Um corpo estirado na rua. Uma mulher desaparecida. Sem notícia da amiga há uma semana, tudo que Saramara tem é o caderno em que Carlabê escrevia cartas, deixado no apartamento em que moravam. Agora, ela precisa responder às perguntas de um homem que, gravando a conversa com um celular, a acompanha pelo bairro de Santa Cecília, na busca incerta pelo paradeiro da moça.
Levados pela voz de Saramara a construir, por gestos e frases vagas, a imagem de Carlabê, não conseguimos, contudo, dizer com convicção que sabemos quem ela é. As dificuldades para se sustentar na capital paulista expõem as personagens ao desamparo, que ameaça suas relações e as leva a tomar decisões arriscadas.
Numa trama que se desenvolve como uma transcrição, intercalando ruídos e trechos de cartas, Isabela Noronha explora as lacunas de uma história para desenhar os meandros de uma amizade e a hostilidade de uma cidade em constante expansão.
Com uma estrutura pouco convencional, o romance Carlabê me conquistou com a figura de Saramara, uma narradora (e um desenrolar de mistério) que me lembrou as obras que mais gosto de Elvira Vigna. Há vários outros pontos de mérito (e.g., as sensações e ruídos do bairro, os dramas pessoais, uma voz sedutora que inspira pouca confiança), mas essa boa lembrança por si só torna a leitura de Carlabê uma grande felicidade.
Carlabê é a Macabeia do capitalismo tardio. Tem aí a busca pela protagonista desaparecida, como na Amiga Genial de Elena Ferrante; o entrevistador fantasma sem nome, sem rosto e sem voz que caça essa heroína, como nos Detetives Selvagens de Roberto Bolano, mas cujo mutismo lembra também as Breves Entrevistas com Homens Hediondos, de David Foster Wallace; Também o toma-lá-dá-cá ou o “mostra o teu que eu mostro o meu” que a entrevistada quer estabelecer com o entrevistador lembra um pouco a valsa que Clarice Starling e Hannibal Lecter dançam no Silêncio dos Inocentes; e tem também uma assustadora e melancólica relação entre dois irmãos gêmeos que não deixa nada a dever ao Maligno de James Wan ou a Sisters, de Brian de Palma. Foi mal o namedropping. É um livrão.
nessa idade sabemos o mundo, podemos sobreviver a uma cidade como essa. o chão deste centro treme. de leve, mas dá pra sentir. calçadas, ruas, praças, parques: tudo tremelica um pouco, só o que é frágil cai.
Isabela Noronha já havia me surpreendido com Resta Um. Carlabê é ainda mais instigante e emocionante. O livro te prende - o leitor quer muito saber o que houve com Carlabê. Mas é muito mais do que isso. Ele nos apresenta duas mulheres em toda a sua complexidade, a partir de uma narração inusitada e impressionante. Uma narradora nada confiável, mas transparente, que se trai ao falar livremente para alguém que se presta a ouvir, como todos nós.
Em um primeiro plano, conhecemos as histórias dessas duas amigas. Mas o livro vai além. Ao conhecermos suas origens, as camadas de interpretação vão se tornando ainda mais complexas.
Me fez lembrar de A Hora da Estrela. Carlabê não ser exatamente uma Macabea, mas é uma mulher oprimida pela cidade grande, a "maior cidade da América do Sul", e sua simplicidade convive com questões existenciais. Da mesma forma, a narradora não é Rodrigo S.M, mas també tem um fascínio por sua Bebê e tenta a todo custo captá-la por completo!