Que livro mau. Que livro horroroso que brinca com temas pesados como jogos partidários. Que usa e abusa do trauma e das emoções para passar mensagens políticas apagadas e desprovidas de grande valor e sentimento. Que sem o cuidado devido deixa mensagens perigosas sobre histórias que não são suas. E sim, não devemos escrever apenas sobre o que conhecemos, mas o escritor tem o dever de ser responsável pelos temas que traz à luz, de lidar com eles com a delicadeza que merecem. É um livro sobre medo, pânico, privilégio branco e dor. É um livro insensível e pobre. É um livro que tem como menor defeito achar que o leitor é burro e incapaz de retirar conclusões por si só. E mal posso esperar por falar dos maiores.
A partir daqui sintam-se avisados, vêem spoilers.
Primeiro, quero e preciso de falar de violência sexual e da importância de falar com alguém, de não viver dores a sós. A autora esqueceu-se de relembrar o leitor que apesar deste diário mostrar uma história, uma história em que a personagem partilha pensamentos perigosos e horrorosos como este, todos merecemos ter com quem falar.
"A tristeza é nossa, só nossa. Partilhá-la com quem nos ama é um ato de egoísmo, ainda que nos convençam do contrário: estamos na merda e arrastamos aqueles de quem mais gostamos para chafurdarem nela connosco. Podem pedir-nos que o faça- mos, mas amar também é proteger e recusar convites aliciantes: eu, por mais que, por vezes, tenha tido vontade de o fazer, guar- dei esta história comigo, e hoje, passados anos, apenas a partilho porque sei que o meu tempo está a acabar."
A persongem tem todo o direito de não sobreviver, é uma história, triste como tantas outras neste mundo, reais e dolorosas. Mas os leitores têm o direito de ser relembrados que, no meio de tanta dor, violência e tristeza, merecem um fim diferente. Merecem amor. Merecem falar. Não merecem ser uma história que apenas existe para justificar medos e gerar lágrimas. Merece, nem que numa nota de autor, ser relembrado que pensamentos como o que deixo abaixo são perigosos e devem ser retratados com cuidado.
"Isto não é daquelas coisas com as quais se aprenda a viver e, por isso, estou, desde aquele dia, no processo de aprender a morrer."
Todas as vítimas merecem viver.
Adicionalmente, acho importante relembrar que, tal como a minha professora de crime uma vez disse, uma mulher está mais segura num beco escuro do que na sua própria sala de estar. A violência contra mulheres é um problema sistémico de um mundo misógino e para um livro que usa uma (1) vez a palavra "patriarcado" faltou uma abordagem genuína a esta problemática.
Isto leva-me à segunda questão - a desnecessária e manifestamente insensível inserção de ideais políticos numa história sobre dor e violência contra mulheres. A constante discussão de dinheiro e pobreza, as expressões redutoras e privilegiadas, os pensamentos redutores da verdade da pobreza.
Esta obra de arte começa da pior forma que alguma vez um livro começou - "Há qualquer coisa bonita na pobreza".... Não, não há. Nem sei o que dizer sobre isto, apenas que para um livro tão triste e violento, tão sensível, eu não devia começar com vontade de me rir.
A autora insiste e continua durante toda a obra a salientar como a pobreza deixa as pessoas desesperadas, falhando em relembrar que não é a falta de dinheiro que leva a violações, mas sim a misóginia intrínseca da nossa sociedade. Mas não sou ninguém para lho explicar, apenas me senti desiludida com a visão simplista de um problema que é tudo menos isso.
Depois, a autora sente a necessidade de tornar o livro "atual" e "relatable" para os jovens portugueses e eu tenho que ler uma crítica insonsa despropositada ao PS no meio de um livro sobre uma violação e um suicídio (?). Espero que também entendam o quanto eu senti que isto era de um gravíssimo mau tom.
"Naquela semana, ali, sentíamo-nos ricos, com um poder de compra que nunca tínhamos tido em Portugal e que, enquanto o Partido Socialista continuasse a governar com maioria absoluta, duvidava ser possível para os jovens como nós."
Mas piora. Infelizmente, este livro passa de uma piada de mau gosto para um panfleto da Iniciativa Liberal, como um anúncio mal metido a meio de um episódio da novela. Quando finalmente chegamos ao momento, pelo que a autora lutou para que chegássemos, somos apresentados a uma escolha: esquerda ou direita. E já antes a escritora tinha gostado de dar a entender que estas expressões não são desprovidas de significado político.
"No entanto, nada me preparou para a primeira vez em que aterrei no Rio de Janeiro e me apercebi de que a cidade não estava dividida geometricamente (para a esquerda os ricos, para a direita os pobres ou talvez ao contrário, se pensarmos politicamente)."
Para a direita os nossos protagonistas dançam samba, são felizes, chegam a casa. Para a esquerda são assaltados e forcados a passar por uma das mais violentas cenas de violência sexual a que alguma vez fui exposta. E, se este podia ser um inuendo político algo subtil e deixado à interpretação do leitor, a escritora acha por bem começar o capítulo onde descreve uma violação em grupo com a clarificação de que o pai era esquerdalha, mas ela votava IL, e de como se tinha arrependido de ter virado à esquerda.
"Eu também me interessava por política, e tinha muito orgulho-me dizer que tinha sido uma das primeiras militantes da Iniciativa Liberal, o primeiro partido com o qual me identificava quase por inteiro."
E, de repente, temos uma das associações mais desprovidas de bom senso que podia ter sido feita. Associar a esquerda, associar a política, a um nível de violência tal que leva à morte de uma personagem e ao abalo emocional de qualquer leitor humano é inconsequente, insensível, infantil e, honestamente, nojento. Não há outra forma de o dizer.
***
Este livro é violento e duro mas, acima de tudo, profundamente insensível. Não toca em nenhum tema verdadeira importante da violência sexual contra mulheres, das suas causas sistemáticas. Vende palavras chaves partidárias e políticas como se de um panfleto se tratasse e abdica da responsabilidade de relembrar o leitor da importância de não se isolar. É irresponsável, repugnante e sim, verdadeiramente triste. Mas não creio que tristeza e fixação com a desgraça sejam razão suficiente para ler um livro.
Poupem o vosso dinheiro de ir parar à campanha da IL e vão ler qualquer outra coisa.
1 estrela.