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224 pages, Kindle Edition
First published April 8, 2024
Há desafios crônicos em radiografar o corpo evangélico brasileiro. Mesmo as fronteiras tradicionalmente usadas para dividir o bloco em três grandes bandas — pentecostal, neopentecostal e histórica, com igrejas ligadas ao protestantismo clássico — são frouxas quando aplicadas ao quadro contemporâneo, muito mais poroso. Quantas vezes, por exemplo, você já ouviu alguém classificar Silas Malafaia, um dos pastores mais midiáticos, como neopentecostal? Ele, contudo, comanda uma Assembleia de Deus, a maior entre as denominações com DNA pentecostal que se espraiam pelo país. O que não quer dizer que Malafaia não molhe os pés na onda encabeçada pela Universal do Reino de Deus, que difundiu a teologia que defende uma vida financeira próspera para os fiéis.
A experiência religiosa bateu fundo em Luiz. Não conseguia tirar da cabeça a pichação evangélica no muro da favela onde guerreou. Na igreja que conhecia, a católica, tudo lhe parecia mais litúrgico, sisudo. “Aquilo era mais caloroso. Comecei a de fato querer conhecer esse Deus dos protestantes. O Deus desses caras conforta mesmo.”
Das cinco maiores cadeias de fé do mundo, só o hinduísmo e o judaísmo não agem ativamente para converter almas. Islamismo, cristianismo e budismo se apegam à ideia de carimbar sua fé pelo mundo. Institutos de pesquisa como o Pew Research Center apontam que a multiplicação religiosa mais célere hoje é a dos muçulmanos, puxada por questões demográficas. No Ocidente, o apetite conversionista faz com que os pentecostais, galho mais ramoso do segmento evangélico, liderem as taxas de crescimento religioso. É o que acontece no nosso país, onde o catolicismo reinou quase soberano até os anos 1980, quando nove em cada dez brasileiros se reconheciam nele, mas passou a perder espaço para evangélicos e pessoas sem qualquer filiação religiosa. Hoje são metade da população, numa sangria que deve perdurar mais alguns anos até ser estancada.
Certa vez, um pastor me disse que faltava aos católicos um pouco de darwinismo religioso. Não souberam se adaptar aos tempos e demoraram demais para reagir às demandas espirituais das novas gerações. Até os anos 1960, padres recebiam o comando para rezar missas em latim. Para o ex-traficante Luiz, trata-se de uma liturgia mofada, bem mais entediante do que os cultos animados e cheios de cantoria dos pentecostais. Fica fácil entender por que tanta gente opta pelas igrejas evangélicas para tentar se refugiar das adversidades.
Baby do Brasil já trocou muitas coisas na vida. Trocou de nome (nasceu Bernadete Dinorah e depois adotou a alcunha Baby Consuelo), trocou juras de amor com Pepeu Gomes, então parceiro musical, trocou fraldas de seis filhos e trocou várias vezes a cor do cabelo — inclusive os da axila, uma laranja, e a outra azul, isso nos anos 1980. Naqueles tempos, seguia Thomaz Green Morton, o guru do “rá”, um grito energizante que contagiou vários outros contemporâneos, de Gal Costa a Tom Jobim. Baby e Pepeu batizaram o caçula de Kriptus Rá e, em shows, usavam, como adereços, metais (como garfos) que Morton dizia entortar com a mente.
Em 1999, às portas do novo milênio, Baby do Brasil virou Baby de Deus. Criou sua própria igreja, que chamou de Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome do Senhor Jesus Cristo. Passou a se definir como “popstora”, uma pastora pop. Em 2014, no programa da jornalista Marília Gabriela, declarou: “Eu não tenho uma religião porque isso é coisa de homens e dá briga, eu tenho uma conexão com Deus via Evangelho de Cristo, poderoso e casca-grossa porque não vai ter bunda-mole no céu, só casca-grossa”.
Tornar-se evangélico não revoluciona apenas o íntimo de uma pessoa. Passar a fazer parte de uma igreja evangélica confere ao convertido uma relevância social muitas vezes inédita em sua vida. De forma prática, quem vira crente — uma maioria pobre — costuma melhorar de vida. Vários fatores contribuem para esse upgrade.
A cara mais habitual dos cultos evangélicos é a feminina. Muitas vezes, são as esposas que arrastam os cônjuges para a igreja. Eles vão deixando de lado velhos hábitos que impactavam de modo negativo o lar inteiro. “Na vida das famílias, principalmente as empobrecidas, fazia muita diferença”, afirma Magali do Nascimento Cunha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião) e membro da Igreja Metodista.
[…]
A leitura da Bíblia é outra chave para entender a ascensão socioeconômica por trás da conversão evangélica. As Escrituras são o coração das igrejas, e para bombeá-lo é preciso saber ler. “Essa ideia da religião do livro tornou possível popularizar a alfabetização, que se fazia muitas vezes com a própria Bíblia”, diz Cunha. Mais para a frente, muitas igrejas também passaram a oferecer cursos práticos para o fiel sair da pobreza, como bordado e corte e costura. “Isso ajudava muitas mulheres a completar a renda familiar. Ser evangélico envolvia uma transformação social.”
A Teologia da Prosperidade não tem vida fácil fora da sua bolha de origem. Evangélicos de outras correntes a veem como uma barra radioativa que contamina da nascente à foz de um rio, criando uma falsa ideia de que todo o segmento é igual aos olhos míopes dos seculares. Essa doutrina sustenta que Deus deseja para seus filhos a bonança já neste mundo. Acabou o papo de que o sofrimento em vida acumula créditos para o post mortem. Com ela, a recompensa é imediata: quem for um bom garoto será gratificado em vida com riquezas também materiais. Basta ter fé — e estar com o dízimo em dia.
Everaldo liderou a excursão parlamentar que contou com os filhos políticos de Bolsonaro. Questiona se o patriarca do clã acredita que Jesus “morreu na cruz”, “ressuscitou”, “está vivo para todo o sempre” e é o “salvador da humanidade”. O pré-candidato a presidente diz sim para tudo e afunda no perímetro cercado do rio até a túnica branca, que alugou por menos de dez dólares, se ensopar toda. O pastor o levanta de volta e graceja: “Peso pesado!”. Completa-se o aceno meramente simbólico ao eleitorado evangélico, já que Bolsonaro continuou se declarando católico.
O pastor Claudio Duarte resume a moral da história sob a ótica do empreendedor cristão: “Ganhe a terra sem perder o céu. O lance não é largar mão da riqueza nesta vida, é não a colocar jamais acima dos planos do Senhor para você”, instrui. Se Ele quisesse que a humanidade vivesse na penúria, por que nos mandaria exemplos como Abraão e Salomão? “Na nossa vez é que vamos nos lascar? Não sei de onde tiraram essa loucura.”
Outra gafe frequente [na cobertura jornalística]: o uso de “rezar” como sinônimo de “orar”. Evangélico não reza, o que ele vê como um costume católico. O crente compreende que rezar é o mesmo que repetir uma fórmula previamente decorada para falar com Deus, como a ave-maria. Crentes gostam do pai-nosso, que aparece em dois evangelhos, o de Lucas e o de Mateus. A oração, contudo, quase nunca é entoada nos cultos. A Bíblia orienta, em Mateus 6,7, que uma pessoa não deve usar de “vãs repetições” ao orar, “como os gentios”, que “imaginam que é pelo palavreado excessivo que serão ouvidos”.
A imprensa ia à forra com a queda de braço. O Correio Braziliense de 27 de maio de 1988 imprimiu no alto de uma página interna: “CARTA LIBERA DIVÓRCIO E IGNORA ABORTO: Lideranças chegam a acordo, texto é aprovado sem emendas e evangélico chora”. A reportagem contava como o deputado e pastor Antônio de Jesus, do PMDB de Goiás, autor de uma emenda que limitava o número de divórcios, chorou quando teve que retirar sua proposição.
Com os anos, foram aperfeiçoando as estratégias de combate. Por exemplo, os homens do bloco evitam tomar a dianteira em discussões sobre aborto. “Éramos deslegitimados por deputadas da esquerda porque a gente não tinha útero pro debate. Prefiro que seja parlamentar feminina de direita.”
Pensou em dar à luz e depois entregar para adoção, mas aí não teria como esconder de ninguém que engravidara antes de casar, e que o cara ainda dera no pé. Era muita humilhação.
Falando alto, por vezes batendo no chão os pés entocados num chinelo Adidas, Malafaia emite sua opinião com o desembaraço que lhe é habitual, embutindo a expressão “minha filha” a cada duas ou três frases. Recicladas de falas prévias, as palavras saem de sua boca sem ineditismo, às vezes escoltadas por um chuvisco de saliva.
Seu discurso reflete o da maioria dos pastores com quem tratei, ao longo dos anos, sobre seu grau de satisfação com o status legal do aborto no Brasil. Nunca ouvi nenhum que implicasse com sua validade para gestações que imponham risco à grávida. “Aí é escolha de vida, mudou o jogo”, esclarece Malafaia depois de soltar um “ham-ham” triunfal, interjeição que pigarreia com frequência para mostrar ao interlocutor que se vê como o vencedor daquele duelo verbal. Ele diz que estava à espera dessa pergunta. As feministas sempre tentam pegá-lo no pulo com essa, como se quisessem fazê-lo admitir que prefere comprometer a saúde materna a aleijar uma visão inflexível perante o aborto. “Se você tem duas vidas, escolhe a que tem laço social.” Entre feto e mãe, fica a mãe.
[…]
Malafaia tem uma teoria. Idealmente, Deus daria forças às mulheres nessa condição para parir o filho. Não apenas pelo bem do feto. Faria bem à própria mãe não se submeter a um aborto, na lógica do pastor.
Para uma mulher ser estuprada, isso é uma coisa horrorosa, certo?
Pelo amor de Deus! Agora, vamos para uma questão prática aqui.
Serão nove meses de sofrimento gerando alguém que ela não quis,
mas para uma vida toda livre. Agora, trinta ou sessenta dias para
matar o bebê no ventre garantem uma vida toda de problemas
somáticos ou psicológicos.
Malafaia repesca na sequência o mesmo argumento que, em 2008, apresentou numa audiência pública no Congresso que debatia um projeto de lei para descriminalizar o aborto, introduzido lá no começo dos anos 1990. “Eu jantei as feministas, jantei”, o pastor dá sua versão para aquela tarde. “Elas estavam pensando que eu ia lá com a Bíblia, que ia falar ‘porque Deus condena a morte, a vida é um dom de Deus', pipipi, popopó. Eu só vim na ciência e na sociologia. Eu entortei elas, entortei quando o aborto foi derrotado. Lavei minha alma.”
Há uma exceção digna de nota. O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, destoa de pastores do que pode ser chamado primeiro escalão do evangelismo brasileiro, figuras com peso para influenciar largas fatias de fiéis, de suas próprias igrejas e também de outras. Ainda nos anos 1990, quando ganhava tração nacional, Macedo dizia que o procedimento era bem-vindo para gestações indesejadas. A movimentação é coerente com a visão de sua denominação sobre planejamento familiar.
[…]
Em 2007, Macedo declarou à Folha de S.Paulo ser favorável à descriminalização porque muitas mulheres morriam em clínicas clandestinas. “O que é menos doloroso: aborto ou ter crianças vivendo como camundongos nos lixões de nossas cidades?” O repórter que o entrevistou rebateu: se “Deus deu a vida e só Ele pode tirá-la”, como diz a Bíblia, não é contraditório um líder cristão apoiar o aborto? Arrematou Macedo: “A criança gerada de um estupro seria de Deus? Não do meu Deus! Ela simplesmente é gerada pela relação sexual e nada mais além disso”.
Naquele mesmo ano, a Record, emissora do bispo, veiculou uma campanha pró-aborto.
A culpa é feminina. Intérpretes da literatura agostiniana se refestelaram no repasto misógino que viram ali. A mulher fraquejou primeiro, ao dar ouvidos à serpente que lhe sugeria abocanhar o fruto interdito da Árvore da Sabedoria. Adão foi um pobre coitado que entrou na onda de Eva. Daí são Pedro Damião, beneditino do século XI, concluir sobre todas nós: “Ó, vós, cadelas, porcas, corujas uivantes, corujas noturnas, lobas, sanguessugas […]. Vinde, ouvi, meretrizes, prostitutas, com vossos beijos lascivos, vossas pocilgas para porcos gordos”.
Palavras que serviram de spoiler à Inquisição que exterminaria milhares de mulheres. Por não acreditarem em santos, os evangélicos não enxergam Agostinho como um. Ele é, no entanto, um farol teológico que ainda hoje norteia o horizonte de vergonha que muitos deles traçam quando o assunto é sexo.
Entre as birras do religioso alemão com o alto clero estava o celibato compulsório para sacerdotes. Lutero era (até onde se sabe) virgem aos 41 anos, quando foi chutado pela Igreja e se casou com uma ex-freira em 1525. Conforme escreveu, Catarina von Bora e ele se uniram para “agradar seu pai, irritar o papa, fazer os anjos rirem e os demônios chorarem”.