"Na verdade, ele, o filho-da-puta, gosta de deixar, e até de fazer morrer, porque isso faz parte da sua disposição de espírito, da sua fatal disposição de espírito para não viver nem deixar viver. É aqui, e só aqui, que está a chave para a compreensão do filho-da-puta, do filho-da-puta eterno e das suas eternas ocupações. Sempre «atento às mais prementes necessidades humanas», o filho-da-puta mata, mata incansavelmente, mata casas que acolhem para no seu lugar construir edifícios de recolha, mata obras que libertam para impor no seu lugar noções que apertam, infiltra-se com os seus filtros que fazem o ar sufocante e corrosivo, instala-se com os seus anúncios e com as suas renúncias e denúncias, com as suas cancelas manuais e electrónicas, com as suas celas brancas anti-sónicas, e com todas as suas ideias nucleares, garantindo que delas não vem mal, mas apenas bem aos ares, garantindo que vêm preencher uma lacuna inestimável e que, a partir do momento em que existem, se tornam indispensáveis à qualidade de vida."
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Nunca tinha lido nada do Alberto Pimenta e decidi partir à descoberta. Quando decidi começar, decidi começar por aqui... porquê? Bem, quem poderia resistir a este título? Iniciei a leitura num lugar público e foi impossível conter o riso: "o pequeno filho-da-puta / é sempre / um pequeno filho-da-puta; / mas não há filho-da-puta, / por mais pequeno que seja, / que não tenha / a sua própria / grandeza, / diz o pequeno filho-da-puta." O livro é hilariante, uma espécie de tratado sobre os pequenos e grandes filhos-da-puta; e até seria mais divertido se não houvesse um fundo de pura verdade, pois tantos de nós já conheceram (e conhecem) pessoas, entidades ("pessoas colectivas") que não sabem, nem deixam, viver — que se preocupam apenas em vigiar e em esvaziar o mundo de prazer (a parte sobre o trabalho de escritório/burocrático e a parte do ensino fizeram especial sentido para mim).