Heloisa Murgel Starling analisa o golpe de 1964 de forma precisa e inédita em livro serializado. Nesta primeira parte, a autora revisita a mobilização nacional, política e militar, assim como o auxílio prestado pelo governo dos Estados Unidos.
Recuperando com riqueza de detalhes o estopim da deflagração do golpe de 1964, Heloisa Murgel Starling esmiúça os antecedentes que pavimentaram a derrubada da presidência de João Goulart e deram início a uma ditadura militar de vinte e um anos. Na primeira parte de A máquina do golpe, "Engrenagens militares e apoio externo", a historiadora evidencia a articulação entre militares e governadores na empreitada contra o presidente, e a disputa entre eles pela primazia do movimento golpista, descrevendo a concepção e a execução da quartelada do general Olympio Mourão Filho, a movimentação política do governador mineiro José de Magalhães Pinto, a atuação do general Carlos Luís Guedes, e a reação do general Castello Branco. A essa intricada rede de conspiradores soma-se a indispensável participação política dos Estados Unidos, personificada no embaixador Lincoln Gordon, cujos esforços para neutralizar e derrubar Jango se fizeram por programas de financiamento a governadores anticomunistas, patrocínio eleitoral nas eleições parlamentares, além de treinamentos para capacitação policial e acordos militares.
Em 31 de março e 01 de abril de 1964 eclodiu no Brasil, via Minas Gerais o início da desordem institucional que acabaria por abrir a porta para as Forças Armadas adentrarem definitivamente na cena política a fim de demolir a democracia e instaurar o golpe, que mascarado de ato patriótico, perseguiu, torturou e assassinou não só parte da população, mas como a própria democracia brasileira.
Embora seja lembrada primordialmente pelo ano de 1964, o golpe foi gestado desde a posse de João Goulart em 1961, contemplando-se de uma situação de polarização ideológica, radicalização social, com largo apoio de quase toda imprensa nacional, por parte relevante da caserna e de um ator internacional fundamental que financiou o golpe mediante intervenção política, econômica e social no país.
Narrando, pois, todas as etapas da implantação da ditadura militar, a escritora compõe o retrato do golpe, as motivações pessoais e institucionais de seu êxito; com programas voltados a impedir o alastramento de ideias comunistas na América Latina, os Estados Unidos adotou diversas linhas estratégicas para desestabilizar o governo de Goulart, desde a confecção de um “índice ideológico”, no qual classificaria todos governadores e seus viés políticos, para munir aqueles alinhados aos EUA de recursos e financiamento a fim de “pressionar, enfraquecer ou restringir as alternativas políticas da administração de João Goulart”, até a patrocinar nas eleições de outubro de 1962 uma “bancada oposicionista ativista o bastante para erguer no Congresso a barreira para frear e conter as iniciativas do governo federal” aliada ao uso da comunicação e do cinema destinado a grupos específicos para inflamar entre eles as ideias antidemocráticas.
Não obstante, o envio de munição, de treinamento, de mantimentos e do posicionamento de parte relevante da esquadra naval dos EUA próximo ao Porto de Santos e de Vitória foram apenas alguns dos passos dados a fim da ruptura institucional, em conluio com diversos generais e capitães abertamente golpistas, acabaram por desembocar em um período de repressão e ilegalidade. Sendo, portanto, uma obra de reconstituição dos fatos, de como se tramou e executou o golpe no Brasil, em uma excelente obra que nos lembra a necessidade de se estar vigilante, pois o fascismo está sempre à espreita, como o ano eleitoral de 2018 nos demostrou, com a eleição de um apoiador da ditadura de 64 e abertamente golpista.
Bom livro para se conhecer o ambiente dos momentos que antecederam o golpe. Embasado em farta documentação este livro expõe as armadilhas impostas a nossa fraca democracia.
Em um livro curto mas de grande vigor narrativo, Heloisa Starling condensa a preparação para o dia do Golpe de 1964 em dois eixos: militar e política externa. O primeiro, a mobilização militar partindo de Minas Gerais e o apoio cívico do governador Magalhães Pinto. O segundo, a autora narra toda a conformação do financiamento norte-americanos a grupos privados e políticos oposicionistas de João Goulart. Particularmente, acredito que escrever um livro síntese e compartimentado em volumes é mais atraente ao leitor do que livros grandes que parecem densos ao público que quer conhecer mas tem medo de se perder em tanta informação. A rigorosidade científica é impecável, com fontes e indicação de bibliografia pra aprofundamento em cada nota.