Leitura obrigatória para quem se esquece que a história se repete.
A tese central do livro é a seguinte:
“Os movimentos, os partidos e, sobretudo, os líderes políticos que desafiam hoje a democracia tal como a conhecemos até agora, isto é, a democracia plena, a democracia parlamentar liberal (…) não descendem do Mussolini fascista. Descendem, sim, do Mussolini populista”.
Em relação às diferenças dos movimentos fascistas/populistas dos anos 20 e 30, para os de hoje:
“As diferenças entre os populistas soberanistas de hoje e os nacionalistas fascistas de Mussolini são muitas e cruciais, a começar pelo uso de violência física, sistematicamente praticada pelos segundos, mas não pelos primeiros. Ao contrário dos fascistas da primeira metade do século xx, os populistas de hoje, embora cultivando a tendência para desacreditar as instituições democráticas num sentido iliberal não eliminam pela violência física os seus adversários políticos; mantêm-se, quanto a isso, dentro do perímetro das regras democráticas; conseguem controlar o Parlamento vencendo eleições (salvo quando, uma vez por outra, o atacam, como aconteceu nos Estados Unidos e no Brasil) (…) A verdade, porém, é que os populistas de ontem e de hoje se unem no facto de representarem uma ameaça à qualidade e à plenitude da vida democrática liberal, uma ameaça resumida na centralidade autoritária do chefe”
Na segunda metade do livro o autor descreve os métodos usados por Mussolini quase como um manual para chegar ao poder e a comparação com o Trump e semelhantes torna-se ainda mais clara e inevitável:
Métodos:
* Personalização autoritária
- “Revolução linguística(…)cada frase um slogan. (…)os seus artigos nunca manifestaram qualquer preocupação de coerência ontológica, isto é, de ancorar as palavras na realidade. (…) todas aquelas afirmações altissonantes, gritadas (…), eram sempre precedidas pelo pronome pessoal singular: eu digo, eu prometo, eu ameaço…eu, eu, eu”
* Polémica antiparlamentar
- “O ataque retórico à democracia passa pela propaganda contra o parlamentarismo. (…) Mas, se eu sou o povo e o povo sou eu, o Parlamento torna-se uma perda de tempo. Não por acaso, a violenta polémica antiparlamentar, que retrata o Parlamento como uma complicação inútil, um lugar de corrupção e enganos (…) encontra-se na origem de todos os movimentos populistas”
- “Mesmo a imagem da classe política liberal, retratada como uma “casta” fechada nos seus privilégios, autorreferencial e surda às reclamações do povo”
* Comandar seguindo
- “Sim, porque quem é oco, quem não tem princípios, não tem crenças, não tem lealdade, não tem programas irrenunciáveis, não tem objectivos estratégicos preestabelecidos, não tem horizontes incontornáveis, quem considera dispensáveis todos os seus aliados, sairá taticamente vitorioso na política. Sairá vitorioso porque esse copo vazio se encherá, de tempos a tempos, com o que ouve nas conversas de café, o que fareja num dia de mercado, o que percebe estando atrás da multidão.”
* Política do medo
- “um líder populista quase nunca apela à esperança do seu povo, mas quase sempre aos seus medos”
* Transformar o medo em ódio
- “O Mussolini populista atiça, primeiro, o medo. Depois, porém, faz esta segunda jogada. Diz: “a ameaça é gravíssima, é iminente, é mortal: o perigo são os socialistas; são os estrangeiros, querem invadir o nosso país; são estrangeiros, mas estão instalados no nosso território. Há que ter medo deles, mas não devemos limitar-nos a ter medo deles, devemos odiá-los, não basta temer, é preciso odiar””.
* Simplificar a vida moderna
- “Mussolini foi um dos primeiros a intuirem as implicações políticas do sentimento de opressão provocado em todos nós pela enorme complexidade da vida moderna”. (…) Percebeu que o fascismo (…) podia valer-se da brutalização da vida política capaz de aniquilar o pensamento. (…) Assim, a propaganda do populismo fascista bate insistentemente nesta tecla: a realidade não é tão complexa como a apresentam os velhos liberais (…) Tudo é reconduzível a um único problema. Esse único problema é reconduzível a um inimigo. Esse inimigo é identificado num estrangeiro, um estrangeiro invasor. O estrangeiro invasor é liquidável. Problema resolvido”.
———
Duas frases, fora desta nota, que queria deixar aqui destacadas:
“Nós, as civilizações, sabemos agora que somos mortais” — escreveu Paul Valéry no dia seguinte à eclosão da Primeira Guerra Mundial.
“Época tumultuosa (…) na qual tudo, literalmente tudo, é possível. Anos formidáveis, em que ‘um dia se sai da cadeia e no dia seguinte se é presidente do Conselho’”.
— trouxe-me à memória o período pós-25 de Abril.