Começando por fazer a declaração de interesses de que conheço pessoalmente e muito admiro o trabalho do Autor - o jornalista Miguel Carrapatoso - não posso deixar de partilhar uma apreciação muito positiva deste livro, que consagra o Autor como um dos maiores estudiosos (de fora do Partido), não só da pessoa do nosso Primeiro-Ministro, mas do aparelho do respetivo Partido, o PSD.
Conhecendo o percurso de vida do Autor, natural da Póvoa do Varzim, é fácil supor que a proximidade geográfica e cultural a Luís Montenegro facilitou a sua apreensão do substrato sóciocultural do “biografado”. A esta proximidade, acrescem os largos anos em que o Autor vem cobrindo, como jornalista, a vida interna do PSD, em três dos maiores jornais de referência Portugueses: DN, Observador e Expresso.
Neste sentido, só muito impropriamente se pode dizer que este livro é uma biografia de Montenegro. Embora haja alguma disquisição sobre o contexto familiar do retratado, falta-lhe, por um lado, o fôlego, a profundidade e, porventura, a intenção de biografar a carreira de um político no auge da sua vida, e, por outro lado, o livro é muito mais do que uma mera biografia, tratando-se, isso sim, de um retrato.
Um retrato da vida política de Montenegro, mas num contexto muito próprio: o do PSD, em particular, a Norte, o mítico Norte dos homens-fortes, barões vigorosos e empreendedores, do PSD, como Miguel Veiga, Eurico de Melo ou Montalvão Machado. Daí, este livro se passar tanto “Na Cabeça de Montenegro” quanto “No Aparelho do PSD”, que Miguel Carrapatoso conhece bem e ao qual tem um acesso privilegiado.
Por isso e face às duas vitórias eleitorais de Montenegro, que o fizeram ascender, primeiro, e consolidaram, depois, como Primeiro-Ministro, a leitura desta obra é imprescindível para melhor conhecer a personagem política de Montenegro, o resistente por natureza, e o percurso político-partidário que trilhou para lá chegar. É também um auxiliar muito útil para compreender o atual momento político.
Termino esta recensão com um desejo duplo no desfecho e duplo no elogio: espero que o público seja brindado com mais livros da autoria de Miguel Carrapatoso, esperando igualmente que o maior à-vontade com estes escritos mais longos (por comparação com a notícia / reportagem) o levem a libertar-se mais das amarras da escrita jornalística, muito enxuta e factual, e levem a aventurar-se em registos onde possamos vislumbrar melhor a sua criatividade à solta.