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O púlpito: Fé, poder e o Brasil dos evangélicos

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Em 1987, o Congresso formou sua primeira bancada evangélica, um forte indicativo da disposição dessa vertente religiosa para extrapolar os templos e se envolver de maneira mais direta nas discussões políticas e sociais do país, ditando seus rumos. A fé evangélica hoje alcança um terço dos brasileiros, e em breve terá o mesmo número de fiéis que o catolicismo romano. Estimuladas pelo sucesso popular de líderes como Edir Macedo, Silas Malafaia, Valdemiro Santiago e o casal Estevam e Sonia Hernandes, entre outros, as novas e novíssimas igrejas evangélicas têm transformado o perfil econômico e ideológico de seus rebanhos. Temas como aborto, casamento, sexualidade e prosperidade ganharam novos sentidos e práticas nos púlpitos (reais e virtuais) e na vida cotidiana dos fiéis, questionando as concepções seculares e católicas predominantes no debate público. A jornalista Anna Virginia Balloussier, habituada a conviver com os evangélicos, embora não integre suas fileiras, propõe um novo olhar sobre os crentes e sua fé. Através de entrevistas com personalidades do movimento evangélico, entre lideranças e fiéis anônimos, a autora dá voz a um segmento da população usualmente menosprezado. O livro apresenta uma narrativa histórica da fé evangélica no Brasil ao mesmo tempo que analisa suas convicções religiosas, morais e políticas, marcadas pela diversidade de visões sobre Deus, o diabo e o mundo.

224 pages, Kindle Edition

First published April 8, 2024

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Anna Virginia Balloussier

4 books1 follower

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Profile Image for Luciana.
517 reviews161 followers
May 17, 2025
Após muitas décadas sendo alvo de escárnio, zombaria e tidos como ‘aquela gente’, por jornalistas e por parcela intelectual da sociedade, que os creditava ignorantes, burros e preconceituosos, os evangélicos acabaram por despertar o interesse quando não apenas saíram da condição de minoria religiosa na década de 80-90, como passaram a ocupar espaços de poder que outrora não preenchiam.

Nesse sentido, o fundamento desse livro é pautado sob a observação dos evangélicos, de modo a retratar, sem maiores preconceitos, quem são, o que pensam, em qual espectro se adequam e qual fé seguem. Assim, temas como aborto, conversão, dízimo, sexo e política são abordados sob ótica de parte do que alguns representantes ou fiéis das igrejas neopentecostais que acabam por interpretar tais temas. Desde Valdomiro Santiago, Silas Malafaia, Edir Macedo e demais líderes de grandes igrejas evangélicas, até pastores e fiéis menores são interpelados para compor a ideia do evangélico, bem como para se tentar explicar as mudanças que acabaram por mudar muito do conceito outrora abordado nas igrejas. Nesse sentido, o livro é positivo.

No entanto, a escritora cai no erro comum daqueles que tentam entender o evangélico como um só povo, que detém um só pensamento acerca de todos os temas e acaba por generalizar um segmento que é composto de igrejas que são muitas vezes o completo oposto da outra.
Quando narra a mudança ocorrida acerca do valor do dinheiro, quando cita que as igrejas neopentecostais migraram para a ideia de teologia da prosperidade, quando afirma que os evangélicos agora se acham imbuídos de estar no debate de família, educação, ciência e sexualidade, quando diz que antes eles não se envolviam em política e agora lá estão, ela erra e estigmatiza todo o evangélico, especial quando diz que hoje os “fiéis vão atrás da denominação que lhes traga mais benefícios, usando-a para fins utilitaristas, sem o compromisso de fincar raizes”.

Há igrejas pentecostais que tem seus dogmas incompatíveis com o ser político, assim como a interpretação predominante do dízimo das neopentecostais, de modo que o livro acaba por compor por vezes uma ideia equivocada e geral do evangélico, prestando desserviço sem um contraponto.
No mais, nem todo evangélico é ou foi capturado pela extrema-direita, nem todo é incapaz de pensar por si só, nem todos querem prosperar a qualquer custo. Nessa abordagem, o livro falha. Uma pena, no mais, foi uma leitura regular, com bons e maus pontos.
Profile Image for Barbara Maidel.
109 reviews44 followers
April 19, 2025
ESSA GENTE

Anna Virginia Balloussier é uma jornalista que trabalha na Folha de S.Paulo cobrindo principalmente os assuntos evangélicos e mulheres. Às vezes dá pra reconhecer sua autoria nas matérias do jornal sem que tenhamos notado sua assinatura: os textos tendem a querer ser descolados um pouco além da conta, e favoráveis a — ou lenientes com — os dois grupos pelos quais Balloussier milita.

Uma matéria sua sobre Marcius Melhem vs. Daniela Calabresa era visivelmente partidária da ideia de que “a vítima tem razão”, o que é engraçado já que a real vítima ali foi Melhem. Outra matéria, sobre o Pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial do Poder de Deus, era tão a levada da breca que só faltou terminar com um “esse Apóstolo é mesmo uma parada, kkk”.

Também foi ela uma das signatárias da carta reunindo cerca de 200 jornalistas da Folha que comparava a rejeição à tese do racismo estrutural com a negação do Holocausto e da redondeza da Terra, e que pedia pro veículo deixar de dar carona às opiniões de Antonio Risério, Demétrio Magnoli e Leandro Narloch. A paranoia racial estava no auge, e a classe jornalística, dopada, queria ser racista à moda brasileira: tratando negros como coitados que precisam de salvadores.

Apesar dos problemas de Balloussier — acima está apenas um’amostra — e apesar de ser antipática a evangélicos quando eles estão sendo evangélicos, vim ler O púlpito com boa vontade. Supus que encontraria informações e histórias que eu não conhecia, e sei que devemos entender aquilo de que não gostamos pra formar melhores juízos e fazer críticas menos banais. O livro tem algumas sujeiras de estilo — o gosto forte por clichês como “vida que segue”, “puro suco”, “nadar de braçadas” —, mas a leitura flui e às vezes seduz.

O púlpito: fé, poder e o Brasil dos evangélicos é dividido em 7 capítulos. Seguem abaixo alguns excertos representativos dessa longa reportagem que começa tratando da ascensão pentecostal num país que era predominantemente católico, aborda temas centrais das polêmicas evangélicas e corrige alguns erros — uso de termos inadequados pra designar cargos e rituais, simplificação, generalização — que mesmo analistas da imprensa ainda cometem sobre esse grupo religioso e dissidente.

INTRODUÇÃO

Sobre o uso indiscriminado do termo “neopentecostal” pra classificar quase quaisquer evangélicos:

Há desafios crônicos em radiografar o corpo evangélico brasileiro. Mesmo as fronteiras tradicionalmente usadas para dividir o bloco em três grandes bandas — pentecostal, neopentecostal e histórica, com igrejas ligadas ao protestantismo clássico — são frouxas quando aplicadas ao quadro contemporâneo, muito mais poroso. Quantas vezes, por exemplo, você já ouviu alguém classificar Silas Malafaia, um dos pastores mais midiáticos, como neopentecostal? Ele, contudo, comanda uma Assembleia de Deus, a maior entre as denominações com DNA pentecostal que se espraiam pelo país. O que não quer dizer que Malafaia não molhe os pés na onda encabeçada pela Universal do Reino de Deus, que difundiu a teologia que defende uma vida financeira próspera para os fiéis.


CAPÍTULO 1 — CONVERSÃO

Sobre o conforto que o simbólico Luiz, amigo de infância da autora, sentiu ao conhecer uma igreja evangélica, e como ele largou o crime por causa daquele Deus:

A experiência religiosa bateu fundo em Luiz. Não conseguia tirar da cabeça a pichação evangélica no muro da favela onde guerreou. Na igreja que conhecia, a católica, tudo lhe parecia mais litúrgico, sisudo. “Aquilo era mais caloroso. Comecei a de fato querer conhecer esse Deus dos protestantes. O Deus desses caras conforta mesmo.”


Sobre darwinismo social-religioso (com o seguinte trecho fora do escopo, mas de valor: “a multiplicação religiosa mais célere hoje é a dos muçulmanos, puxada por questões demográficas”):

Das cinco maiores cadeias de fé do mundo, só o hinduísmo e o judaísmo não agem ativamente para converter almas. Islamismo, cristianismo e budismo se apegam à ideia de carimbar sua fé pelo mundo. Institutos de pesquisa como o Pew Research Center apontam que a multiplicação religiosa mais célere hoje é a dos muçulmanos, puxada por questões demográficas. No Ocidente, o apetite conversionista faz com que os pentecostais, galho mais ramoso do segmento evangélico, liderem as taxas de crescimento religioso. É o que acontece no nosso país, onde o catolicismo reinou quase soberano até os anos 1980, quando nove em cada dez brasileiros se reconheciam nele, mas passou a perder espaço para evangélicos e pessoas sem qualquer filiação religiosa. Hoje são metade da população, numa sangria que deve perdurar mais alguns anos até ser estancada.
Certa vez, um pastor me disse que faltava aos católicos um pouco de darwinismo religioso. Não souberam se adaptar aos tempos e demoraram demais para reagir às demandas espirituais das novas gerações. Até os anos 1960, padres recebiam o comando para rezar missas em latim. Para o ex-traficante Luiz, trata-se de uma liturgia mofada, bem mais entediante do que os cultos animados e cheios de cantoria dos pentecostais. Fica fácil entender por que tanta gente opta pelas igrejas evangélicas para tentar se refugiar das adversidades.


Baby do Brasil:

Baby do Brasil já trocou muitas coisas na vida. Trocou de nome (nasceu Bernadete Dinorah e depois adotou a alcunha Baby Consuelo), trocou juras de amor com Pepeu Gomes, então parceiro musical, trocou fraldas de seis filhos e trocou várias vezes a cor do cabelo — inclusive os da axila, uma laranja, e a outra azul, isso nos anos 1980. Naqueles tempos, seguia Thomaz Green Morton, o guru do “rá”, um grito energizante que contagiou vários outros contemporâneos, de Gal Costa a Tom Jobim. Baby e Pepeu batizaram o caçula de Kriptus Rá e, em shows, usavam, como adereços, metais (como garfos) que Morton dizia entortar com a mente.
Em 1999, às portas do novo milênio, Baby do Brasil virou Baby de Deus. Criou sua própria igreja, que chamou de Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome do Senhor Jesus Cristo. Passou a se definir como “popstora”, uma pastora pop. Em 2014, no programa da jornalista Marília Gabriela, declarou: “Eu não tenho uma religião porque isso é coisa de homens e dá briga, eu tenho uma conexão com Deus via Evangelho de Cristo, poderoso e casca-grossa porque não vai ter bunda-mole no céu, só casca-grossa”.


Sobre a transformação social promovida pelas igrejas:

Tornar-se evangélico não revoluciona apenas o íntimo de uma pessoa. Passar a fazer parte de uma igreja evangélica confere ao convertido uma relevância social muitas vezes inédita em sua vida. De forma prática, quem vira crente — uma maioria pobre — costuma melhorar de vida. Vários fatores contribuem para esse upgrade.
A cara mais habitual dos cultos evangélicos é a feminina. Muitas vezes, são as esposas que arrastam os cônjuges para a igreja. Eles vão deixando de lado velhos hábitos que impactavam de modo negativo o lar inteiro. “Na vida das famílias, principalmente as empobrecidas, fazia muita diferença”, afirma Magali do Nascimento Cunha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e membro da Igreja Metodista.
[…]
A leitura da Bíblia é outra chave para entender a ascensão socioeconômica por trás da conversão evangélica. As Escrituras são o coração das igrejas, e para bombeá-lo é preciso saber ler. “Essa ideia da religião do livro tornou possível popularizar a alfabetização, que se fazia muitas vezes com a própria Bíblia”, diz Cunha. Mais para a frente, muitas igrejas também passaram a oferecer cursos práticos para o fiel sair da pobreza, como bordado e corte e costura. “Isso ajudava muitas mulheres a completar a renda familiar. Ser evangélico envolvia uma transformação social.”


Pelos novos entendimentos do neopentecostalismo, Deus não exige o desapego de bens materiais pr’alcançar o céu:

A Teologia da Prosperidade não tem vida fácil fora da sua bolha de origem. Evangélicos de outras correntes a veem como uma barra radioativa que contamina da nascente à foz de um rio, criando uma falsa ideia de que todo o segmento é igual aos olhos míopes dos seculares. Essa doutrina sustenta que Deus deseja para seus filhos a bonança já neste mundo. Acabou o papo de que o sofrimento em vida acumula créditos para o post mortem. Com ela, a recompensa é imediata: quem for um bom garoto será gratificado em vida com riquezas também materiais. Basta ter fé — e estar com o dízimo em dia.


O batismo performático de Bolsonaro:

Everaldo liderou a excursão parlamentar que contou com os filhos políticos de Bolsonaro. Questiona se o patriarca do clã acredita que Jesus “morreu na cruz”, “ressuscitou”, “está vivo para todo o sempre” e é o “salvador da humanidade”. O pré-candidato a presidente diz sim para tudo e afunda no perímetro cercado do rio até a túnica branca, que alugou por menos de dez dólares, se ensopar toda. O pastor o levanta de volta e graceja: “Peso pesado!”. Completa-se o aceno meramente simbólico ao eleitorado evangélico, já que Bolsonaro continuou se declarando católico.


CAPÍTULO 2 — EMPREENDEDORISMO

Pra louvar riquezas, alguns pastores da prosperidade fingem que não existiu a fala “é mais fácil um camelo passar pelo buraco duma agulha do que um rico entrar no reino dos céus” e vão buscar evidências pras suas teses no Antigo Testamento. Parece que quando não dá pr’aceitar o que Jesus disse, busca-se suporte em qualquer outro lugar da Bíblia onde o “filho de Deus” não estava atrapalhando com suas ideias radicais:

O pastor Claudio Duarte resume a moral da história sob a ótica do empreendedor cristão: “Ganhe a terra sem perder o céu. O lance não é largar mão da riqueza nesta vida, é não a colocar jamais acima dos planos do Senhor para você”, instrui. Se Ele quisesse que a humanidade vivesse na penúria, por que nos mandaria exemplos como Abraão e Salomão? “Na nossa vez é que vamos nos lascar? Não sei de onde tiraram essa loucura.”


Este foi o capítulo que mais baixou o meu astral. É a religião como comércio, negócio, cheia de brigas por inveja e vaidade.

Adiante no texto, a explicação sobre o motivo de evangélicos usarem o termo “orar” e não “rezar”:

Outra gafe frequente [na cobertura jornalística]: o uso de “rezar” como sinônimo de “orar”. Evangélico não reza, o que ele vê como um costume católico. O crente compreende que rezar é o mesmo que repetir uma fórmula previamente decorada para falar com Deus, como a ave-maria. Crentes gostam do pai-nosso, que aparece em dois evangelhos, o de Lucas e o de Mateus. A oração, contudo, quase nunca é entoada nos cultos. A Bíblia orienta, em Mateus 6,7, que uma pessoa não deve usar de “vãs repetições” ao orar, “como os gentios”, que “imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos”.


Cresci numa família católica e lembro de vizinhos evangélicos zombando dalguns costumes da Igreja que meus pais escolheram pra nós: dentre eles, a oração do terço, que seria “vazia”, pois decorada. Toda oração é uma perda de tempo, mas dentro duma ótica religiosa — e bíblica — faz mesmo sentido acreditar que a espontaneidade é boa e que a mecanicidade é ruim.

CAPÍTULO 3 — POLÍTICA

O capítulo trata do crescimento da participação evangélica na política, do seu poder pra interferir em eleições, de grandes pastores — como Edir Macedo — que já apoiaram Lula e de como o segmento influenciou o texto constitucional de 1988:

A imprensa ia à forra com a queda de braço. O Correio Braziliense de 27 de maio de 1988 imprimiu no alto de uma página interna: “CARTA LIBERA DIVÓRCIO E IGNORA ABORTO: Lideranças chegam a acordo, texto é aprovado sem emendas e evangélico chora”. A reportagem contava como o deputado e pastor Antônio de Jesus, do PMDB de Goiás, autor de uma emenda que limitava o número de divórcios, chorou quando teve que retirar sua proposição.


A adaptação da bancada evangélica ao usar táticas identitárias como o “lugar de fala” contra projetos da esquerda:

Com os anos, foram aperfeiçoando as estratégias de combate. Por exemplo, os homens do bloco evitam tomar a dianteira em discussões sobre aborto. “Éramos deslegitimados por deputadas da esquerda porque a gente não tinha útero pro debate. Prefiro que seja parlamentar feminina de direita.”


CAPÍTULO 4 — ABORTO

Evangélicos e católicos que seguem as doutrinas de suas igrejas são contrários ao aborto em qualquer fase da gestação. Quando um caso estoura na mídia, costumam dizer que a mãe poderia ter gestado até o fim e colocado o filho indesejado pr’adoção. Mas na vida comum as coisas não são tão simples, pois a mulher pode ser julgada por engravidar fora do casamento e por ser “uma desnaturada” que tem coragem de doar o bebê. Foi por medo da ojeriza social que Kathlyn, então frequentadora da Assembleia de Deus, abortou:

Pensou em dar à luz e depois entregar para adoção, mas aí não teria como esconder de ninguém que engravidara antes de casar, e que o cara ainda dera no pé. Era muita humilhação.


Por limitação de espaço neste Goodreads, não consigo transcrever trechos muito longos sobre o pastor Silas Malafaia, mas como personagem pitoresco ele é um dos destaques do jornalismo literário de Balloussier:

Falando alto, por vezes batendo no chão os pés entocados num chinelo Adidas, Malafaia emite sua opinião com o desembaraço que lhe é habitual, embutindo a expressão “minha filha” a cada duas ou três frases. Recicladas de falas prévias, as palavras saem de sua boca sem ineditismo, às vezes escoltadas por um chuvisco de saliva.
Seu discurso reflete o da maioria dos pastores com quem tratei, ao longo dos anos, sobre seu grau de satisfação com o status legal do aborto no Brasil. Nunca ouvi nenhum que implicasse com sua validade para gestações que imponham risco à grávida. “Aí é escolha de vida, mudou o jogo”, esclarece Malafaia depois de soltar um “ham-ham” triunfal, interjeição que pigarreia com frequência para mostrar ao interlocutor que se vê como o vencedor daquele duelo verbal. Ele diz que estava à espera dessa pergunta. As feministas sempre tentam pegá-lo no pulo com essa, como se quisessem fazê-lo admitir que prefere comprometer a saúde materna a aleijar uma visão inflexível perante o aborto. “Se você tem duas vidas, escolhe a que tem laço social.” Entre feto e mãe, fica a mãe.
[…]
Malafaia tem uma teoria. Idealmente, Deus daria forças às mulheres nessa condição para parir o filho. Não apenas pelo bem do feto. Faria bem à própria mãe não se submeter a um aborto, na lógica do pastor.

Para uma mulher ser estuprada, isso é uma coisa horrorosa, certo?
Pelo amor de Deus! Agora, vamos para uma questão prática aqui.
Serão nove meses de sofrimento gerando alguém que ela não quis,
mas para uma vida toda livre. Agora, trinta ou sessenta dias para
matar o bebê no ventre garantem uma vida toda de problemas
somáticos ou psicológicos.


Malafaia repesca na sequência o mesmo argumento que, em 2008, apresentou numa audiência pública no Congresso que debatia um projeto de lei para descriminalizar o aborto, introduzido lá no começo dos anos 1990. “Eu jantei as feministas, jantei”, o pastor dá sua versão para aquela tarde. “Elas estavam pensando que eu ia lá com a Bíblia, que ia falar ‘porque Deus condena a morte, a vida é um dom de Deus', pipipi, popopó. Eu só vim na ciência e na sociologia. Eu entortei elas, entortei quando o aborto foi derrotado. Lavei minha alma.”


A informação que mais me surpreendeu n’O púlpito foi a de que o pastor Edir Macedo já apoiou o aborto pra gestações indesejadas. Uma falha foi a autora não ter deixado claro se ele ainda apoia a prática:

Há uma exceção digna de nota. O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, destoa de pastores do que pode ser chamado primeiro escalão do evangelismo brasileiro, figuras com peso para influenciar largas fatias de fiéis, de suas próprias igrejas e também de outras. Ainda nos anos 1990, quando ganhava tração nacional, Macedo dizia que o procedimento era bem-vindo para gestações indesejadas. A movimentação é coerente com a visão de sua denominação sobre planejamento familiar.
[…]
Em 2007, Macedo declarou à Folha de S.Paulo ser favorável à descriminalização porque muitas mulheres morriam em clínicas clandestinas. “O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades?” O repórter que o entrevistou rebateu: se “Deus deu a vida e só Ele pode tirá-la”, como diz a Bíblia, não é contraditório um líder cristão apoiar o aborto? Arrematou Macedo: “A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus! Ela simplesmente é gerada pela relação sexual e nada mais além disso”.
Naquele mesmo ano, a Record, emissora do bispo, veiculou uma campanha pró-aborto.


CAPÍTULO 5 — SEXO

Os parágrafos sobre Agostinho — e a leitura que Foucault faz de seus textos — são muito bons. Um excerto:

A culpa é feminina. Intérpretes da literatura agostiniana se refestelaram no repasto misógino que viram ali. A mulher fraquejou primeiro, ao dar ouvidos à serpente que lhe sugeria abocanhar o fruto interdito da Árvore da Sabedoria. Adão foi um pobre coitado que entrou na onda de Eva. Daí são Pedro Damião, beneditino do século XI, concluir sobre todas nós: “Ó, vós, cadelas, porcas, corujas uivantes, corujas noturnas, lobas, sanguessugas […]. Vinde, ouvi, meretrizes, prostitutas, com vossos beijos lascivos, vossas pocilgas para porcos gordos”.
Palavras que serviram de spoiler à Inquisição que exterminaria milhares de mulheres. Por não acreditarem em santos, os evangélicos não enxergam Agostinho como um. Ele é, no entanto, um farol teológico que ainda hoje norteia o horizonte de vergonha que muitos deles traçam quando o assunto é sexo.


Isto sobre Martinho Lutero também é incrível, delicioso e bem sintetizado:

Entre as birras do religioso alemão com o alto clero estava o celibato compulsório para sacerdotes. Lutero era (até onde se sabe) virgem aos 41 anos, quando foi chutado pela Igreja e se casou com uma ex-freira em 1525. Conforme escreveu, Catarina von Bora e ele se uniram para “agradar seu pai, irritar o papa, fazer os anjos rirem e os demônios chorarem”.


E infelizmente tenho que parar aqui porque já estou estourando o limite de caracteres. Como se pode ver pelos bons trechos que transcrevi acima, O púlpito vale a leitura.
Profile Image for Eduardo Lima.
202 reviews2 followers
April 30, 2024
ótima reportagem de uma ótima repórter. texto fluido, histórias boas e interessantes, coisas que eu, como um insider, nem imaginava. os capítulos sobre aborto, sexo e dízimo são excelentes. estranho ler uma reportagem sobre minha fé, e percebi que seria um trabalho muito difícil para mim. você precisa mostrar aquilo que é mais representativo e jornalisticamente interessante, mas tantas vezes isso vai contra o que eu acho que a religião deveria ser ou como eu gostaria de retratá-la. que bom que bons repórteres já estão fazendo esse trabalho :)
Profile Image for Marcelo Costa.
128 reviews2 followers
May 9, 2024
Quem são eles? O que realmente pensam? E, mais importante, quais são suas verdadeiras motivações? A autora, de forma perspicaz e livre de preconceitos, mergulha no universo desse grupo religioso que emergiu da clandestinidade para se tornar uma força influente, transcende a moralidade e se ramifica na economia, cultura e no tecido institucional público e privado: os evangélicos. Ao explorar temas como conversão, empreendedorismo, política, aborto, sexualidade e poder financeiro, somos conduzidos a compreender os desafios, peculiaridades e impactos na sociedade brasileira através de dados contemporâneos e relatos envolventes de personagens reais.
Profile Image for Jackson Nascimento.
6 reviews
October 1, 2025
O livro O Púlpito foi um livro que me interessou pois vivi a passagem do evangelicalismo simples e piedoso, de gente humilde, aquele evangelicalismo da década de 1990, daqueles crentes de bíblia debaixo do sovaco para hoje presenciarmos um movimente de igrejas pretas mimetizando boates, com discursos de autoajuda para enriquecer usando deus como loteria e barganha e usando a bíblia para dar lastro aos seus preconceitos mais odientos. Gente má de verdade!

Anna Virginia Balloussier fez um belíssimo trabalho em destrinchar os objetivos dos Evangélicos que começam sua atuação baseados na teologia do domínio.

O objetivo principal é colonizar todas as esferas da vida pública usando o modelo chamado Teologia dos 7 montes que consegue se infiltrar em sete áreas fundamentais da sociedade, sendo elas: Religião, família, governo, economia, artes, cultura e entretenimento.

“os sete montes integram uma visão estratégica para uma supremacia evangélica”

Não à toa o livro é composto de 7 capítulos, os dois que me deram mais repulsa foi o capítulo 4 – sobre o Aborto:

Sobre aborto em caso de estupro no congresso nacional na constituinte:

Pastor homem: “está provado pela ciência que a mulher pode sim evitar um estupro”
Mulher que debate com o pastor homem: “e se o cara estiver com uma arma apontada para a cabeça da mulher?”
Pastor homem: “ainda assim, ela vai morrer, mas não será estuprada”

e o capítulo 6 – Sobre o poder.

André Valadão sobre o mês do Orgulho LGBT+: “Se Deus pudesse matava tudo e começava tudo de novo”, mas como deus não pode “agora é com vocês”

Os dois que me divertiram foi o 2 – empreendedorismo.

Descobri que existe um Reality show de confinamento de crente valendo um Carro KWID, viagra de crente vendido pelo mesmo pastor que desenvolveu o reality, chamado Levanta Varão (kkkk) E saibam vocês, a Bispa Sonia da Igreja Renascem em Cristo quem importou do Reino Unido a Marcha para Jesus.

5 – Sobre o sexo: “se a mulher quiser manter um homem, a mulher precisa mantê-lo de barriga cheia e saco vazio” Claudio Duarte, humorista/ pastor
Profile Image for Alisa.
1,487 reviews71 followers
Read
April 13, 2025
Pra não-iniciados, este livro pode servir como uma porta para entender melhor a religião dominante no Brasil e o que ela está fazendo nas notícias. Trata com equilibrio os vários pontos de vista dentro do movimento, mostrando que os evangelicos não são um monolíto. Na igreja cabe tudo.

No clube de leitura Leia Mulheres SP, tivemos uma boa rodada de conversa sobre este livro com a metade dos participantes vindo de lares evangélicos e a outra metade não exposta a muito daquele mundo. Foi gostoso de ver tantas pessoas dispostas a curiosidade, a ouvir o próximo, e a compartilhar experiências. Quando expliquei que muito do preconceito vindo dos crentes vem de um medo que a sociedade vai piorar se certos pecados tiveram mais influência, eu tava pensando nos exemplos de pessoas que conheço que são queridas e que não falaria mal pra ninguém. Essas pessoas não estão praticando preconceito no nível do indivíduo, e sim com as atitudes políticas e com os princípios de como "a sociedade deveria se comportar." Por isso vimos casos de convidar o tio gay no aniversário mas ser contra casamento lgbtq. De servir a prostituta na missão e votar contra a decriminalizão de prostitução. De doar cestas básicas aos necessitados mas quer acabar com Bolsa Família. Tem uma desconexão mental entre o respeito ao indivíduo e que grupos são formados de indivíduos, tanto para cristãos olhando pela janela quanto para o mundo afora olhando para os templos de vidro.
Profile Image for Pedro Tardio Ascarrunz.
164 reviews
December 5, 2024
Nunca pensei que iria gostar de um livro que fala sobre religão, especialmente sobre religião em um país como Brasil, porém aconteceu. Este livro retrata de uma forma breve porém muito bem contextualizada como os evangélicos vem tomando conta do país (e não de uma forma boa). A través dos 7 capítulos ela introduz de forma breve problemáticas que se formam a partir da entrada desta religião ao país e de como isto afeta tudo que estamos vivendo atualmente.

Gostei do jeito que a autora descreve como, aos poucos, esta religão foi se apropriando de espaços que antes eram livres, de como estes foram se moldando de acordo com interesses pessoais, políticos ou industriais. No fim você enxerga um pouco melhor como as religiões podem ser distorcidas para mau uso ou uso parcial para elites.

Também nos faz enxergar, que no fim, a religião é um produto dos homens, com interesses, como quase tudo.
Profile Image for Fernanda.
147 reviews5 followers
April 28, 2025
Retrato cuidadoso e atento de quem conseguiu olhar um pouco além dos clichês que envolvem a relação do Brasil progressista com o Brasil evangélico. Até porque pra mim ser evangélico no Brasil no meio dessa ascendência é o meme "Ai Gabi, só quem viveu sabe". Muito bom pra colocar o assunto em perspectiva e entender o Brasil que nos trouxe até aqui.
Profile Image for Andre Aguiar.
478 reviews118 followers
Read
June 21, 2024
Como traduzir para céticos o que é sentir o amor de Deus esparramar dentro de si? Que tipo de identidade coletiva essa experiência produz?
Profile Image for Jefferson Rib.
15 reviews2 followers
January 9, 2025
excelente panorama histórico e ideológico da igreja evangélica no brasil. (acho que o último tema/capítulo, "dízimo", tinha mais pano pra manga.)
20 reviews
February 16, 2025
Amei o livro! Super bem escrito! Leitura fácil e aborda temas importantes. Eu só senti falta que um capítulo final que concluísse os pontos.
Profile Image for Daniel Collina.
6 reviews
February 25, 2025
Boa reportagem, excelente texto. Dá medo de ver o Evangelistão tupiniquim se formando...
Displaying 1 - 14 of 14 reviews

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