Sabemos o quanto somos guiados pela ideia de destino. Que nossas vidas são manipuladas por uma mão invisível que determinou nossas vidas desde o início dos tempos. Mas, será que não podemos escapar dessa roda que parece nos pegar pela mão e levar até nosso destino? Talvez um de nossos maiores temores seja a falta de um livre arbítrio. E quando aquela pessoa que tanto amamos, que achamos que nosso destino está atrelado a ela, na verdade possui uma trajetória diferente? É com essa temática que Fabio Brust nos entrega uma narrativa emocionante sobre duas pessoas que lutam contra aquilo que foi pré-determinado a elas.
Davi e Samanta são amigos de infância. Aquele típico caso do casal que se ama, mas tem medo de sair do nível da amizade e seguir ao próximo nível. Ambos sentem ciúmes um do outro, mas não cedem diante da pressão. Chegado o último ano da escola, é hora de decidir sobre suas vidas. Samanta e Davi estão namorando com pessoas que não curtem muito, embora eles consigam tocar seu cotidiano. Eles se conheceram em um sebo que se tornou o seu ponto de encontro, o seu refúgio das chateações do mundo comum. Só que o sebo está para fechar. A crise chegou e os donos não conseguem mais manter seu negócio. Na despedida do seu lugar favorito, os dois amigos conversam sobre encontros e desencontros e Davi escolhe o último livro que Samanta vai levar do seu lugar querido. Só que algo estranho acontece: Samanta consegue ver uma história enquanto que Davi acha que se trata apenas de um caderno em branco. Feitas as despedidas, Samanta segue para casa e descobre que o livro, que se chama Ex Libris, conta toda a vida de seu amigo Davi. E com uma precisão absurda. O final da história assusta Sam: Davi vai morrer em um incêndio. E agora? O que é o Ex Libris? E como evitar esta previsão tão assustadora?
Tem todo um cuidado legal com o livro. Preciso aplaudir o trabalho da Avec com a diagramação, as imagens e até o cuidado. Tem uma surpresa para os leitores atentos na numeração de páginas do livro. Os capítulos são bem curtinhos, fazendo com que o livro tenha uma baita velocidade. Os ganchos narrativos também são bem trabalhados mantendo o leitor atento à narrativa. A escolha da narrativa em terceira pessoa também é bastante apropriada para tocar a história, embora eu ache que o autor poderia ter alternado entre os dois personagens. Iria provocar uma dinâmica e um contraste interessante entre as visões deles. Manter na Sam fez da história meio unilateral ainda mais em se tratando de uma que se foca nos dois. Duas vidas, um livro. Esse é um mote das partes mais avançadas da narrativa.
Samanta é aquela personagem típica leitora. Curiosa, corajosa. Mas, o autor dá a ela um pouco de personalidade. Algumas das ações dela no início da história revelam um pouco de seu lado falho. Acho até que o autor poderia ter explorado mais esse lado da personagem. Ela se torna a típica heroína da jornada do herói. Seria preciso sair um pouco do clichê dessa jornada para construir outro tipo de narrativa. Chega a um ponto em que o leitor consegue prever o que vai se suceder em seguida. Embora eu goste de como ela toma as ações para si em diversos momentos da história. Ou seja, estamos frente a uma personagem ativa.
Por outro lado Davi não é o personagem típico. Ele foge um pouco no começo ao clichê do amigo de infância. O personagem sabe o que quer para si e só começa a ter algumas dúvidas lá pelo meio da história. Embora eu ache que algumas de suas decisões mais adiante contrariam um pouco o que foi construído antes sobre o personagem. A relação entre os dois personagens é o ponto focal de mais da metade da trama. Os pequenos gestos, os silêncios, as ações feitas em consequência do outro. Gostei dessa relação entre ambos.
Mas, o que me incomodou um pouco é em como as coisas começam a estranhamente dar certo de uma hora para outra. Entendo toda a temática de destino e da luta contra ele, mas é preciso cuidado ao empregar o deus ex machina. Tava na cara que ele faria parte integrante da história por causa do Ex Libris ser a própria encarnação do deus ex machina. Mas há um exagero na dose. Isso tira um pouco da capacidade dos personagens de investigação e de dedução. De certa forma essas escolhas incomodam bastante principalmente porque os personagens precisam colocar em funcionamento aquilo que eles aprenderam ao longo da narrativa. Algumas situações acontecem de forma conveniente demais.
Tudo isso não tira a criatividade da narrativa. A história é gostosa e vai emocionar os leitores que estão atrás de um romance leve. Os elementos fantásticos estão presentes ali e se tornam parte do objetivo central a ser alcançado por eles. Tem alguns problemas aqui e ali, mas eu recomendo bastante a leitura. Sei que vai encantar a vários de vocês.