«Memórias Minhas é um deslumbrante caminhar por dias e lugares que se cruzam com tempos únicos da nossa história contemporânea. Uma vida – uma geração – a rebeldia, a resistência, a guerra, a cadeia, o exílio, a Voz da Liberdade, a festa dos verdes anos, amores e desamores. E ainda, desde o luminoso 25 de Abril que mudou o destino, os combates longos, duros, conflituantes, que esculpiram a identidade da democracia constitucional. E o depois, nas curvas e contracurvas da mudança, do parlamento, da candidatura presidencial. Memórias Minhas é um filme do tempo, descontinuado, de ida e volta, comovente por vezes. Do achamento das rotas da vida e da poesia, do feito e por fazer, até das ilusões perdidas. E Manuel Alegre, na sua inquietude, insubmisso, a dizer-nos que: “Mais do que de economistas, este é um tempo que precisa de filósofos, poetas e profetas.”» Alberto Martins
MANUEL ALEGRE nasceu a 12 de Maio de 1936 em Águeda. Fez os estudos secundários no Porto, altura em que fundou, com José Augusto Seabra, o jornal Prelúdio. Do Liceu Alexandre Herculano, do Porto, passou a Coimbra, em cuja Universidade foi estudante de Direito, de par com uma grande actividade nas áreas da política, da cultura e do desporto. Destacado elemento dos movimentos estudantis, fez parte da Comissão da Academia que apoiou a candidatura de Humberto Delgado a presidente da República; foi um dos fundadores do Centro de Iniciação Teatral da Universidade de Coimbra (CITAC) e membro do Teatro de Estudantes da Universidade de Coimbra (TEUC), foi ainda director do jornal A Briosa, redactor da revista Vértice e colaborador da Via Latina; praticante de natação, representou a Académica em provas internacionais.
Em 1962, foi mobilizado para Angola, tendo aí participado numa tentativa de revolta militar, pelo que esteve preso no forte de São Paulo de Luanda, cárcere onde conheceu Luandino Vieira, António Jacinto e António Cardoso. Libertado da cadeia angolana, foi desmobilizado e enviado para Coimbra em regime de residência fixa. Em 1964, exilou-se para Argel, onde viveu dez anos. Ali seria dirigente da Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), presidida por Humberto Delgado, e principal responsável e locutor da emissora de combate à ditadura de Salazar, A Voz da Liberdade. Após o 25 de Abril, regressou a Portugal, passando a dedicar-se à política no seio do Partido Socialista de que é membro da Comissão Política. Foi Secretário de Estado da Comunicação Social e Secretário de Estado Adjunto do Primeiro-Ministro para os Assuntos Políticos do I Governo Constitucional (1976-1978), deputado à Assembleia da República (1976-2009) e membro do Conselho de Estado, do Conselho das Ordens Nacionais e do Conselho Social da Universidade de Coimbra. Em 2006 foi candidato à Presidência da República, obtendo 20,7% dos votos, tendo-se recandidato em 2011, onde obteve 19,7% dos votos.
Foi o primeiro português a receber o diploma de membro honorário do Conselho da Europa. Entre outras condecorações, recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade (Portugal), a Comenda da Ordem de Isabel a Católica (Espanha) e a Medalha de Mérito do Conselho da Europa.
Como poeta, começa a destacar-se nas colectâneas Poemas Livres (1963-1965), publicadas em Coimbra de par com o «Cancioneiro Vértice». Mas o grande reconhecimento dos leitores e da crítica nasce com os seus dois volumes de poemas, Praça da Canção (1965) e O Canto e as Armas (1967), logo apreendidos pelas autoridades, mas com grande circulação nos meios intelectuais. Começando por tomar por base temática a resistência ao regime, o exílio, a guerra de África, logo a poesia de Manuel Alegre evoluiria num registo épico e lírico que bebe muito em Camões e numa escrita rítmica e melódica que pede ser recitada ou musicada. Daí ser tido como o poeta português mais musicado e cantado, e não só em Portugal, mas também, por exemplo, na Galiza (Grupo «Fuxan Os Ventos») e na Inglaterra (Tony Haynes, BBC). Daí Urbano Tavares Rodrigues: «Os dois grandes veios que alimentam a poesia de Manuel Alegre, o épico e o lírico, confluem numa irreprimível vocação órfica que dele faz o mais musical (e o mais cantável) dos poetas portugueses contemporâneos.»
Estreando-se na ficção com Jornada de África, em 1989, Manuel Alegre não deixa de arrastar para a prosa e pela prosa a sua vocação fundamental de poeta. «A poesia é a sua pátria», lembra Marie Claire Wromans, e confirma-o a prosa de A Terceira Rosa.
Para além das revistas e jornais já citados, Manuel Alegre tem colaboração dispersa por muitos outros jornais e revistas culturais, de que destacamos: A Poesia Útil (Coimbra, 1962), Seara Nova, o suplemento do Diário Popular «Letras e Artes», Cadernos de Literatura (Coimbra, 1978-), Jornal de Poetas e Trovadores (Lisboa, 1980-) e JL:
Não esperava. Sem contar, nem imaginar sequer, este tornou-se um dos melhores livros que já li.
Tocou-me tudo, senti os sentimentos e inquietações do Manuel Alegre ao longo da sua vida. A mudança constante de ambiente, a resistência ao regime, a vida boémia em Coimbra, a poesia, a música, o Zeca Afonso, a crise académica, a guerra, a prisão e o regresso. Isto tudo sempre misturado e interligado com uma vida de participação política na sua plenitude, mais formal ou informal, mais radical ou moderada.
Soube escrever sobre si mesmo, sendo um dos principais rostos de um Portugal resistente e depois de um país a construir uma democracia, sem qualquer soberba ou arrependimento.
“Uma tarde, íamos a atravessar a praça da república em direção ao Mandarim. O Adriano olha para trás e diz: - Aí estão eles. Eram dois pides, com a clássica gabardina, pareciam fardados. De repente saíram-me aqueles quatro versos:
Mesmo na noite mais triste em tempos de servidão há sempre alguém que resiste há sempre alguém que diz não.
- Aponta já - diz o Adriano. - Podes não escrever mais nada, mas isso vai ficar para sempre.
Gostei da poesia em prosa que é este livro. Recordações de infância que por vezes fazem lembrar as do António Lobo Antunes . Um vivendo na província, outro na capital. E tem frases lindas : “ Ninguém é mais infeliz do que um adolescente em busca da sua personagem “. “Escrever é uma forma de reviver o já vivido “ .
Manuel Alegre é socialista . É um homem bom É uma pessoa com ideias próprias. É um poeta “Há sempre alguém que resiste. Há sempre alguém que diz não . “
Também eu resisto e digo que não ao seu percurso, ao seu pensamento político, à forma como viveu aos valores que pretende defender. Vivi a infância e a adolescência nos tempos que ele viveu . Não me recordo da repressão de que Manuel Alegre fala . Vivi na universidade as greves estudantis . Fui ver os estudantes em greve da fome trancados na reitoria da universidade clássica . Umas dezenas de alunos das associações de estudantes que não representavam a maioria dos universitários . Por convicção eram poucos . Muito poucos . Depois relata a sua fuga de Portugal , os anos passados em Argel, os encontros com chefes do terrorismo nas nossas ex colónias , com comunistas e até com Che Guevara . A adolescência e o início da idade adulta a conspirar contra o seu governo e o império em que nasceu. Se Portugal fosse a ditadura sanguinária e repressiva de que falam alguém acredita que gente como Manuel Alegre, Soares e Cunhal que lutaram toda a vida contra o regime teriam sobrevivido? Enfim…. As suas memórias atropelam-se umas às outras. Ele próprio diz : ‘ …não tomei notas, não tenho cadernos , não fiz nem mandei fazer investigações. Por isso não se pode dizer que estou a escrever uma autobiografia., muito menos História. Vou atrás da memória, a caneta flui pelo espaço e pelo tempo ao sabor dela ou dos seus caprichos . “ Conta zangas, lutas internas do PS e a sua relação com Mário Soares. É um socialista de esquerda e gostou da geringonça . Viveu como ele diz : “ a utopia de querer realizar o socialismo em liberdade”
É o primeiro livro que li deste autor, gostei muito da forma como escreve e fala sobre a sua vida, especialmente os seus amigos e as pessoas a que tem admiração, especialmente Sophia e Torga. Por vezes foi confuso seguir a história devido às diversas prolepses e analepses, mas no geral acredito que é um livro fácil e divertido de ler. Como alguém que não conhecia a história do autor e começou a ler o livro por pura curiosidade de ler os seus poemas nas aulas de português, eu gostei imenso deste livro! Fiquei entusiasmada para ler mais livros deste autor.
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É de resistência que este livro nos fala. De resistência e de combate político, de convicções e afirmação de vontades, de escolhas acertadas e outras nem tanto, de lealdade, solidariedade, dedicação altruísta e entrega sem limites. De amigos verdadeiramente amigos, de amigos assim-assim, de inimigos que viriam a tornar-se amigos e, como não podia deixar de ser, do seu contrário, também. De momentos incontornáveis da nossa história ao longo das últimas seis décadas, entre “a noite mais triste, em tempos de solidão” e a liberdade a abrir-se em flor nesse “dia inicial inteiro e limpo”. De poetas e de poemas, da literatura como afirmação de princípios e valores, de combate à solidão, de arma que desarma. E de utopia, desse futuro inscrito no presente que, como o sonho, faz com que o mundo “pule e avance”. “Memórias Minhas” é a história de um homem a confundir-se com a história de um país, um olhar lúcido sobre os mistérios e contradições da política e de quem a faz, a constatação de um mundo em queda livre, “com novos poderes, novos meios cada vez mais sofisticados, novas e surpreendentes batotas eleitorais”. E que se (e nos) interroga: “Como resistir?”
A referência a Clemente da Silva Mello Soares de Freitas, tio-trisavô de Manuel Alegre que, apanhado de armas na mão a defender as linhas liberais em 1828, foi preso, enforcado e decapitado na Praça Nova, no Porto, e a cabeça espetada num pau em frente à casa de família, em Aveiro, é tema de abertura deste livro. Numa família onde, segundo o escritor, há “liberais e miguelistas, monárquicos e republicanos, nobres e plebeus”, não deixa de ser significativa esta menção a um dos “mártires da liberdade”. A nota de inconformismo e de rebeldia, a vontade de juntar a sua voz à dos fracos e oprimidos, a importância de pensar pela própria cabeça (ainda que sob pena de poder vir a perdê-la), são traços indefectíveis do carácter de Manuel Alegre, desde que tomou partido contra o S de Salazar, até aos nossos dias, que no livro terminam com o abandono da política activa, uma solução de Governo chamada “geringonça”, a eleição de Marcelo de Rebelo de Sousa como Presidente da República e a morte de Mário Soares.
Embora negando tratar-se de uma autobiografia, Manuel Alegre oferece-nos um livro apaixonante que nos leva ao encontro da nossa história recente, esclarecendo alguns dos seus episódios mais marcantes e enriquecendo-os com a clareza de quem neles teve parte activa. Das lutas académicas à ida para Angola, com passagem pelos Açores, durante a guerra colonial, da militância comunista ao exílio em Paris e Argel, do regresso após o 25 de Abril e das grandes batalhas travadas em nome de um Partido Socialista com uma visão democrática do marxismo e defensor dos princípios do socialismo em liberdade, é a palavra como arma, mesmo quando era proibida, o denominador comum de uma voz que em circunstância alguma se calou. São muitas as aventuras narradas neste livro e que têm como protagonistas nomes tão ilustres como os de Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner, Fernando Assis Pacheco, Adriano Correia de Oliveira ou Herberto Hélder e, num outro plano, os de Amílcar Cabral, António Ramalho Eanes, Jorge Sampaio, Salgado Zenha, Vítor Constâncio e Mário Soares. Será incómodo para alguns, mas é um livro arrebatador, que exprime a verdade do seu autor e se faz ouvir no combate às políticas neoliberais que teimam em tolher-nos os passos e negar-nos o sonho.
A Resistência ao fascismo do Estado Novo, a luta pela Democracia, o combate na defesa do 25 Abril e da inteireza, dignidade e autonomia do Partido Socialista - enfim, muito do que é decisivo na História recente de Portugal está contado tim tim por tim tim neste livro de Memórias que NÃO é uma autobiografia. E quem o conta é tanto o Poeta como o Político, Alguém a quem um dia se fará, pela certa, a merecida justiça: Manuel Alegre é um símbolo da Pátria (a palavra que ele nos devolveu em todo o mais amplo significado dela!), da Resistência e da Liberdade! Indispensável!
Poético. Pessoal. Político. Histórico. Culto. Tudo incluído num livro de memórias de um poeta que esteve exilado, foi deputado, candidato a Presidente. Gostei de ler.
Manuel Alegre, o prosador do povo. Após A Praça da canção, Cão como nós, e O miúdo que pregava pregos numa tábua, descobri o Manuel Alegre historiador (muito contra o desejo do autor). Sempre muito pessoal, muito sensível, muito humano. Além das histórias vividas na ditadura e no ultramar, interessou-me imenso como viveu a formação do Partido Socialista e as lutas que o próprio viveu durante a sua vida política, salientando este excerto: " Mário Soares (...) preferiu acreditar que poderia vencer com a Democracia e pela Democracia. A direita portuguesa não existiu neste combate. Aproveitou-se dele, abrigou-se no chapéu de chuva do PS. (...)Travei esta luta pela liberdade e não por nenhum partido. E nem sequer me reconheço, há muito tempo, nos aparelhos dirigentes que têm estado à frente do PS desde a saída de Mário Soares de secretário-geral. Fui do PS no Verão quente. Estou no PS pelo povo que vota socialista. Não pelos ex-esquerdistas que se opuseram a nós nos momentos decisivos e se arvoram hoje em ideólogos de terceiras e quartas vias." Levo comigo a escrita intemporal, o socialismo puro, a história do Mário Soares e do Álvaro Cunhal a ver a novela Gabriela, e uma resma de recomendações de novos/ velhos livros.
Um camarada do Expresso, ao recomendar-me este livro, disse que Manuel Alegre "não desperdiça uma única palavra" e que qualquer pessoa que faça da escrita o seu ganha-pão devia lê-lo. Confesso que, ao princípio, desvalorizei a sugestão, talvez por uma certa falta de ligação emocional da nossa geração às palavras de Alegre, que tanto animaram um Portugal quando o país sofria de falta de esperança e falta de poesia.
Acabei por pegar no livro, meio resignado, sem saber o que esperar e com um ceticismo já antigo em relação a memórias e autobiografias, escritas seja por quem for.
Desfiz essa máxima poucas páginas depois. A escrita de Alegre não é apenas bonita ou eloquente ou "boa", o que quer que isso signifique. É honesta. É a voz da resistência ao fascismo e ao autoritarismo, do encantamento com a promessa de Abril, mas também do desencantamento com o constante desperdício das oportunidades que tivemos para criar um país mais justo e igual. É, no fim de contas, uma das mais importantes vozes da história portuguesa. E é a palavra, rara nos dias que correm, de um homem que colocou as suas convicções, a sua crença no socialismo democrático, à frente de intenções de poder.
Talvez este seja um resumo ingénuo de um jovem de 29 anos, que não assistiu a Manuel Alegre como um político ativo, que tem vagas memórias das suas candidaturas a Belém, e que leu ou ouviu, sem prestar atenção, um dos seus poemas na escola. A verdade é que fiquei a dever uma revisão profunda da sua bibliografia, e este livro de memórias será um fiel companheiro para buscar recomendações poéticas e para partilhar a inquietação de um jovem apático com um futuro muito incerto.
Houve várias ocasiões em que tropecei em versos de Manuel Alegre, mas a primeira vez que caí foi com o poema "Abaixo el-rei Sebastião". Tocou-me profundamente. Foi o primeiro poema que senti que tinha propósito. Foi o poema que me fez gostar de poesia. Quis naturalmente saber do poeta. Descobri que Alegre foi político e que antes tinha sido um Revolucionário. A sua poesia fez tremer a ditadura em Portugal. Era uma voz de resistência. Era uma forma de combate. É um Poeta. Mas só me apercebi da real força das suas palavras quando ouvi o meu avô materno a cantar, comovido, a "Trova do Vento que Passa" num concerto que celebrava a Liberdade.
Em "Memórias Minhas", Manuel Alegre conta na primeira pessoa pequenos pedacinhos de História que ficaram perdidos nas entrelinhas da Revolução. Mas para mim este livro é muito mais que isso: é o apelo de quem nunca baixou os braços para que a luta continue. É a história do nascimento de um poeta que se fez revolucionário - ou de um revolucionário que se fez poeta. Primeiro poeta, depois político, sempre um Resistente. É assim que Manuel Alegre se retrata nas suas Memórias. Foi assim que o conheci, e foi isso que me fascinou. "Porque é que, sendo poeta, se envolveu na política? - Por isso mesmo"
Obrigada a Manuel Alegre por este livro. Precisava dele sem saber. Acho que Portugal precisa dele e não sabe.
"Há sempre alguém que resiste/há sempre alguém que diz não"