Vencedora dos prêmios Sesc e Biblioteca Nacional na categoria Conto, Marta Barcellos estreia no romance com A cortesia da casa , trama ambientada em um spa de luxo da serra fluminense. Denise, uma mulher de meia-idade que se hospeda no Spa Montana, na região serrana do Rio de Janeiro, se esforça para cumprir seu papel social e se manter na superficialidade. Em meio a uma rotina que normaliza contagens de calorias, cirurgias plásticas e situações escatológicas, ela tenta se adequar aos padrões estabelecidos por uma elite que parece tão perdida quanto ela. A narrativa é delicada e as observações e incômodos da personagem se revelam gradativamente nos os problemas com o marido, o filho, a nora e a amiga Lena, cuja rotina movimentada e boêmia ela acompanha em encontros ocasionais, e cujo interesse na vida de Denise esconde um segredo. Com um trabalho de ocultamento na linguagem e sem resvalar para a caricatura, A cortesia da casa se vale do ambiente artificial do spa para mostrar a crise de meia idade de uma mulher que subitamente se sente descartada - pelo marido Vicente, pelo filho Bruno, pelo mercado de trabalho – e começa a ter episódios de compulsão alimentar. O leitor acessa as brechas das narrativas que a personagem cria para si própria, e entrevê o desamparo e o vazio deixado pela falta dos homens de quem ela cuidou. Neste romance instigante, Marta Barcellos traz, com beleza, humor e ironia, um comentário sobre frivolidade e uma crítica de classe sutil e irônica sobre uma mulher em crise. “A narrativa sagaz da autora provoca em nós, os leitores, sentimentos ambí nos diverte e desagrada a frivolidade de Denise ao mesmo tempo que compreendemos os mecanismos sociais e patriarcais que a forjaram. Torcemos para que ela rompa a casca e se revele ou se descubra. Ou se liberte. Efeito comovente construído com maestria por Marta Barcellos.” – Claudia Lage
Uma obra apática sobre o cotidiano onde nada acontece talvez venha a ser uma boa frase para definir a obra, ou ao menos, a minha leitura.
Narrando três períodos distintos em que a protagonista de classe média alta se hospeda em um spa para melhor adequar o corpo e reduzir seu peso, ao leitor resta observar suas refeições, os métodos de perda de peso, a culpa em algum prazer na alimentação e também sob um pequeno ângulo acerca da perda da liberdade quando a velhice e a degradação natural do corpo se encontra com as mulheres, machucando-as mais do que aos homens.
Há, certamente, uma crítica à esse último fato; a constante necessidade de encaixe do corpo e da pessoa em grupos que não mais a pertecem, no entanto, poucas vezes li algo tão trivial. Não há nada que eu tenha gostado na leitura, também não há nada que tenha detestado, no entanto, pode ser que agrade os demais leitores, sendo, sem dúvida um retrato de muitas vidas frente a cobrança irreal da juventude permanente.
Uma voz certeira de meia-idade contando inseguranças (e calorias...) O primeiro romance de Marta Barcellos traz uma excelente construção de personagem, compõe a figura de uma mulher de classe média alta, meia idade, mas fugindo da unidimensionalidade, embora figuras estereotipadas sejam encontradas com frequência na vida real. A voz do narrador em terceira pessoa bastante se confunde, é quase simbiótica, com a voz da protagonista Denise, dando um tom irônico e sarcástico ao analisar a própria experiência em um SPA de luxo na serra do Rio de Janeiro em duas temporadas. Fez-me remeter à voz de David Foster Wallace em seus ensaios sobre uma Feira Estadual de Illinois e o desfrute de uma semana num cruzeiro de luxo, no livro “Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo” Há um raio-x quase jornalístico, bem-humorado do que acontece no local, um estranhamento, um deslocamento, uma necessidade de entender a si e os outros, os motivos de estarem ali, fugindo, se deslocando da realidade, como num cruzeiro diamante. Aos poucos, vamos encontrando na narrativa, as dores de Denise, o medo da finitude que se coloca já visível, as dificuldades de relacionamento com o filho e o marido, mas sem cair para o dramático, a autora chega a brincar, num exercício de metalinguagem, sobre as vísceras que precisaria expor para que sua vida pudesse se tornar um livro. É como se a protagonista estivesse somente ensaiando ser protagonista, mas nunca se colocando no palco. Uma boa estreia da autora premiada no gênero do conto (é possível ver interessantes traços do recorte de cenas aqui) agora no romance.