Entre idas e vindas temporais, Adriana Lisboa conduz o leitor a habitar os pensamentos em desassossego de Adelaide, uma ex-presidiária e ativista pelos direitos dos animais que se vê diante da brutalidade das relações humanas.
Adelaide integrou um grupo de ativistas dos direitos animais e acabou se envolvendo numa ação extrema de protesto, incendiando um laboratório de pesquisas nos Estados Unidos. Depois de três anos presa, ela volta ao Brasil.À procura de um recomeço, muda-se para uma pequena cidade na região serrana do Rio, onde conhece Rai — o gentil proprietário da casa mobiliada que aluga –– e sua família. Ao intercalar a jornada da ativista e as incertezas que se formam nos novos vínculos que Adelaide estabelece, Adriana Lisboa tece uma narrativa sutil e poderosa sobre a fragilidade e a violência que se escondem nas mais sensíveis relações e aponta para o modo muitas vezes arbitrário como certas agressões são condenadas e outras normalizadas — incluindo, aqui, a conduta humana em relação às outras espécies animais.
"Tudo pulsa com intensidade nas páginas do romance, provocando em quem o lê uma inevitável indignação contra os atos de fraqueza e arrogância da humanidade perante a complexidade do mundo vivo." — Maria Esther Maciel
A escritora brasileira Adriana Lisboa nasceu no Rio de Janeiro. Publicou doze livros, entre os quais seis romances, uma coletânea de poesia, uma coleânea de narrativas breves e livros para crianças e jovens. Seus livros foram traduzidos para nove idiomas, entre os quais inglês, alemão, espanhol, francês e árabe, e publicados em treze países.
Ganhou o Prêmio José Saramago pelo romance Sinfonia em branco, uma bolsa da Fundação Japão para o romance Rakushisha, uma bolsa da Fundação Biblioteca Nacional, no Brasil, e o prêmio de autor revelação da FNLIJ (Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil) por seu livro de poesia para crianças, Língua de trapos. Em 2007, o Hay Festival/Bogotá Capital Mundial do Livro incluiu-a na lista dos 39 mais importantes autores latino-americanos até 39 anos de idade.
Graduada em música pela UniRio, com mestrado em literatura brasileira e doutorado em literatura comparada pela Uerj, Adriana Lisboa viveu na França – onde atuou como cantora de música popular brasileira – e atualmente mora nos Estados Unidos, no Colorado.
Estar no centro e na entrada, que também é a saída, tudo ao mesmo tempo. E o bicho parte humano parte touro que habita o labirinto não é o inimigo. É só um espelho.
"Pastoral Americana", do Philip Roth, contado da perspectiva da filha e não da perspectiva do pai, só que escrito pelo Coetzee. Inclusive, o nome da protagonista é Adelaide, nome da cidade em que o Coetzee mora. Se isso não tiver sido de propósito, minha mãe é um velocípede. Livraço.
No princípio era o escuro. No escuro, uma mulher. Adelaide. Mas também Sofia. Mas também essa centelha feito nó, feito nós enlaçando um algo maior.
Onde começa, afinal, a humanidade? Num gesto de mão sentido? Porém a mesma mão que afaga pode ser também a mão que mata, que esventra, que mutila, que arranca escarpas de vida à vida, a tantas vidas, humanas e animal. Animal? Não somos nós senão uma extensão de?
No princípio era o escuro. No escuro, uma mulher. Adelaide e uma mão cheia de ideais, vida por vida desde o tempo em que tomou consciência de que há vidas de primeira e vidas de segunda. E depois as chinchilas electrocutadas porque necessária a pele para afagar vaidades. E depois o boi que via para lá dos olhos que lhe faltavam. E depois o tigre-de-bengala que se deixou abraçar. E depois o escuro. Adelaide já não é heroína e nome de uma causa maior, é tão só terrorista, obstinada, cruel, incendiária, filha da... Humanidade e hipocrisia de mãos dadas desde o princípio dos tempos.
No princípio era o escuro. No escuro Adelaide, e Sofia, e George, e todos aqueles que ousaram erguer a voz, os braços, combater com as mesmas armas.
Quanto vale uma vida?
Os Grandes Carnívoros, mais uma obra magistral de Adriana Lisboa, uma longa reflexão sobre o valor da vida, seja ela humana ou animal. De mãos dadas com Adelaide, activista em defesa da vida animal, para uns, incendiária e terrorista para outros, caminhamos pela vida tal como ela é, pelo mundo em declínio, pela escuridão tão presente e pelas janelas de esperança que surgem e que se revelam apenas miragens (ilusão?).
É dura e crua e poética e triste e bonita, tão bonita, esta obra. Como a própria vida.
Eu gosto muito dos jeitos que Adriana Lisboa sempre consegue dar para unir os fios do seu enredo, nos convidando a leitura de um livro sempre em movimento, mesmo quando esmera-se em epifanias e paralelas. Todavia, aqui, senti muita falta do lirismo de sua linguagem que marcam tanto seus outros romances, as sutilezas do olhar, a delicadeza das observações do prosaico, o quase lúdico da narrativa. E também agradeci que a autora não caiu nas armadilhas sempre possíveis dos excessos de didatismos para tratar dos temas que trouxe: escolheu o viés literário e a ele foi fiel. Eu gosto sempre dos recomeços. Suas possibilidades derramadas nas linhas me emocionam. Que Adelaide se refaça e perceba o bonito que pode haver.
Que livro! Foi lançado exatamente do dia do meu aniversário desse ano, aniversário esse que marcou a decisão de parar de comer carne. E o tarô, as reflexões. Pra além de todas as coincidências com coisas que são especialmente caras pra mim é uma história que não dá pra largar, quase perco o fôlego no final, parei de respirar por uns segundos antes de voltar a leitura.