Entre 1933 e 1974, Portugal viveu sob um regime autoritário que influenciou profundamente a vida quotidiana da população. Na memória coletiva, perduram as lembranças da censura, da repressão política e do controlo ideológico. Mas como chegámos lá? E como era, de facto, o dia a dia de quem, na cidade ou no campo, viveu o Estado Novo?
A mulher era ensinada a ser casta. O homem, como chefe de família, devia ser respeitado e obedecido. A relação com os filhos era complexa, e predominava, muitas vezes, a violência. A escolaridade fazia-se apenas para aprender a juntar as letras e a assinar o nome. O autor mais censurado foi José Vilhena, com um total de 29 títulos. O consumo de vinho era incentivado pelo próprio regime, ficando famosos slogans como «Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses».
Era assim a vida em Portugal. Com recurso a uma extensa pesquisa e a testemunhos de quem viveu de facto a ditadura, a historiadora e investigadora Ana Sofia Ferreira apresenta-nos neste livro uma visão abrangente de como foi a vida durante o Estado Novo. No meio da fome, pobreza e repressão, uma mensagem de esperança: felizmente, houve quem continuasse a encontrar formas de luta contra as adversidades, forjasse formas de resistência e ousasse sonhar e lutar por um Portugal diferente.
AS ALEGRIAS FUGAZES E AS TRISTEZAS DURADOURAS DA COMPLEXA VIDA SOB DITADURA.
ANA SOFIA FERREIRA nasceu no Porto, a 16 de Fevereiro de 1980. É licenciada em História (2002) e mestre em História Contemporânea (2008) pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto e doutorada em História Contemporânea na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2014). Foi Professora Assistente Convidada na Escola Superior de Educação de Setúbal (2009-14) e Bolseira da FCT no âmbito do doutoramento (2009-13). É Professora Auxiliar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, investigadora integrada do Instituto de História Contemporânea (IHC-FCSH/UNL), onde desenvolveu o projecto de pós-doutoramento Violência Política em Democracia. O caso português em contexto europeu: As FP-25 de Abril (1980 1987). Tem vários estudos publicados sobre a oposição ao Estado Novo, entre os quais se destaca “As greves no Litoral Norte português no agitado Verão de 1958”, em Greves e Conflitos Sociais: Portugal no Século XX; “A campanha de Delgado no Porto. A importância da História local”, em História Social do Porto e “História do Porto: Insubmisso à Tirania. A cidade durante a Ditadura”.
Sob a pergunta “como era, de facto, o dia a dia de quem, na cidade ou no campo, viveu o Estado Novo?”, a Ana Sofia Ferreira, compõe a leitura sobre o quotidiano dos populares, da burguesia comercial e das elites, com a ajuda de Isabel de Arriaga, Maria Alice Pereira, Maria Amélia, Maria Guiomar, Maria do Amparo, Judite e toda a uma panóplia de pessoas que nasceram, viveram e/ou tiveram a sorte de ver a revolução de 25 de abril nas ruas. Nada melhor que perceber e estudar o Estado Novo senão pela lente de quem o viveu? É o que a autora faz nas 194 páginas do seu livro. Sem dúvida todos deveriam lê-lo. Ora para confirmar factos históricos, ora para aprender ou, também, para ficar surpreendido pelo facto de que até o bacalhau não conseguiu escapar ao regime: da política espírito, da nacionalista e dos valores morais e éticos conservadores. Que regime foi este que usou a comida para nos suprimir enquanto país, enquanto nação?
Um bom resumo, gostei particularmente dos testemunhos que dão vida aos temas. Gostava que tivesse sido mais aprofundado, em alguns temas ficou um pouco pela rama, como na secção sobre cultura, em especial sobre as vivências citadinas.