrente, a viver numa casa feita de pedra e excremento animal, a viver paredes meias com as vacas, as galinhas e as ovelhas, a dormir em cima da pedra olhando as lagartixas e os mosquitos a passearem diante dos seus olhos. O dia passava a subir e a descer uma colina íngreme a transportar água e lenha para casa, a cozinhar, a lavar a roupa, a tratar da casa, dos animais e do campo.
A pouco e pouco a doença e o desgaste psicológico foram toldando a sua personalidade, das violações que sofrera pariu um filho, no chão da casa de pedra em condições indignas para um ser humano, acompanhada pela sua malvada sogra e uma idosa que nada podia fazer por ela. Aceitou a condição de ser uma mulher iemenita, 4 anos após pisar aquele solo.
Nádia, irmã de Zana, com 14 anos, uma criança que jogava à bola na rua com todas as crianças do seu bairro, uma menina pueril que ficou aterrorizada quando se viu sozinha com uma família que não comunicava com ela, porque não falavam a mesma língua, um sogro que traduzia e lhe ameaçava bater ao mínimo despeito, um marido que não saia de cima dela e não lhe dava descanso, forçava-a a ser mãe, para a agarrar. Calou-se para sempre, obedecia a tudo o que lhe pediam, sempre calada e triste, sete anos passados e já contava com quatro filhos e grávida do quinto, o homem não parava de lhe fazer filhos.
Miriam consegue chegar às filhas 4 anos depois, consegue visitá-las no Iemém, nas suas aldeias perdidas que nem existem no mapa do país. Encontra-as e a partir daí a esperança renasce para todas, a mãe traz na mala uma cassete com a voz da filha Zana a pedir ao mundo a libertação dela e da sua irmã, porque não aguentam mais viver assim, nessa altura Nádia estava grávida do segundo filho e Zana prestes a parir.
Miriam regressa a Inglaterra com o coração partido e a transpirar ódio por todos os poros da sua pele.
Zana parte para Inglaterra, 8 anos após ter saído e Nádia não foi capaz de lhe seguir, por não querer abandonar os filhos no Iemém, ela sonhava e desejava a sua libertação, tanto quanto a sua irmã, mas os filhos teriam que ficar com o pai, são as lei do Iemém, os filhos pertencem ao pai, apesar de eles nada lhe ligarem e terem tão pouco amor por eles.
Nádia ficou no Iemén, a mãe e os irmãos tentam por todos os meios que o marido de Nádia aceite vir morar em Inglaterra com os filhos e pede ao governo Inglês que o deixe viver em Inglaterra.
Zamir não quer morar em Inglaterra e não deixa que os filhos viajem para Inglaterra. Nádia é livre de ir embora, mas os filhos não, Nádia sabe que nunca mais vê os filhos se se for embora do Iemém.
Qual é mãe que aceita viver longe das suas crias? Compreendo-a.