Não amas, e não podes
Ler o livro da vida.
Sem amor nenhuns olhos são videntes.
A tarde triste é o sol que não consentes
Ao coração.
Mundo de solidão, O que atravessas, É um deserto habitado Onde apenas tropeças
Na sombra do teu eu desencantado.
(A voz de satanas ja nesse tempo
Era humana e natural...)
Deixou de ser um mundo e foi um outro.
Foi a inocência perdida
E a minha voz acordada...
Foi a fome, a peste e a guerra.
Foi a terra
Sem mais nada.
Depois,
Sem dó nem piedade a vida começou...
Minha Mãe, a tremer, analisou-me o sexo
E, ao ver que eu era homem,
Corou…
A minha vida é uma cena triste, Dessas que se fazem numa praça
Por causa duma mulher...
Todos passam, todos olham
E sorriem da paixão...
Mas o namorado insiste:
— Minha Senhora, responda:
Sim ou não!
Sim ou não!
Ah! mas a Senhora não responde!
Porque não é resposta aquela esperança
Dada num vago talvez...
E o pobre pobre-diabo
Leva a mão ao coração
E diz:
— Minha Senhora, Mate-me duma vez...
A minha vida é isso e muito mais, Em direcção às cartas e aos sinais De aprender a namorar.
Foi tudo colhido em mim, Porque eu sou um pobre Adão
A começar...
A alota
Ao fim
Dos nove meses do prazo, Que era lógico e seguro
Ouvir cantar as sereias
Sem fazer caso...
Ah! mas isso é que não! Ninguém se iluda!
Ninguém pense que vou desanimar!
Não, senhor:
A Sagrada Teologia
Previu isto e muito mais...
Deus lá sabe
As linhas com que me cose...
Deus lá sabe
Se para meu sumo bem
Terá de aumentar a dose...
A jovem deusa passa
Com véus discretos sobre a virgindade;
Olha e não olha, como a mocidade;
E um jovem deus pressente aquela graça.
Depois, a vide do desejo enlaça Numa só volta a dupla divindade;
E os jovens deuses abrem-se à verdade, Sedentos de beber na mesma taça.
É um vinho amargo que lhes cresta a boca;
Um condão vago que os desperta e toca
De humana e dolorosa consciência.
E abraçam-se de novo, já sem asas.
Homens apenas. Vivos como brasas, 1 queimar o que resta da inocência.
Velha lua...
Prostituta podre e nua
À porta do seu bordel...
Muda as rugas da face, Mas a velhice renasce Do musgo da tua pele!
Bem sei que na fase nova
Podes ter um namorado...
Uma ilusão que te prova
Como a um fruto da renova
De um pomar que foi podado...
Remendos de mocidade.
Lume que acende e não dura.
Não regressa a virgindade
A quem, corrupto, a procura.
Mas tens ainda maneira De te salvar, velha amiga:
É morrer numa fogueira
De ironia verdadeira
Que algum Poeta te diga...
Sobre a ponte insegura é que é passar!
Fica o rio a correr dentro das veias.
Quanta angústia levar,
Quantas areias De oiro
Ou de ilusão,
É como se nos fossem afogar
A inquietação.
Arcos de ferro ou de granito E sólidos soalhos de varanda
Não me parecem piso de quem anda A descobrir as formas imprecisas
Desta humana aventura.
Só de credo na boca vale a pena
Olhar a vida, que da sepultura
Nos acena.
O que eu espero, não vem.
Mas ficas tu, leitor, encarregado De receber o sonho.
Abre-lhe os braços, como se chegasse O teu pai, do Brasil, A tua mãe, do céu, O teu melhor amigo, da cadeia.
Abre-lhe os braços como se quisesses
Abarcar toda a luz que te rodeia.
Não lhe perguntes por que tardou tanto
E não chegou a tempo de me ver.
Uns têm a sina de sonhar a vida, Outros de a colher.
É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso, O que sinto, O que digo
E o que faço, É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.
Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.
Infeliz com loucura e sem loucura, Peço à vida outra vida, outra aventura, Outro incerto destino.
Não me dou por vencido, Nem convencido.
E agrido em mim o homem e o menino.
Agora que o silêncio é um mar sem ondas, E que nele posso navegar sem rumo, Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti, como de mim.
Perde-se a vida, a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou, Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
Aparelhei o barco da ilusão
E reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
O mar...
(Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso Que perdemos.)
Prestes, larguei a vela
E disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
A revolta imensidão
Transforma dia a dia a embarcação Numa errante e alada sepultura...
Mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
O que importa é partir, não é chegar.
Ardia em brasa o Castelo, Tinha febre o casario;
Cada vez mais nosso e belo, O profeta do Restelo
Punha as sombras num navio...
Nas casas da Mouraria, Doirada, a prostituição
Era só melancolia;
Só longínqua nostalgia
De amor e navegação.
Os heróis verdes da História
Tinham tons de humanidade;
No bronze da sua glória
Avivava-se a memória Do preço da eternidade.
Nas ruas e avenidas, Enluaradas de espanto, Penavam, passavam vidas, Mas espectrais, diluídas
Na cor maciça do encanto.
E a carne das cantarias, Branca já de seu condão, Desmaiava em anemias De marítimas orgias
De um fado de perdição.
Porque não vens agora, que te quero, E adias esta urgência?
Prometes-me o futuro, e eu desespero.
O futuro é o disfarce da impotência...
Hoje, aqui, já, neste momento, Ou nunca mais.
A sombra do alento é o desalento...
O desejo é o limite dos mortais.
É inútil resistir.
Por detrás das muralhas da vontade
Mora o desejo, a força que as derruba.
Deixa que nasça, que avolume e suba
Esta maré de seiva e de ternura.
A grandeza do homem, criatura Que cresce enquanto ama e pode amar, É saber
Que só depois do gosto de pecar
Lhe vem o gosto de se arrepender.
Salta, discretamente, a página do amor
No Livro de Horas.
Não leias mal o que já leste bem.
Emocionado, choras
A cada passo, E tornas baço
O brilho que ela tem.
Deixa o texto arquivado na lembrança.
Passa adiante e cobre-o de pudor.
No jardim resta ainda tanta flor
Que podes desfolhar
Sem lágrimas na voz....
Quem soube ter, sabe renunciar...
Há laudas de silêncio em todos nós.
Não digas, musa,
Por quantos versos reparti o pranto
Que chorei neste mundo.
Não contes
Os mil segredos que te confiei
Nas horas de abandono.
Não reveles à vida
O amor que lhe tive
E de que foste única confidente.
Perdição consciente, Que mais ninguém me veja
Nesta triste nudez de sonhador.
Que o teu silêncio seja
O meu pudor.
Recomeça...
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres, Nesse caminho duro
Do futuro, Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.
E, nunca saciado, Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar
E vendo,
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.
Longamente esperei.
Nenhum encontro estava combinado.
Era apenas fiado
Na intuição do amor
Que confiava.
Afinal, não vieste.
E adivinho o motivo:
O lume da velhice não aquece.
Arde e parece
Vivo, Mas arrefece.
Aceito o desafio.
Que poeta se nega
A um aceno do acaso?
Tenho o prazo
Acabado,
O que vier é ganho.
Na lonjura
Da última aventura
É que a alma revela o seu tamanho.
Extremo Oriente da inquietação, Lá vou!
A quê, não sei, Mas lá descobrirei
Que razão me levou.
Lá, onde tantos que me precederam,
Se perderam,
E aprenderam, na perdição,
Que só é verdadeiro português
Quem, um dia, a negar a humana pequenez,
Se inventa e se procura
Nas brumas de procura o e da loucura.
Foi bonito
O meu sonho de amor.
Floriram em redor
Todos os campos em pousio.
Um sol de Abril brilhou em pleno estio, Lavado e promissor.
Só que não houve frutos
Dessa primavera.
A vida disse que era
Tarde demais.
E que as paixões tardias
São ironias
Dos deuses desleais.