Mergulhado a cerca de 250 páginas de profundadide do livro de Keay Davidson, a leitura deste livro era uma viagem que ia da recolha de dados que rodeiam o nascimento de Carl Sagan, em 1935, e que incluem informação sobre os pais e os avós de Sagan, até ao momento em que sai de Harvard, onde ensinava e onde não lhe é concedida a nomeação definitiva, e ruma para a universidade de Cornell, onde vai trabalhar. É, também, a fase do seu segundo casamento, com Linda Salzman, em 1968, do qual nasce um filho, Nick Sagan, em 1970.
[Interessam-me bastante os momentos sobre Nick Sagan, e em que este fala sobre o seu pai, porque li uma trilogia de Nick Sagan que muito apreciei, três romances de ficção científica (Idlewild, Edenborn, Everfree).]
Pronunciava-se uma mudança bastante significativa: nesta fase os interesses de Sagan, vastos e saltitantes, mas de modo geral circunscritos à carreira científica (mesmo que seja notado pelas teorias imaginativas e especulativas), extravasarão para um campo mais artístico, menos subjugado à visão científica, também mais activista e que o aproximarão do grande público como divulgador de ciência numa escala de muito maior popularidade do que até aqui.
Até esse momento (as 250 páginas, sensivelmente metade do livro), seguimos a vida de Sagan, por Brooklyn, onde nasceu, Chicago, onde fez a universidade, Califórnia, para onde foi trabalhar, e depois Harvard.
Keay Davidson é jornalista de ciência. Faz uma análise muito documentada e com amplas perspectivas dos acontecimentos da vida de Sagan, mas é também um biógrafo apaixonado na leitura faz desses acontecimentos.
Escreveu uma obra muito completa, com um entrosar interessante da vida de Sagan com as teorias científicas e os seus avanços e recuos, e com os depoimentos das muitas pessoas que entrevistou e a quem dá viva voz. Fá-lo com autoridade e sem que a sua voz de biógrafo perturbe o discurso. Mas também o faz inegavelmente com a sua voz, que ocasionalmente se ouve de forma mais límpida, mas não perturbadora.
Chegados ao final do livro, confirma-se essa mudança da metade do livro, trazida pela idade, pelo divórcio e um segundo casamento com uma mulher de áreas mais artísticas (a primeira mulher era e é cientista) pelo amor encontrado com uma terceira esposa, pelo activismo anti-nuclear, pela televisão (Cosmos), a escrita de ficção (Contacto), a sempre presente consciência da fugacidade, os outros livros de divulgação de ciência, o reconhecimento de erros, entre outros aspectos. Fundamentalmente, depois dessa viragem na vida de Sagan a carreira não ocupa um lugar menos fundamental, mas transforma-se para englobar como fundamentais princípios que extravasam o campo científico.
Ao longo do livro dá-se voz a várias críticas, não só às opiniões favoráveis, sobre cada uma das teorias e obras e feitos mais importantes de Sagan.
A título de exemplo, veja-se uma das principais críticas a Sagan, que surge na página 274: “a esperança de Sagan de salvação extraterrestre através do SETI contradizia fragrantemente a sua crítica no simpósio sobre ovnis, em 1969, de que era «politicamente perigoso» para os entusiastas dos discos voadores alimentar «a expectativa de que vamos ser salvos de nós próprios por alguma intervenção estelar milagrosa.» Essa desilusão desencoraja-nos de tentar «resolver os nossos próprios problemas»”
Claro que muita da argumentação de Sagan para a importância de, se houver vida inteligente a enviar sinais através do cosmos, estarmos receptivos e prontos para a captar, não passava apenas por dizer que isso nos ajudaria a que nos salvássemos de nós mesmos através dos conselhos de uma civizalização tecnológica que não se autodestruiu. Referiu outros benefícios, como relativizarmos os problemas que afligem as nações da Terra, perante a imensidão do cosmos, prepararmo-nos para saírmos da Terra, caso sobrevivamos até ao momento em que tal seja indispensável para a continuidade da espécie humana.
O ser humano precisa de sair do Sistema Solar para não perecer nele (se durar até lá), quando o Sol extinguir a vida na Terra e depois de extinguir. Entretanto, defendeu que seria difícil sair do Sistema Solar sem a ajuda milagrosa (o equivalente a divina) de uma civilização tecnicamente superior que nos explicasse como pode uma civilização técnica sobreviver à ameaça que é para si própria. Mas as décadas da Guerra Fria passaram e o ser humano não se autodestruiu e pareceu encontrar um equilíbrio nuclear, para o qual a sua divulgação de um possível “inverno nuclear” contribuiu. E as suas preocupações focaram-se ainda mais sobre o que o ser humano pode e deve fazer para assegurar a sua continuidade. Uma das coisas mais importantes, que julgo ter aprendido com este livro e outros de Sagan, é conciliar o conhecimento e pensamento científico com o nosso lado mais penso à crença nas ideias: o amor, a fé, a alma, a salvação.
Através de uma incrível capacidade comunicativa e dom para a palavra dita e escrita, foi um divulgador que despertou paixão e interesse pelo pensamento científico, pela consideração da nossa dimensão face ao cosmos e face aos nossos próprios problemas, nada irrelevantes.
Keay Davidson, que tem o mérito de expor tão equilibrada e claramente a vida e obra de Carl Sagan, não parece ter deixado nada de fora. É de salientar a relevância das mais de 100 páginas de notas e referências bibliográficas, que nos permitem ter confiança na investigação que deu lugar à obra. Também acho que devo salientar a capacidade que o autor tem de despertar a vontade de o leitor continuar a ler e reler os livros que Sagan escreveu e de comparar o conhecimento que comportam com o que entretanto a ciência descobriu e propôs. É uma biografia magistral.