Amar se aprende amando é um lindo panorama das diferentes formas de amar.
"O mundo é grande e cabe / nesta janela sobre o mar. / O mar é grande e cabe / na cama e no colchão de amar. / O amor é grande e cabe / no breve espaço de beijar." Com versos assim, que conciliam sofisticação e simplicidade, esta coletânea exalta o mais nobre "sentimento do mundo".
Publicado originalmente em 1985, apenas dois anos antes da morte de Drummond, Amar se aprende amando nos revela as diferentes facetas do amor. Para falar delas, o poeta sempre encontra um viés inusitado (como nos saborosos neologismos "sempreamar" e "pluriamar"), que evidencia sua aversão à retórica e evita a pieguice que ronda a poesia quando se fala das "coisas do coração". Seus versos fazem aquilo que para muitos é impossí traduzem sentimentos indescritíveis em palavras.
Se o amor romântico, aquele precedido pela paixão arrebatadora, tem destaque em poemas impactantes como "Amor" e "Lira do amor romântico", Drummond também mostra que "O amor antigo tem raízes fundas, / feitas de sofrimento e de beleza". Na segunda seção do livro, abre o leque para compor poemas magistrais sobre o amor fraterno, com destaque para o comovente "Companheiro", feito para os 80 anos do amigo Pedro Nava. Na última parte, o poeta incorpora o cronista em versos tirados da realidade brasileira, que, àquela altura, caminhava para uma transição democrática depois dos amargos "anos de chumbo".
Em Amar se aprende amando, o leitor convive com um Drummond atento à realidade, lírico e genial.
Carlos Drummond de Andrade foi um poeta, contista e cronista brasileiro. Formou-se em Farmácia, em 1925; no mesmo ano, fundava, com Emílio Moura e outros escritores mineiros, o periódico modernista "A Revista". Em 1934 mudou-se para o Rio de Janeiro, onde assumiu o cargo de chefe de gabinete de Gustavo Capanema, Ministro da Educação e Saúde, que ocuparia até 1945. Durante esse período, colaborou, como jornalista literário, para vários periódicos, principalmente o Correio da Manhã. Nos anos de 1950, passaria a dedicar-se cada vez mais integralmente à produção literária, publicando poesia, contos, crônicas, literatura infantil e traduções. Entre suas principais obras poéticas estão os livros Alguma Poesia (1930), Sentimento do Mundo (1940), A Rosa do Povo (1945), Claro Enigma (1951), Poemas (1959), Lição de Coisas (1962), Boitempo (1968), Corpo (1984), além dos póstumos Poesia Errante (1988), Poesia e Prosa (1992) e Farewell (1996). Drummond produziu uma das obras mais significativas da poesia brasileira do século XX. Forte criador de imagens, sua obra tematiza a vida e os acontecimentos do mundo a partir dos problemas pessoais, em versos que ora focalizam o indivíduo, a terra natal, a família e os amigos, ora os embates sociais, o questionamento da existência, e a própria poesia.
“Love is learned by loving” is the last book of poetry published in 1985 by Brazilian poet Carlos Drummond de Andrade. Considered as one of Brazil’s greatest poets, he was 82 when this collection came out, just two years before he died. This is my first read of his poems and I was impressed.
The poems vary in style as well as theme, a kind of a reflection on life, love, friends, and the world around him. Through it all, there is a wit mixed in with an astute eye. His topics cover a lot of ground such as fellow poet Pedro Nava, Brigette Bardo, Sharon Tate, Vietnam, Paris, Carnival, Samba, salaries, bags, coffee, art, museums, politics and even garbage collectors. He is reflecting on Brazilian life in the 1960s, 1970s and the early 1980s, and yet the poems still resonate.
What I found truly impressive is he melodic phrases. His work is very musical. A good example is “A Lamentável História dos Namorados.” Drummond de Andrade starts out questioning what happened to the lovers? He uses fast paced rhyme ending in “ados.” Then the second stanza intensifies the mood. Their love is divided in their faces and the sweetness has faded. Here the rhyme relies on a heavier “antes” sound. The final stanza is the reality check - marriage puts an end to the “lamentable story of the lovers.” The rhyme scheme uses “ar” which begins with “air” in the first line of this stanza. Take a deep breath lovers, it’s over. You can hear his laugh… ah love.
A Lamentável História dos Namorados (English translation below):
Namorados, namorados, não vos vejo mais alados, sublimes, alcandorados nos miríficos estados de êxtases multiplicados em horizontes dourados de mundos ensolarados. Estais casmurros, calados entre carinhos cansados e sonhos desanimados. Que vos sucede, coitados? Acaso foram arquivados os projetos encantados, alvo de finos cuidados, pelos dois armazenados? Onde os férvidos agrados, os toques maravilhados de vossos dias passados? Namorados, namorados, deixai-nos desarvorados!
Diviso em vossos semblantes sombras, traços inquietantes, diversos dos crepitantes, abertos e fulgurantes sinais festivos de antes. Já não sois doces amantes, não carregais, exultantes, o suave peso de instantes que pareciam diamantes nos volteios elegantes dos jogos inebriantes e nos beijos delirantes quando adultos são infantes buscando refrigerantes que em vez de serem calmantes inda são mais excitantes. Já não sois os bandeirantes de descobertos faiscantes. Diviso em vossos semblantes amarguras humilhantes.
Chegou-me a resposta no ar, após muito meditar e livros mil consultar: A inflação tentacular, com guantes de arrebentar, ferrou-vos na jugular. Vosso anseio de morar em casinha à beira-mar ou qualquer outro lugar desfez-se no limiar. A recessão de lascar nem vos deixa respirar, e de empregos, neste andar, quem ousa mais cogitar? Um pacote singular de rigidez tumular desaba no patamar da pretensão de casar. Chegou-me a resposta no ar: não dá mais pra namorar.
(Apple translation)
Lovers, lovers I don't see you allied anymore, Sublime, tarnished In the miraculous states Of multiple ecstatics In golden horizons Of sunny worlds. You're chaste, quiet Between tired caresses And discouraged dreams. What's up with you, poor people? Were they filed by chance? The enchanted projects, Target of fine care, For the two stored? Where the fervent favours, The amazed touches Of your past days? Lovers, lovers, Leave us disoriented!
Divided into your faces Shadows, disturbing traces, Diverse of the crackling, Open and fulgurant Festive signs from before. You are no longer sweet lovers, Don't carry, exultant, The soft weight of moments That looked like diamonds In the elegant backs Of the intoxicating games And in the delirious kisses When adults are infants Looking for soft drinks That instead of being calming They are still more exciting. You are no longer the pioneers Of sparkling overdrafts. Divided into your faces Humiliating bitterness.
I got the answer in the air, After a lot of meditation And books a thousand consult: The sprawling inflation, With gloves to burst, Screwed you in the jugular. Your longing to live In a little house by the sea Or any other place It dismassed on the threshold. The chip recession It doesn't even let you breathe, And jobs, on this floor, Who dares to think more? A unique package Of tumular stiffness Collapses on the landing Of the pretence of marriage. I got the answer on the air: You can't date anymore.
primeiro contato com Carlos Drummond de Andrade e sigo fascinada. quantos significados cabem dentro de um livro... “(...) Estou florescendo em todos os ipês. Estou bêbado de cores de ipês, estou alcançando a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado. Não me façam voltar ao chão, não me chamem, não me telefonem, não me dêem dinheiro, quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela. Este é tempo de ipê. Tempo de glória.”
“One ought, every day at least, to hear a little song, read a good poem, see a fine picture, and, if it were possible, to speak a few reasonable words.” Johann Wolfgang von Goethe
Termino este livro sem vontade alguma de o qualificar, nem consigo quando se trata de poesia. Permanece a vontade de reler alguns dos poemas e de conhecer mais de Carlos Drummond de Andrade.
“O amor é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.”
Não me lembro direito quando comecei esse livro as, de qualquer forma, foi o primeiro livro do Carlos Drummond de Andrade que eu li e eu gostei bastante, não foi algo marcante mas eu gostei muito, mesmo.
"Quis restaurar sua presença no bar, em minha casa,na rua. Conservar você perto da gente, malgrado o final. Este não é um protesto. É um tim-tim no copo cheio de saudade."
(ps: coloquei qualquer data no início da leitura pq não lembro quando comecei)
Carlos, que se intitula 'gauche na vida' é um dos maiores poetas brasileiros. Ele tem um olhar aguçado sobre a o cotidiano e um vocabulário extenso e perspicaz. Sua obra é o conjunto importante de quase um século de vida e brasilidades. Drummond poderia ser um cidadão comum, que trabalha 8 horas por dia, passa na venda, vê televisão, chega em casa cansado, mas entre todas as atividades do dia e das situações ele colocava um olhar e coração do tamanho do mundo. Ele discute sobre o salário, a idoneidade, o carnaval, a política, observa as cores do ipê, fala sobre a copa do mundo, o Rio de Janeiro e Belo Horizonte - seus dois recantos e pedaços de terra - as palavras rimadas, os fonemas e também sobre o amor (título do livro) que não é só sobre o amor romântico mas a amizade, o dia a dia, reverberando assim em palavras gentis e profundas.