Quando lhe perguntei o que a levou a ficar em Portugal, mesmo sabendo que a esperava uma vida precária e cheia de riscos, vi os seus olhos brilharem e vi os seus lábios articularem, sílaba a sílaba, a palavra “Democracia”. A democracia, para a Mafalda, significa muito mais do que depositar um voto numa urna ou escolher representantes. Significa, como ela me explicou logo a seguir, a certeza permanente de ser capaz de tomar as decisões que determinam o seu destino. Significa a vida plena, a vida de cabeça erguida e com o horizonte à altura dos olhos. Ou, para usar as palavras dela: “Andar na rua com a sua parcela de liberdade ao alcance da mão, pronta a brandir como se fosse uma bandeira ou uma ferramenta que se traz num saco a tiracolo.”
"Estamos na antecâmara, Vera, de resvalarmos colectivamente para um extremo disfarçado de mediania: o contentamento burguês, a submissão ao quotidiano, a redução da História a um animal doméstico balofo vão ser o nosso futuro."
Muita formalidade, muito jogo, pouco jeito para adequar a voz - imitar o Decameron não chega, a tentativa de tangencialidade face ao 25 de Abril seria uma boa ideia, se funcionasse. Mas não funciona. Estou a ficar velho e tenho de aprender a desistir a tempo.
«O nosso estratagema engenhoso consistiu em fingirmos ser nobres florentinos ou peregrinos com tempo infinito para queimar. Decidimos contar histórias. As histórias demoram a serem contadas e tornam os ouvintes devedores do narrador: ai daquele que romper o conto com uma partida extemporânea, por mais grave que seja o pretexto! Contar histórias apenas por contar, à toa e sem plano, seria -- todos concordámos nisto -- correr o risco de transformar o nosso plano numa coisa efémera, em perigo de desagregação permanente. As regras de que precisávamos foram enunciadas ao sabor da inspiração de cada um, mas rapidamente vertidas por escrito pelo Ponziani e adoptadas por unanimidade e um clamor de aprovação que talvez se devesse reservar para documentos fundadores: constituições, estatutos, tábuas divinas inscritas a fogo. As regras eram as seguintes.»
Doze portugueses contam as histórias de 50 anos de democracia. A narradora, Vera, conta as histórias à medida que delas se vai lembrando, durante uma travessia de Lisboa. Conta-as tal como as ouviu, ou como lhe contou quem as ouviu. Ela tem um só objectivo para esse dia. O tempo distende-se. Num único dia conta-se a odisseia de 50 anos de democracia, de 50 anos de vidas passadas em democracia.
As vozes respondem-se, completam-se, respeitam-se. As páginas viram-se sozinhas. As vidas do Ponziani, da Judite, do Eumeu, da Rebeca, de todos eles, tornam-se familiares. Queremos saber sempre mais, e no fim do livro ficamos mesmo com pena por termos chegado ao fim das histórias.
Um livro que, se não é uma história das Mil e Uma Noites, anda lá perto.