Nuno Gonçalo Poças, o Autor, brinda o público, simultaneamente, com uma obra notável e um exercício de independência.
Trata-se de um exercício de independência, na medida em que o livro - o seu terceiro - não tem nenhuma agenda oculta, não foi altamente patrocinado por interesses mais ou menos obscuros (como foi o caso de muitas biografias políticas portuguesas...) e não é enquadrado por nenhum centro de investigação, universitário ou afim, resultando (e isso vê-se claramente na obra) apenas e “só” (mas que é bastante) do trabalho sério, honesto e descomprometido do Autor.
Em segundo lugar, esta é uma obra importante e com imenso valor acrescentado, pois versa sobre um político pertencente a um grupo - o grupo de Coimbra - cuja relevância dos seus membros na vida política e académica do País não encontrou eco na nota de pé da História a que foram sendo remetidos. Aqui, detenho-me um bocado.
Tendo nascido, crescido e estudado em Coimbra, desde cedo fui exposto à hagiografia da epopeia de 1969, com os seus impactantes protestos, o momento “Peço a Palavra!” e o icónico percurso da Académica na Taça de Portugal, numa época que serviu de “rampa de lançamento” política para um grupo significativo de políticos das Esquerdas.
Aí, quase em jeito de apontamento lateral, eram referidos os "fura-greves" das Direitas, retratados (desajeitadamente) como opositores "pela Direita" do Estado Novo (quase que numa espécie de jovens "Ultras"). Dado o meu gosto pelos "vencidos da História", fiquei sempre com uma enorme curiosidade por saber quem seriam e o que pensavam estes estudantes que não aderiam ao movimento de 1969.
Essa curiosidade só se adensaria, mais tarde, ao ler um pequeno artigo de José Miguel Júdice, sob o título "Nacionalismo Revolucionário", incluído numa coletânea organizada por Manuel Braga da Cruz e Rui Ramos e intitulada "Marcelo Cetano: Tempos de Transição" (Porto Editora, 2012). Desse artigo, ficou-me a impressão de que havia, neste grupo, uma complexidade intelectual e uma riqueza de pensamento que não se resumia aos rótulos de "fascistas" e "alinhados" do Estado Novo.
Tal impressão foi reforçada, por um lado, com o contacto direto com alguns dos membros do Grupo (fui aluno de Vieira de Andrade e de Rui Moura Ramos) e, por outro, com as leituras de "Portugal os Anos do Fim", de Jaime Nogueira Pinto, e "Império, Nação e Revolução", de Riccardo Marchi, de onde resulta claro o desalinhamento do Grupo, quer com o Estado Novo (com o qual, sendo uma geração pós-II GM, dificilmente se poderiam já identificar), quer com a oposição das Esquerdas, sendo dotados de um pensamento político hiper-intelectualizado e prospetivo, que já não encontrava eco nas estruturas caducas do Estado Novo.
Neste sentido, a obra de Nuno Poças, versando também sobre esse grupo (quer ainda em Coimbra, quer, relativamente a alguns dos seus membros, mais tarde, no Grupo de Ofir), contribui também para ajudar a enquadrar corretamente um grupo que, como referi, antecipou muitas das ideias e projetos que, décadas mais tarde, ainda constituem bandeiras do debate político coevo (sobretudo, à Direita liberal), e que também teve uma enorme relevância para o País, em áreas como a advocacia (Cavaleiro Brandão, José Miguel Júdice, Cruz Vilaça, Sousa Machado), a Academia (Cruz Vilaça, Moura Ramos, Lucas Pires e Vieira de Andrade) e as organizações europeias (Cruz Vilaça, Moura Ramos e Lucas Pires).
Mas a obra do Autor não tem apenas o mérito de enquadrar, com muita competência, o pensamento de Lucas Pires neste contexto do seu grupo de Coimbra. Desenvolve também a vida, a obra e a doutrina de Lucas Pires de uma forma autónoma: como estrela maior da constelação intelectual, como líder político (ora vencido, ora derrotado; ora aplaudido, ora criticado; a nada a obra se furta de relatar) e como académico reputado, exercendo o seu ensino em várias universidades portuguesas (e antecipando muitas áreas do Direito cuja autonomia é hoje consensual e pacífica, como é o caso (pioneiro) do estudo do Direito Constitucional Europeu. Neste ponto, tenho de realçar que o papel pioneiro de Lucas Pires é reconhecido por todos, independentemente do seu alinhamento político: seja por Paulo Rangel, discípulo de Lucas Pires, na apresentação da obra; seja por Vital Moreira, no seu ensino oral (de que eu fui testemunha)).
Em relação a estes aspetos, permito-me destacar alguns pontos, que a obra retrata muito bem. Desde logo, a recompreensão de um Portugal maior do que o retângulo peninsular, que Lucas Pires (e o restante grupo de Coimbra) foi capaz de levar adiante com maestria: já não o inspirava o Portugal imperial das décadas de 1960/70, mas sim o Portugal europeu, capaz de participar na construção da e convergência com uma União económica e política (neste ponto, é mesmo interessante como o projeto europeu mobilizou tanto alguns dos membros deste grupo de Coimbra).
Em segundo lugar, o papel de líder político, talvez dos primeiros em Portugal, a compreender a importância dos meios de comunicação de massas - com a televisão à cabeça – e dos quais se sabia socorrer com muita competência, o que é revelado pela memória que deixou no País.
Aqui, detenho-me para partilhar uma “petite histoire” pessoal, mas que creio atestar este carinho que a figura de Lucas Pires deixou na memória dos portugueses. Durante a Faculdade, já mais de duas décadas volvidas sobre o desaparecimento de Lucas Pires, eu militava ativamente no PSD e na JSD de Coimbra e deixei crescer uma vigorosa barba. A minha Avó, mulher do planalto transmontano, não tardou a reservar-me um epíteto que me deixou com alguma vaidade, confesso: o “meu Lucas Pires”!
Por fim, um outro aspeto de que o Autor não fugiu foi o retrato do biografado nos momentos mais difíceis, em particular, quando se desliga do CDS e enfrenta toda uma onda de suspeições, acusações e especulações sobre os seus motivos e o seu posicionamento. Ao ler essa passagem, vejo que fica afastado o receio, que o Autor partilhou na apresentação do livro, de ter escrito uma obra demasiado hagiográfica.
Terminada a leitura desta biografia de Lucas Pires, fico com duas dúvidas angustiantes, que não resisto a partilhar aqui: a primeira é uma interrogação prospetiva –haverá ainda a possibilidade de termos mais “Príncipes da Democracia”, como Lucas Pires, ou estamos irremediavelmente condenados à mediania?
A outra dúvida é uma interrogação retrospetiva – como foi possível Lucas Pires ter sido português? Isto é, como foi possível ter tido um impacto político e académico (público, em resumo) tão grande e além-fronteiras, sendo, como nós, um filho deste Fado que é o de sermos portugueses, em dimensão e ambição?
Em suma, a minha apreciação do livro é extremamente positiva – é um livro de leitura obrigatória e de releitura irresistível, um livro ao qual irei certamente voltar com aquela curiosidade do leitor do “deixa cá ver”, para recuperar uma ideia ou um facto.
Ademais, fico também a aguardar o que mais nos poderá reservar Nuno Gonçalo Poças, um intelectual público muito relevante, sobre quem agora recaem as legítimas expectativas de que produzirá mais obras interessantes e descomprometidas como esta.