Infelizmente este livro não funcionou para mim e, a meu ver, muito deve-se a falta de cuidado e rigor por parte da editora.
O autor é uma só pessoa, e há detalhes que é da responsabilidade da editora e da revisão notar e apontar. Exemplos: “meus” e “seus” que podiam ter sido cortados, “Atenas” no glossários invés de Atena (o nome da Deusa é Atena, Atenas é a cidade) e diálogos muito compridos e repetitivos - estes são apenas alguns exemplos de partes do livro onde a editora deveria ter intervindo mais e nota-se a falta de apoio com erros que podiam facilmente ter sido evitados.
A escrita tem momentos em que é formal demais tendo em conta o público alvo e a idade das próprias personagens. Sendo que a história dá a entender ser uma fantasia urbana atual contada na primeira pessoa, pensamentos como: “Julgar, lamentavelmente, é uma das partes mais negras da natureza humana e, por algum motivo, manifesta-se sobretudo em etapas mais complicadas, como a adolescência.” ou diálogos como: “Conheces-me há tão pouco tempo e já te revelaste um fiel amigo.” não são adequados à idade e local onde as personagens se inserem. Acharia interessante se fosse uma personagem em particular com uma fala mais formal, ser um traço peculiar de uma personagem, contudo, não é o caso. Não sendo medieval ou vitoriano, retirou-me muitas vezes da história.
Outro apontamento à escrita são falas demasiado longas que acabam por se tornar monólogos e que servem para fazer exposição da história, tirando naturalidade à narrativa. Além disso, falta muito subtexto. Ou seja, tem exposição a mais. O leitor não é estimulado a adivinhar o que vai acontecer, está tudo escrito diretamente na página, as personagens fazem monólogos com as suas intenções e motivos - e o vilão fazer isso, é particularmente estranho e pouco realista e nota-se que é unicamente para servir a narrativa.
Em termos de análise de histórias, irei dividir em três partes: enredo, personagens e sistema mágico.
1. Enredo
Sendo uma fantasia focada no romance, o enredo principal gira na sua maioria em torno do casal principal, Iris e Mathew, o que é algo que eu, pessoalmente, não sou fã, a menos que seja que se interligue com a narrativa de forma natural (exemplo Empire of Sand e A Maldição das Rosas). Contudo, sendo o enredo principal focado nos dois, senti que a relação deles passou do ponto 0 para o 100 demasiado rápido. Não há para mim nenhum momento em que a Iris e o Mathew se tenham conectado. Sinto muita generalidade e pouca personalidade. Tropes existem e devem ser usadas contudo, sem nenhum elemento diferenciador cai no esquecimento e fica chato e por vezes frustrante.
Não me senti surpreendida pelas revelações maiores, achei a maior parte previsíveis e uma que não foi, pega numa troupe que só gostei de ver num livro (Wolfsong de T J Klune, quem leu vai perceber), por isso aí, é gosto pessoal. Contudo, vi uma review no instagram da @leiturasdaanarita onde ela levanta um pouco muito interessante em como essa parte do plot poderia ser melhor explorada.
2. Personagens
As pessoas raramente dizem extamente aquilo que querem dizer de forma direta. As pessoas não tem todas empatia, não se entendem todas umas às outras e não estão todas conscientes das suas falhas ao ponto de as dizer em voz alta repetidas vezes. Deveria haver entre linhas nas falas, verdades e frases escondidas, trejeitos de fala, dialogos subententidos, algo que não acontece aqui. Não senti que estava a ler pessoas a falarem, não senti nenhuma personagem como real por isso não senti empatia para com nenhuma.
Se não estivesse à frente quem está a falar, as personagens soavam-me quase todas iguais tirando o Matthew, contudo, ele não desenvolve muito para além do típico estereótipo. A Iris por outro lado, faz tudo bem, é perfeita, menina de ouro, com um coração lindo e toda a gente gosta dela, até a moça que não devia gostar.
A Iris não tem defeitos. O defeito da Iris é o “defeito por defeito” das personagens de livros de fantasia YA: teimosia, ingenuidade e impulsiva por aqueles que ama - estas podiam ser falhas dela, mas serem as únicas falhas, torna-a uma personagem sem interesse.
3. O sistema mágico
O sistema mágico poderia ter sido bom se devidamente trabalhado e explorado. Teria sido mais interessante se a autora tivesse criado uma nova mitologia, invés de baseada nos deuses gregos, não só porque seria mais original mas porque seria mais congruente para o que a autora queria fazer. Se fosse algo novo, não me faria confusão uma figura ligada à morte criar os vampiros. Contudo, o Hades da mitologia grega, ao contrário do que a cultura popular e industria de hollywood passa, não é mau, ele não quer os mortos fora do submundo, ele não criaria os vampiros, ele iria querer-los lá dentro. Ao criar Deuses novos esse problema não se levanta, porque é algo da autora. Se está a ter em conta características da mitologia grega, é importante respeitar a mitologia e a personalidade e características dessas figuras, tendo em conta a sua base original e não a versão popular.
Gostava de ter visto mais dos poderes e da sociedade, senti que as regras e limites não estavam definidos, e isso é mais uma vez um gosto pessoal, gosto de ler sistemas mágica com limitações (exemplo Mistborn).
Em suma, não quero desencorajar a autora de escrever, julgo que há erros aqui que são fruto de um primeiro livro, acredito que ela possa melhorar, e se no futuro escrever outras histórias e criar novos universos, estarei lá para ler. Esta história, possivelmente não, mas outros livros sem dúvida, quero ver a evolução da autora, porque apesar das minhas criticas, sinto um toque de fluidez na escrita que devidamente trabalhado poderá ser muito bom.