Primeiro livro de contos do autor, Você vai voltar pra mim e outros contos traz 28 histórias curtas sobre ditadura militar e repressão. Foi publicado em conjunto com o relançamento de seu romance K., e em função da efeméride dos cinquenta anos do golpe militar no Brasil.
Um livro tristíssimo. Fiquei impressionada com Kucinski e sua capacidade de atingir tanto em tão poucas linhas. Não há pontos baixos no livro, mas as minhas histórias favoritas, além da que dá título à coletânea, são "História de uma gagueira" e "Tio André".
Ainda que pouco, mais se tem acesso - ou se imagina - ao que era a vida de quem se pôs à Esquerda de um governo tão interminável quanto arbitrário em um Brasil de 1964 a 1985. E quem não? Você já tentou traçar o que era a vida de um ‘cidadão comum’, do homem de seu meio, que fugia à chamada urgente da Revolução? Que observava sem lados e que, ainda assim, teve sua vida sacolejada pelo sadismo dos ditadores que são nomes de ruas? Já leu o que pensava uma Mãe ao ver seu Filho preso? Ou um sobrinho que tem no Tio rebelde o seu herói imaginário? Ou no corriqueiro e comum dos dias, onde não passa impune a vida. É bom começar a pensar. É bom conhecer. É bom viver muitas vidas em uma só. Faz bem pro crescer e ampliar a noção horizontal do mundo. Empatia, insistem. Alteridade, dizem. Em tempos esquizofrênicos, é importante ouvir a pluralidade das vozes que vão corrompendo os ecos mentirosos de um mesmo discurso. Um que irrita tanto quanto disco arranhado na velha radiola. Ler Kucinski é uma dor. Ler Kucinski é uma chamada a abrir os olhos. Ler Kucinski é ler Literatura da boa. Ler Kucinski é ler entrelinhas. Ler Kucinski é perceber esses hojes que insistem em se se vestir de ontens.
Contos curtos e muito diretos sobre o período da ditadura militar no Brasil e seus efeitos posteriores. Uma literatura objetiva, quase jornalística, mas com o toque irônico e de ruptura que o conto permite.
São contos fictícios mas com certeza inspirados em histórias reais. Poucas vezes me emociono, mas as histórias são tão realistas e abordam tantos aspectos da ditadura militar, da vida depois dela, das mortes, das sequelas, que esse livro mexeu comigo até o fim! Contos favoritos: A Negra Zuleika, Sobre a Natureza do Homem, O Velório, Você Vai Voltar Pra Mim, A Instalação, O Filósofo e o Comissário e Tio André.
Um livro imperdível! Só não digo que dá para ler num fôlego só pq entre os contos temos que parar, respirar fundo quando não enxugar lágrimas teimosas.
Um livro de pequenos contos de ficção baseado nos acontecimentos da ditadura militar brasileira. É muito mais profundo que suas menos de duzentas páginas sugerem, e muito mais pesado que seu pequeno formato. Daqueles livros cujo maior pecado é deixá-los parados em uma estante. Uma união perfeita da Cosac Naify (editora que nunca esqueceu que seus livros são, acima de tudo, para ser lidos) e Bernardo Kucinski (que se divide habilmente entre o jornalismo, sua cadeira de professor da USP e seus livros de ficções)
O autor nesse livro, consegue quase que esgotar todos os pontos de vista da ditadura militar aqui do Brasil (em alguns contos ele até menciona outras aqui das Américas) e isso é o precioso da obra, as historias mais diversas, nos aspectos mais diversos tendo como elemento comum da ditadura... Com tudo esteve longe de ser um livro "sensacional", nenhum conto me marcou de verdade, mas valeu a experiência...
Contos marcantes da época da ditadura. Alguns me deram nó no estômago, outros são menos pesados, mas todos lidam com o tratamento dado aos presos políticos durante o regime militar. Nos dias de hoje, em que há pessoas da extrema direita pedindo a volta do AI-5 e da ditadura, torna-se uma leitura necessária. Ditadura nunca mais!!
Obra excelente. Um conto melhor que o outros que história angustiante e necessária. Fiquei muito surpresa com o real uso do "você vai voltar pra mim", imaginei que se referia aos desaparecidos políticos, talvez um familiar com saudades de alguém que se foi... Quando cheguei no conto deparei-me com o uso real dessa fala.
This entire review has been hidden because of spoilers.
O conjunto de contos oferece uma diversidade de pontos de vista e situações que possibilitam uma melhor compreensão das emoções e dinâmicas de relações humanas da época da ditaria militar no Brasil. Além disso, a leitura é gostosa.
Há uns dois ou três anos, me assustei ao descobrir que, até então, a Ditadura Militar não fazia parte do currículo programático obrigatórios do Ensino Médio. Dar ou não este conteúdo era opção da coordenação da escola. Mas como não falar sobre isso? Gerações muito próximas à minha (e imagino que de muitos que estão lendo isso) viveram de alguma forma este período. Não é, portanto, algo longínquo, perdido na história e memória coletiva. Tratar apenas do "milagre econômico" e depois da enorme dívida externa para abordar o tema não é suficiente para compreender o período em que a política e o clima de perseguição eram tão predominantes. E, por mais que certos editoriais a nomeiem de "ditabranda", o regime militar é algo que trouxe efeitos muito significativos na nossa sociedade.
Muitos livros já foram escritos sobre o tema, é fato. Mas tenho a impressão que poucos são acessíveis ao público geral, que pouco ou quase nenhuma informação teve acesso. E ainda há uma grande mácula nesta história. Detalhes não ditos, documentos perdidos, desculpas e explicações escusas, desaparecidos e crimes insolúveis que precisam ser esclarecidos.
Você vai voltar pra mim me parece um ótimo panorama sobre os anos de chumbo. O novo livro de Bernardo Kucinski (autor também de K., que já resenhei aqui) é uma coletânea de contos que mostra inúmeras facetas da Ditadura Militar a partir de histórias do ponto de vista daqueles que lutaram contra ela. Assim como no livro anterior, Kucinski parte de histórias reais para construir suas narrativas ficcionais.
Na apresentação, o autor salienta que aqueles já mais familiarizados com o período retratado poderão reconhecer aqui e ali certos fatos e personagens que inspiraram as narrativas. Mas aqueles que não tenham nenhuma intimidade com o tema, poderão "sentir um pouco a atmosfera de então, com nuances e complexidades que a simples história factual não conseguiria captar'. E foi essa sensação que tive ao ler o livro. Por vezes ficava conjecturando se aquele conto falava de uma história que conhecia. Mas o importante ao terminar a leitura não foi esta identificação, mas a riqueza de todas as histórias.
Todas as narrativas são curtas e bem precisas. Ainda que cada uma guarde um estilo diferente (o que lembrou bastante alguns capítulos de K., que experimentavam tipos e recursos diferentes de narrativas), os contos são objetivos em abordar o tema e suas várias facetas. "Tio André", fala sobre os efeitos nefastos da tortura e perseguição política. Como continuar vivendo após sofrer tudo isso?, é uma das questões que o conto coloca; a esquerda festiva (ou quase isso) apresentada em alguns personagens de "Recordações do casarão", é o oposto do conto "O filósofo e o comissário", que traz uma crítica aos opositores mais xiitas; "Terapia de família" e "A entrevista" mostram a dificuldade dos filhos em aceitarem que os pais foram ausentes por conta da militância; "Joana" (conto do trecho acima) e "O velório" apontam para o problema dos desaparecidos políticos, perguntas sem respostas até hoje. Um dos que mais me assombrou foi "A instalação", em que duas primas que não se conhecem, se encontram já mais velhas. O ritmo deste conto é bem simples, mas a surpresa que ele nos reserva me deixou sem ar.
Como dito anteriormente, o livro traz um ótimo panorama sobre a Ditadura Militar. É um livro que emociona, que nos faz pensar, lembrar certas coisas e traçar paralelos com a atualidade. E a leitura é recomendada, seja para compreender o que se passou, seja para que a história nunca seja calada
Um amigo me deu de presente de natal o “K.”, de Bernardo Kucinski, e eu fiquei impressionado. Impressionado com a beleza, com o terror, com o mosaico construído por Kucinski, no qual relata a busca do pai pela filha, Ana Rosa Kucinski, morta pelos agentes repressores da ditadura. Foi a leitura de “K.” que me fez, portanto, abrir as páginas deste volume de contos que já estava na minha estante. O tema da ditadura me interessa, e a literatura de ficção sobre experiências traumáticas também me atrai.
“Você vai voltar para mim e outros contos” não tem o poder de “K.”, mas poucos livros que li recentemente, sobretudo da literatura brasileira contemporânea, o têm. Todavia, é uma leitura recompensadora. Se no final do romance sobre o pai e a irmã Kucinski mostrava a pavorosa permanência do terror dos chamados “anos de chumbo”, com seus contos ele mostra como aquelas experiências se infiltraram por todos os poros da vida, estando presente em várias famílias, como se passasse a ser um fio que costura as relações entre as pessoas, e, sobretudo, entre pais e filhos e entre os amigos, colegas de trabalho e meros conhecidos. Não é simplesmente um fato que aconteceu: é a estrutura mesma da identidade das pessoas, ou da sua desorientação.
Gostei mais de alguns contos do que de outros, o que é normal em se tratando de uma coleção de histórias. Em comum, eles têm a tendência a um final aberto, em suspenso, por vezes surpreendente, o que, a meu ver, escancara a abertura da ferida, mesmo que microscópica. Mas estas feridas, por vezes, somente a olho nu estão cicatrizadas. O conto é uma lente fina capaz de perceber o contrário, e nos faz participar de um processo de elaboração de perda. Alguns contos enxergam com nitidez as várias feridas nas famílias, desde o ótimo, e quase tragicômico, “Terapia de família”, onde a geração dos filhos busca um acerto de contas com o pai, até o delicado “Pais e filhos”, onde o silêncio faz companhia ao afeto entre épocas históricas distintas, chegando ao tristíssimo “O velório”, onde a conta se fecha e o luto se faz de maneira pungente e lírica. Narrador de histórias breves, Kucinski sugere que não há como associar os pais à tradição e ao conservadorismo e os filhos à luta e à renovação. Os papéis se trocam: uns lutam, outros calam, ambos elaboram melhor ou pior o sofrimento que está presente como uma sombra. Um conto como "Tio André" relata a permanência longeva do trauma, do medo, e como ele pode ser contado para um sobrinho. Não há, portanto, como traçar uma divisa clara entre as gerações quando há a necessidade de contar e de suportar algo que não se esvai.
Para concluir, destacaria o impressionante “Joana”, uma história de amor que, sinceramente, me deixou arrepiado. De emoção? Talvez. De calafrio? Provável. Com este conto, repeti a sensação da leitura do final de “K”. Se tivesse um espelho, acho que conseguiria ver minha expressão de horror, inevitável quando a loucura passa a ser uma resposta tão plausível quanto qualquer outra.
This entire review has been hidden because of spoilers.
eu amei todos, mas aí tão meus favoritos, por ordem: “sobre a natureza do homem” (horrível saber que aquilo escrito é a realidade); “o velório” (a última frase me matou); “joana” (qualquer coisa envolvendo idosos eu choro, ainda mais nesse conto); “a entrevista” (eu nunca tinha parado pra pensar no lado das pessoas que sentem que foram realmente abandonadas pelos parentes, em troca de um ‘bem maior’); “cenas de um sequestro” (criança me quebra demais).