“Ná, tu não tens noção. Quando o bairro tremeu e o fumo acabou, o pessoal do Canto das Sereias ficou bem à toa. Não havia ninguém com uma cinca que não a estivesse a vender por dez, quinze béus. Só por causa das tosses, o Charlie Brown começou a pensar fora da caixa e a tentar fazer as cenas mais a sério, start-up ou lá como eles lhe chamam. O que aconteceu depois disso é que foi bem inesperado ya, surpresa das surpresas.” Estamos em plena crise da Troika quando um dos bairros mais problemáticos de Setúbal se vê sem fornecimento de cannabis e derivados. Charlie Brown, mais preocupado com o estado da sua relação amorosa do que em cumprir as poucas ambições que lhe sobram, acaba por assumir a responsabilidade de resolver a situação dessa comunidade de vizinhos e rivais. Mas as dificuldades cedo começam, quando percebe que nem a política é tão educada como supunha, nem o seu sentido de honra é tão mau como o esperado.
“É difícil encaixar o estilo do Alex em caixinhas e acho que é isso que faz deste livro uma experiência tão agradável. Adorei o narrador coletivo, uma espécie de coro que vai narrando as coisas que se passam e que mostra a impossibilidade de largar completamente o bairro — embora consiga ver os acontecimentos com alguma distância, não deixa de estar envolvido na vida daquela comunidade.”
Hilariante, espevitado, narrativa sempre à beira do colapso total (elogio!), mas sempre capaz de se pôr nos eixos quando é para dar nas vistas (elogio x2!), mesmo à bom carocho. Um daqueles livros que parece respirar por si mesmo quando o encostado na estante.
Este livro foi uma autêntica lufada de ar fresco nas minhas leituras, algo completamente diferente do que leio habitualmente e de tudo o que existe nas nossas prateleiras. Traz-nos uma visão muito própria da vida de bairro, com um leque de personagens incríveis e carregadinhas de defeito, tal como eu gosto delas. O próprio bairro é uma personagem muito central nesta história, e o curioso é que, apesar de estar muito bem definido e sabermos exactamente qual é, onde fica, este bairro podia ser qualquer um. Dei por mim a cruzar muitas vivências destas personagens em Setúbal com as minhas de Quarteira.
Não podia escrever esta review sem deixar aqui o meu agradecimento ao autor por ter convidado a dupla Livra-te para o apresentar em Lisboa. Foi um grande prazer poder fazer parte deste caminho!
Como millennial que viveu os anos da troika, cercada pela narrativa do "empreendedorismo" como prancha de salvação, "Sinais de Fumo" de Alex Couto foi um hilariante espelho de realidades que navego sem GPS. Como designer gráfica que, à saída da faculdade, surfou a onda de projetos nascidos do desespero e do subsídio de desemprego, o livro arrancou-me boas gargalhadas com os absurdos dessa era (que ainda ecoam nos nossos dias). Couto explora de forma afiada as zonas cinzentas em que tantos de nós (que trabalhamos em startups) operamos, navegando entre a inovação, a precariedade e o sucesso que se alavanca em demasiada ética varrida para debaixo do tapete. Há um desafio da nossa apatia e aceitação dessa engrenagem social, questionando o que significa "inovar" dentro de um sistema que só reproduz desigualdade. Força-nos a encarar as limitações e consequências de sonharmos dentro de estruturas predatórias. Um livro que dialoga com quem viveu o ciclo de sobrevivência do empreendedorismo precário, e que provoca uma reflexão urgente sobre a nossa condição.
Portugal mergulhado na troika. Um boom de "empreendedorismo", era o que pedia Pedro Passos Coelho. Ou então que emigrassem. Um grupo de amigos num bairro social decide então lançar-se na construção de uma start-up para a venda de erva.
A escrita é diferente, especial. O narrador não participa na ação mas não se afasta do bairro. Sente como as personagens, vive como elas, fala como elas. E isso adiciona camadas a tudo o que as elas vão vivendo. É um retrato muito real de um Portugal que ainda existe.
Sinais de Fumo foi sem dúvida uma das coisas mais originais e diferentes que encontrei na literatura portuguesa contemporânea. Escrito com muita desenvoltura e perspicácia, o narrador coletivo é o fio condutor perfeito para nos desvendar a história destes amigos, deste bairro e da sua start-up. Pese embora a gíria, o calão e os plebeísmos me confranjam - mera questão de gosto - é incontornável que fazem parte integrante da linguagem das personagens e do seu ambiente, e são indispensáveis na construção do romance. A construção literária é muito meritória, o autor navega os saltos narrativos com talento notório, e o tom equilibrado entre a sátira, o retrato e a ironia mesclam muito bem com o narrador omnisciente que simultaneamente pertence ao grupo, mas observa de fora. É também notório que está muito do autor, dos seus amigos e de pessoas reais do bairro real vertido no livro - o que lhe dá uma plausibilidade e uma ressonância de verdade que aprecio como leitora, a sensação de estar a ler um trabalho de ficção que diz a verdade, como toda a boa ficção faz. Estou muito curiosa para continuar a acompanhar o percurso literário do Alex Couto, que se afigura muito promissor.
O Alex Couto nunca desilude! Fresco e com uma narrativa hilariante mostra-nos o poder da camaradagem e da resiliência através da sua voz inconfundível e original. Adorei e recomendo! E acho que não serei a única a achar que este livro daria um filme bem marado!
Que inovador! O talento do Alex Couto para nos envolver e fazer sentir o ambiente deste bairro é qualquer coisa. O estilo da sua escrita é único e conduz-nos numa viagem enérgica, introspectiva, nostálgica e tudo ao mesmo tempo. Termino este livro de alma cheia, bravo 👏🏻
Este livro é um deleite para qualquer pessoa que seja um ganzado da Margem Sul. Diverti-me muito a ler esta história do grupo de amigos do bairro social do Canto da Sereia, em Setúbal, que decidem empreender e tornarem-se "traficantes" de erva, aproveitando-se do loophole da legislação. Uma espécie de Crónica dos Bons Malandros mas sobre millennials periféricos nos tempos da troika. A história tem bom ritmo e está escrita de forma muito original. Além disto tudo, gostei que a voz da narração também falasse no dialecto das personagens, fazendo uso do calão, das expressões em inglês, e outras ferramentas da linguagem que são, efectivamente, como os jovens falam. Nunca pareceu forçado nem cringe, nota-se que o Alex sabe do que escreve.
Pontos menos positivos: por vezes, era-me difícil acompanhar a linha temporal da história. De repente, passaram-se anos e eu pensava que tinham sido meros meses. O fim caiu um bocadinho do céu e meio a despachar, gostava que houvesse mais enquadramento antes da cena do final.
Foi um livro muito, muito divertido e recomendo se estiverem a precisar de algo leve para desanuviar.
Bom livro. Necessário até. Troika, erva, margem sul: tudo temas que de alguma forma, me dizem qualquer coisa. Por vezes inconsequente, mas não deixa de ser uma ótima estreia. O estilo é estranho, acredito que não seja bem recebido, mas não acredito que não seja necessário. Feliz por ver algo totalmente diferente a ter o seu Q de atenção.
Ah e o livro com mais one liners que me lembro:
“Jantaram bem caro na pizzaria ao lado da discoteca, dantes até podia ser cara, neste momento o dinheiro era só macarrão, esparguete ou cotovelinhos, massa que tinham em pacotes inteiros.”
“Naufragar 'tá garantido, bora ver onde chegam os salpicos?"
De quantas formas se pode ler um livro? E por que motivos? Estas perguntas podem parecer não fazer grande sentido no início de uma review, mas escolho começar assim para abordar aquilo que me parece uma das grandes conquistas desta obra. De linguagem acessível, por vezes banal ou até gratuita, este é um livro que, tal como o título sugere, esconde o seu verdadeiro significado por de trás de uma nuvem de fumo - que compõem um conjunto de sinais que nem toda a gente será capaz de interpretar.
Está cheio de droga mas não é uma romantização eufórica, conta-nos uma história de empreendorismo mas não é uma fantasia liberal, transporta-nos por uma cidade em mudança mas não é um apelo nostálgico. É tudo isto, e muito mais. Ao mesmo tempo, ou à vez, em tensão ou por vezes em conflito. Sinais de Fumo não é um livro prescritivo, com um narrador moralista e uma lição clara que levamos para a vida. É um livro reflexivo em que os personagens, embora sejam inspirados em pessoas reais, são como criaturas alegóricas que significam mais do que sua própria existência: subjectividades partilhadas por tantos no mesmo tempo, espaço, ou condição social.
Sinais de Fumo tanto pode ser lido como uma obra divertida, um romance jovial e leve, recheado de aventuras, referências contemporâneas, boa música, e reflexões que cabiam em posts de Instagram. Como pode ser lido como uma meta-crítica sobre todo este aparato cultural tardio-capitalista e a forma como impacta a vida de cada personagem. E a vida de cada pessoa no bairro.
Sem se levar demasiado a sério, Sinais de Fumo, captura mais do que as histórias do bairro — os sentimentos. Algo que nem sempre nos permitimos a observar e que muito pouco espaço têm numa paisagem mediática saturada de estereótipos. Nesta obra o mais gangster é melancólico e familiar, e é a mais betinha (como diriam os setubalenses) que parece não conhecer quaisquer limites. Moralidade, legalidade e estilo, misturam-se, confundem-se, atropelam-se. Variam com a altura do mês, o guito na conta, o brilho do beemer, o barulho da música, a excitação ou a moca. São voláteis, como o fumo e contrastam com a materialidade da escarpa do bairro que ruí ou do microcimento dos corredores da incubadora de startups onde os seus sonhos se moldam.
É um livro sobre uma zona cinzenta, que se passa nas escadinhas do bairro, nos parques de estacionamento descampados e no meio do mato de uma Arrábida com mais do que praias paradisíacas, mas onde não se cede à tentação do voyeruismo, da romantização ou do policiamento dos costumes — como expressa o narrador colectivo, ora cúmplice, ora céptico dos planos da grupeta. Se tivesse de o comparar o papel do autor com alguma coisa — entre o agente infiltrado e o curioso mórbido - diria , definitivamente, que o Alex assume o lugar de um antropólogo *stoner*, que chegou à história com uma hipótese de estudo bem definida mas rapidamente queimou os pressupostos académicos, e como quem faz um L quando faltam as mortalhas king size, acabou por criar a sua própria epistemologia. Este livro devia constar no plano de estudos da tão afamada Escola da Vida.
O livro "Sinais de Fumo", de Alex Couto, jovem autor português, é uma obra contemporânea que explora as inquietações e dilemas da juventude numa sociedade em constante mudança. A narrativa acompanha personagens que se debatem com questões de identidade, solidão e esperança na superação das dificuldades em estabelecer laços verdadeiros num mundo onde, a superficialidade e o ritmo acelerado, muitas vezes, impedem a escuta genuína.
Apesar da linguagem desabrida, violenta, intensa e rude, é uma obra carregada de simbolismo. Estes "sinais de fumo", funcionam como uma metáfora para as tentativas de comunicação entre indivíduos que, embora sendo próximos, se sentem distantes.
É um romance que combina humor e crítica social e, uma representação muito realista de uma comunidade que luta por se reinventar em tempos difíceis. Recordou-me de imediato outra obra: "Crónica dos Bons Malandros", de Mário Zambujal. Atrevo-me até a considerar estes "Sinais de Fumo" como uma versão contemporânea e mais "tecnológica" da sempre atual "Crónica dos Bons Malandros".
Boa frase deste livraço do Alex Couto para exemplificar o que mais me apaixonou nele: esta mistura fina, e tão difícil, do falar Charroco com a alta literatura.
Outro bom pedacinho é um fragmento deste Van Gogh em letras que ele a certa altura pinta por lá: “…o laranja que treme numa coluna portátil, a nódoa lilás do vinho sobre a toalha de papel, o prateado de um golfinho que salta num dia de sol, (…) a canela sobre o queimado do pastel de nata; tão doce quando existe o encarnado murcho do benfiquista que se finge vitoriano”
Está excelente. Sabem que mais? Em Portugal ninguém é de Glasgow e toda a gente curtiu o Trainspotting. Ora em Glasgow ninguém é de Setúbal e garanto que toda a gente ia curtir o “Sinais de Fumo”
Viagem alucinante de personagens nascidas no lado direito da vida torta e que fazem o seu caminho com todo o atabalhoamento que se adivinha mas nunca de forma previsível. E tão bem escrito! Curtamos nós também, pois!
É sempre óptimo começar o dia a terminar um livro espectacular.
Se forem como eu e gostarem de ler nos transportes fica o aviso: com o "Sinais de Fumo" vão muitas vezes ser aquele maluquinho que se ri sozinho, mas, prometo, vale a pena!
Neste que é o seu romance de estreia, a voz do Alex sobressai logo desde a primeira página, tal como o humor. Mesmo sendo uma realidade que não conheçamos, é impossível evitar ser transportado para aquele bairro e aquelas vivências. Poucas páginas bastam para ficarmos imersos na realidade e estarmos a torcer pelo sucesso de Charlie Brown e do seu grupo. Eu torci por eles até ao fim.
Esta é uma história de resiliência e muito pensamento fora da caixa e só por isso já vale a pena ler. No entanto, "Sinais de Fumo" é muito mais do que isso. Recomendo muito muito muito!!
Jovem, gostas de droga? De uma crítica sagaz ao fetiche empreendedor e à política corrupta da autarquia local? De um je ne sais quois da turbulência narrativa do Inherent Vice cruzado com uma sensibilidade trágica (e invejável!) para a construção de frases boas para citar? De momentos pachorrentos intercalados com um tropeço (plenamente calculado) nos azares da vida?
Está aqui o livro para ti. Alex Couto é - tanto quanto sei - sadino desavergonhado e Sinais de Fumo é iguais partes elogio ao passado no, crítica às condições que criam o, e elegia ao bairro. É uma refeição completa, onde o sistemático não come o particular, onde a estrutura é criticada sem que a agência individual seja sublimada. Tem momentos muito bonitos, outros feitos para ficarem presos na memória como frases-chavão. Recomendo, um livro para todas as estações.
Após ler Pynchon senti algumas influências tais como a cinematografia das cenas. Há cenários descritos que consigo ver ao ler este livro. Outra boa característica deste livro no plano dos sentidos é sentir-se parte deste bairro, parte desta geração e estar incluído: há referências culturais, musicais, de estilo de roupa e de acontecimentos. Nota-se que é um primeiro livro, mas a história agarrou-me apesar de haver partes que achei optimistas demais e depois tudo mudou de uma forma muito abrupta. Fico expectante pelos próximos livros.
Sabe sempre bem quando nos conseguimos rever num livro e como setubalense o livro tem muita coisa que nos toca. Passa-se nos anos da troika mas depois vieram os anos da pandemia e agora os anos ‘cada vez pior’ e a verdade é que o bairro mantém-se igual. Um retrato social muito bem apanhado.
Gostei do conceito, mas o resultado desiludiu. Achei cansativo de ler, porque parecia sempre que ia arrancar e não atracou. Acho que muita coisa se passa na cabeça do narrador, mas para mim não foi fácil de acompanhar.
Definitivamente este tipo de linguagem não é para mim. Fez-me lembrar o livro “Cor Púrpura”, que também não gostei.. Eu compreendo a linguagem nos diálogos, mas na narrativa também?! E depois juro que não percebi grande coisa do que se passou…
pelo que esta obra deu a entender, o alex é um autor com muito talento e com uma voz própria e super fresca. neste caso acho que a história merecia mais algumas rondas de edição e mais mérito à interpretação do leitor, mas fico à espera das próximas
Não consegui ligar-me à história nem aos personagens e nem ao tom com que a história é escrita. Não digo que é um bom ou mau livro (pois não consigo elaborar uma opinião objetiva, como é expectável); apenas não é para mim.