Em Mundo em disputa , a filósofa Marcia Tiburi discute de maneira acessível como são criadas as narrativas sobre desesperança e oferece ferramentas para que se possa posicionar contra essa prática nefasta.
Ligar a televisão ou abrir o smartphone e observar do sofá desastres climáticos, guerras, chacinas e linchamentos virtuais se tornou corriqueiro no século XXI. O sentimento geral de impotência diante do horror remete à naturalização da catástrofe, objeto de análise deste livro.
Em Mundo em design de mundo e distopia naturalizada, Marcia Tiburi põe em debate a distopia geral, oferecendo um questionamento sobre o funcional desaparecimento da utopia em nossa época. Ferramentas e armadilhas da linguagem, da comunicação e da estrutura de dominação são examinadas para explicar o funcionamento codificado de um mundo no qual o sofrimento é regra. O "patrirracialcapacitalismo", ou PRCC, é o termo usado pela autora para expor a articulação de opressões geradoras de sofrimento que incide sobre todos os seres terrestres, humanos ou não.
A filósofa desvela a guerra conceitual e narrativa sobre o que é "o mundo", considerando que mundo "é o que se cria na linguagem, e a linguagem define o limite do mundo, sendo que o que chamamos de mundo vem a definir o que podemos em termos de linguagem". Entre jogos de espelhamentos, torções e reflexões sensíveis, Marcia Tiburi apresenta aos leitores e às leitoras ideias que nos ajudam a compreender o que vem a ser, então, o "mundo" para a cultura ocidental. Um conceito tão complexo e estranhamente abstrato, mas inescapavelmente real.
Mundo em design de mundo e distopia naturalizada chega no momento em que entender os jogos de poder mental, linguístico e concreto em que estamos inseridos se constitui na chave para sair dos cárceres em que estamos situados e, a partir disso, repropor a utopia da vida.
Márcia Angelita Tiburi (Vacaria, 6 de abril de 1970) é uma artista plástica, professora de Filosofia e escritora brasileira.
Graduada em filosofia, pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1990), e em artes plásticas, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1996); mestre em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (1994) e doutora em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (1999) com ênfase em Filosofia Contemporânea. Seus principais temas são ética, estética e filosofia do conhecimento.
Publicou livros de filosofia, entre eles a antologia As Mulheres e a Filosofia e O Corpo Torturado, além de Uma outra história da razão. Pela editora Escritos, publicou, em co-autoria, Diálogo sobre o Corpo, em 2004, e individualmente Filosofia Cinza - a melancolia e o corpo nas dobras da escrita. Em 2005 publicou Metamorfoses do Conceito e o primeiro romance da série Trilogia Íntima, Magnólia, que foi finalista do Prêmio Jabuti em 2006. No mesmo ano lançou o segundo volume A Mulher de Costas. Escreve também para jornais e revistas especializados, assim como para a grande imprensa. Márcia Tiburi também se apresentava, semanalmente, no programa de televisão Saia Justa, do canal por assinatura GNT. Em 2012 publica o romance Era Meu esse Rosto pela Editora Record e os livros Diálogo/Dança eDiálogo/Fotografia pela editora do SENAC-SP.
É professora do Programa de Pós-Graduação em Educação, Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
Márcia redefine o capitalismo em uma sigla PRCC (patriarcal-racista-capitalista-capacitista ) em analogia ao PCC (primeiro comando da capital). Ela iguala o sistema capitalista um sistema de crime organizado. O texto é protestante e requer consultas completares.
Eu me surpreendi pelo pensamento dedicado a entender porque existem tantas séries e filmes falando sobre realidades distópicos e fim do mundo. Foi impossível não concordar com ela. A realidade é tão difícil, que desejar ou estar imersivo em uma história que explorara outras realidades é anestesiaste e sedutor.
O texto explora a mundialização capitalista como uma realidade distorcida pela indústria cultural, que utiliza o pânico recreativo em filmes de terror para refletir o pânico real, vendendo entretenimento e medicamentos igualmente. A catástrofe, contraposta à utopia, atua de forma performativa, impactando diretamente a mentalidade e ações das pessoas.
O fascismo moderno, acoplado ao neoliberalismo, utiliza a estética da catástrofe para estabelecer uma distopia. Esta estética se manifesta na ideia de autoridade mística e na "catastrofização" do mundo, ocultada pela globalização. O capitalismo, assim como o patriarcado e a religião, utiliza ideias como propriedade privada e livre iniciativa para traçar o design do mundo.
Wittgenstein sugere que o sujeito é definido pelas condições em que se encontra, agindo como um metassujeito. A luta pelo controle do mundo é, na verdade, uma disputa por essa "conceitografia".
A globalização é vista como uma universalização da catástrofe, naturalizando uma cacotopia e colonizando o imaginário para manter sistemas de opressão. A experiência de lugares como a Disneylândia oferece um escape ilusório, mascarando problemas reais com uma estética plástica.
Márcia fala que o capitalismo oculta seu verdadeiro caráter sob uma máscara panglossiana, transformando indivíduos em seguidores dóceis, como o personagem Cândido de Voltaire. Esta narrativa mitomaníaca perpetua um sistema de terror material e psicológico, levando à aceitação passiva de desigualdades extremas.
A codificação distópica impõe uma estética e moral que perpetua a desigualdade, onde ricos dominam pobres, e diferenças são exacerbadas por raça, gênero e habilidade. O arranjo patriarcal-racista-capitalista-capacitista (PRCC) é descrito como uma aliança nefasta que batalha contra a vida em todas as suas formas.