A competência está a morrer, quem o diz é Tom Nichols, professor de temas de segurança e estratégia da US Naval War College, no Center for Strategic and International Studies e na Universidade de Harvard, para além de ser considerado um dos melhores especialistas em políticos Soviéticos.
Nichols aponta cinco dedos em simultâneo, a massificação da Internet, a massificação do Ensino Superior, incompetência dos peritos, os media populistas, a ignorância da população.
Vamos por partes:
Começando pela Internet, refere o autor que a partir da web 2.0, o momento em que qualquer cidadão passou a ter acesso e a postar informação na Internet deu origem ao boom de informações, sem qualquer critério de escrutínio de verificação da sua veracidade, ou seja, o que inicialmente as pessoas postavam que seria a sua mera opinião, hoje, temos pessoas renumeradas para fazer e difundir opiniões sobre factos que não são verídicos ou parcialmente verídicos, e que apenas têm o propósito de criar ruido e manipular o pensamento dos cidadãos.
Os cidadãos confiam no Dr Google e tudo o que ele lhes dá como resposta às suas buscas, a questão é que as buscas são feitas de modo a confirmarem a opinião que o cidadão já detêm, o viés da confirmação, ao invés de contrariar as buscas e questionar sobre outras opiniões diferentes da sua e tentarem compreender o que os outros dizem. Nichols afirma que o cidadão comum é leigo, está cada vez mais intolerante quanto à aceitação de uma opinião diferente da sua, e esta intolerância verifica-se em relação à opinião comum de qualquer cidadão, e verifica-se em relação ao perito que estudou aquele assunto durante anos. Para o cidadão comum, a opinião de um perito vale tanto como a opinião de um amigo pouco informado.
A massificação do ensino, é outro problema, porque com a ideia generalizada que todos os alunos têm de frequentar o ensino superior, deu origem a uma proliferação de Universidades de pequena e média dimensão, muitas delas privadas que cativam os estudantes mais pelos serviços de bem-estar que oferecem, como os aposentos, restaurantes e outros serviços, e menos pela qualidade do ensino. Pior, é que os pais e os alunos quando vão escolher a universidade, escolhem pelo conforto que pode proporcionar ao aluno, e não pelo currículo em si. A ideia instituída na população americana é que, o que importa é ter um curso superior, pois aumenta o estatuto social, sobe a autoestima, e eleva a pessoa à condição de perito, legitimando a sua opinião sobre todos os assuntos.
Por outro lado, é o aluno que paga e mantém a universidade aberta, daí que universidade exerça uma enorme pressão sobre os professores para que estes atribuam boas classificações aos alunos, de forma a mantê-los na faculdade e atraírem mais alunos. É sabido que se os alunos não obtiverem sucesso, a culpa recai sobre o professor, que não tem competência para ensinar, isto tanto vale para o aluno excelente como para o medíocre. De certa forma, os professores estão reféns dos seus alunos e estão cientes disso, contudo, esta situação origina grandes problemas internos: deceção e instabilidade da classe docente, sendo a consequência mais visível a falta de empenho e vontade de melhorar as competências, que por sua vez afasta os bons alunos e mantém os medíocres.
“Como escreveu James Piereson, do Manhattan Institute, em 2016, é «Seguir o dinheiro». O cerne da questão é que as universidades privadas-pelo menos aquelas que não são elite- estão desesperadas por alunos e dispostas a receber alunos sem habilitação desde que isso traga mais dinheiro de propinas”
Conclusão, a qualidade de ensino tem vindo a baixar e produz-se mais pessoas formadas, mas com menos informação, conhecimento e competências.
Quanto aos peritos, Nichols faz várias advertências, estes são, normalmente, professores investigadores que no exercício da sua profissão tendem muitas vezes a serem incorretos na sua prática, uns porque são preguiçosos e não cumprem escrupulosamente os métodos científicos, outros, porque ignoram parte dos resultados para obterem a confirmação da sua hipótese, e com isso darem a resposta que o seu cliente solicitou. Algumas vezes são descobertas irregularidades e são até retratadas publicamente, mas na maioria das vezes tarde demais.
Estas retratações são normais nas ciências exatas afirma Nichols, com frequência existem estudos a refutar estudos anteriores, isto porque é mais fácil de detetar e refazer a investigação em ciências exatas do que nas ciências sociais, que depende de muitos fatores contextuais, tais como: a população, o ambiente, as condições socioeconómicas, etc. Desta forma, não pode ter a mesma credibilidade junto da população, os resultados das investigações operadas entre os dois tipos de ciência, enquanto nas ciências exatas é possível a avaliação pelos pares e refazer a investigação promovendo mais certezas, nas ciências sociais os resultados da investigação são meras opiniões do investigador, porque na maioria das vezes a investigação é impossível de se recriar com as mesmas condições contextuais.
Por outro lado, as pressões que os investigadores sentem também origina a falhas, projetos mal desenhados e orçamentos mal feitos acaba por pôr fim à investigação sem que a mesma esteja concluída. Tudo isto é grave, se pensarmos que o governo se baseia na competência dos peritos para alicerçar as suas decisões, Nichols dá imensos exemplos de más decisões políticas com sérias implicações para a sociedade por advir de peritos incompetentes.
Os peritos são competentes na maioria das vezes, todavia, muitos cientistas gostam de falar também sobre assuntos que não dominam. Como diz Nichols os cientistas investigam o passado e mas a maior parte deles gostam de dar palpites e adivinhar o futuro, e sobre esse futuro nem sempre acertam, ou por outra, quase nunca acertam o que provoca uma descrença na população face às investigações e opiniões dos peritos. Isto vez-me lembrar Youval Harari, no livro Homo Deus, pode ser um ótimo cientista a investigar e a discursar sobre o passado, mas a falar sobre Inteligência Artificial é um embuste.
Relativamente aos média, Nichols aponta o dedo à imprensa jornalística, à rádio e à televisão que tende a oferecer conteúdos desinteressantes, fazedores de opiniões políticas e generalistas, informa as pessoas muito superficialmente, ocultando informação específica, por partir do princípio de que o cidadão leigo, não irá compreender, e como tal tenderá a abandonar ou a mudar de canal. Desta forma a tendência em todos os média é contratar uma ou várias personagens para comentar todos os assuntos, da medicina à pobreza, das armas nucleares à vida sexual de uma celebridade.
Por fim temos a população, o cidadão americano comum, refere Nichols, é leigo, não se quer dar ao trabalho de se informar, busca na internet as suas respostas para refutar contra qualquer um, seja perito ou leigo naquele assunto. Não está disposto a ouvir os outros e a tentar compreender para lá da sua crença. Nichols refere que a maioria da população sofre do efeito de Dunning-Kruger, são ignorantes, mas não têm a noção de que o são, ou seja, a própria ignorância não lhes permite ver o quanto não sabem e não dominam o assunto do qual falam.
Porque é que a competência está a morrer
Os pilares da democracia, advoga que todos os cidadãos são iguais, ou seja, têm os mesmos direitos e deveres, levado à letra todos os cidadãos podem dar a sua opinião e todas elas são aceites e têm o mesmo valor, ora isto é falso, como Nichols demonstra e bem, na minha opinião, todos os cidadãos podem ter opinião, mas as opiniões não têm todas o mesmo valor. A opinião de um perito que estuda anos a fio determinado assunto está melhor preparado para falar sobre o assunto do que um leigo que teve duas horas na internet a inteirar-se do assunto. Os leigos tendem a não compreender esta diferença e como não aceita que a sua opinião seja inferior, tende a não ouvir e opta pela desamigação, ou seja, tende a cortar laços com os peritos.
Por outro lado, os peritos, que embora se possam enganar de vez em quando, são competentes na maioria das vezes, sabem o que dizem e conseguem explicar detalhadamente as suas opiniões, contudo, conscientes do papel que desempenham na sociedade que é de informar as suas descobertas à população, sentem demasiadas vezes que falam para o boneco, isto é, a população não os quer ouvir e pior que isso, tende a não confiar neles. Como resultado, os peritos tendem em conversar entre si, e menos com a população em geral.
Os líderes políticos, são pessoas que não dominam todos os assuntos, mas, como têm forçosamente de tomar decisões, apoiam-se nas competências e opiniões dos peritos para os ajudar nessas tarefas. Os peritos sabem da importância que têm junto dos governos, que é de aconselhar, contudo se algo não correr bem é a cabeça do decisor que rola. Por outro lado, são os leigos que votam no líder político.
Esta tríade torna-se complexa: os leigos desleixam os conhecimentos básicos e desinteressam-se pela política, mas são estes que votam nos líderes que regularão as suas vidas. Os peritos estão cada vez mais desacreditados perante a opinião pública, mas são estes que aconselham os líderes políticos nas decisões que irão tomar para regular a vida dos leigos. Por sua vez os decisores políticos para se manterem no poder precisam do voto da população, mas não pode ignorar os conselhos dos peritos.
Em resumo:
Os leigos tendem a ser cada vez, menos competentes, apesar de acharem que dominam tudo sobre todos os assuntos.
Os peritos tendem a ser cada vez menos competentes, porque estão cada vez mais sós, calam-se
porque o leigo não os quer ouvir, calam-se porque os líderes políticos tendem a ser populistas e querem ganhar os votos da população, por causa disso, ignoram demasiadas vezes as advertências e conselhos dos peritos.
Um caso paradigmático que ilustra esta situação é em relação às políticas ambientais, a controvérsia está instalada. A falta de competências dos decisores, a falta de competência da população e a falta de competência dos peritos em se fazerem ouvir, leva-nos a uma beco sem saída.
Uma nota sobre o autor. Nota-se no discurso do autor, ao longo de todo o livro, algum elitismo, e diria mesmo algum ressabiamento. Deu-me a impressão que haveria aqui, mais do que alertas e advertências, o envio de recados para algumas personalidades. Pode ter sido apenas impressão minha, ou não.