Os contos aqui reunidos seguem um fio de memória. Um fio que se desembrulha a cada história e que se torna o seu elo de ligação. A intimidade insinua-se junto do leitor, que avança incauto, apanhando pelo caminho os cacos das experiências vividas pelas personagens. Objectos, lugares e músicas cumprem uma função central nesse desenterrar do passado, compondo um puzzle narrativo de trauma, redenção e um certo desassombro.
Souvenir é o primeiro livro de Marta Hugon. «Foi numa dessas sessões fotográficas que ela ganhou coragem para me fazer algumas perguntas e que acabei por lhe falar da minha amnésia retrógrada, como se de algo trivial se tratasse. Ficou um pouco em silêncio, o cabelo caindo-lhe para a cara enquanto mexia na máquina e eu me sentava muito direito, tentando parecer à vontade. Depois olhou-me nos olhos, o semblante sério, e antes de disparar avisou: — Cuidado com o flashback.»
Os livros da Tinta da China de capa dura e marcador de fitinha são um mimo e este livro com contos que se leêm ao fim do dia e nos deixam a refletir sobre o desencanto, a traição, a deslealdade mas também sobre recomeços e coragem são um verdadeiro prazer de ler. Equilibrados e bem escritos seguem o fio da memória através de objectos, lugares ou músicas para episódios que marcaram e não ficaram esquecidos. Os desfechos de qualquer um destes onze contos surpreende e não consigo assegurar qual o preferido. Excelente primeiro livro.
Um livro muito bem escrito. Os vários contos (cada um com a sua temática) deixam-nos a pensar... Este livro demonstra, também, que é possível contar várias histórias através de uma linguagem simples sem perder qualidade. Recomendo!
Uma professora de canto de meia idade que se apaixona pelo seu jovem aluno, um homem que perde a memória depois de um acidente de bicicleta, uma empregada doméstica acusada de roubar um objecto de valor e que é despedida, um engate num bar que termina da pior forma, uma ilha no Índico que transforma a vida de um visitante, uma chamada telefónica com uma forte carga premonitória, uma carta muito tempo guardada e que recupera uma vivência amarga, uma viagem relâmpago a Nova Iorque, uma praia distante que traz com ela o fim do mundo, uma entrevista que abraça uma grande história de amor, a memória como uma dádiva. Dádivas e lembranças que tornam presentes as marcas do passado, presentes que são desafios e convidam à quotidiana tomada de decisões, futuros que se abrem e fecham como velhas portadas batidas pela ventania. De incertezas e ambições, escombros e recomeços, se faz a estreia de Marta Hugon no pequeno grande mundo da ficção, através de um livro que revela uma autora perspicaz, delicada e sensível, de quem muito há a esperar.
Conhecida, sobretudo, pela sua voz e presença ligada ao Jazz, Marta Hugon surpreende-nos com “Souvenir”, um olhar pessoal em forma de livro que nos mergulha num presente dominado pela premência de amar e ser amado. Conjunto de onze contos cuidadosamente burilados, o livro exprime, de uma forma muito simples mas plena de significado, a urgência de uma palavra, de um abraço, de um beijo, como um escape ou uma libertação das sombras que vão caindo sobre as vidas de cada um, nesse terreno resvaladiço que conduz ao desamparo e à solidão. Realistas na sua essência, desenvoltos e desapaixonados, estes contos formam, na sua dimensão humana, um conjunto homogéneo e profundamente actual. A sua leitura pode não ser sempre fácil ou agradável, mas o teor é sintomático de um mundo tomado por uma deriva existencial, de uma angústia sem limites, mascarada por atitudes afirmativas, de uma violência latente, construída na base da hipocrisia e do fingimento, da arrogância e das relações de poder.
Testemunhos vivos do pensamento sincero e exigente da autora, os contos impressionam pela intensidade da escrita e pela sua depuração. Não é fácil encontrarmos numa primeira obra uma visão tão madura e tão bem estruturada, isenta de irritantes “apêndices”, na forma de parêntesis ou apartes. Focada em contar uma história e em fazê-lo bem, Marta Hugon não se desvia um milímetro do seu objectivo, dispensando o inconsequente e o fútil. Feito de objectos, lugares e músicas, o mundo pessoal da autora mostra-se de forma subtil neste desfiar de contos, fazendo do leitor um cúmplice no complexo exercício de desenterrar passados e abraçar presentes. Em parte ou no todo, o leitor pode encontrar em “Souvenir” um espelho de si próprio, naquilo que o viver implica de saber, mas também de fortuna e acaso. Na encruzilhada de todas as vidas, entre Lisboa e Nova Iorque, a ilha de Moçambique ou uma barragem no Alentejo, lá encontraremos também a nossa, ora altruística e solidária com a dos outros, ora desinteressada e profundamente egoísta. Saudem-se as decisões intempestivas, os monólogos meditativos, os telefonemas a meio da noite, os encontros furtivos. A vida existe para ser vivida.
O Clube Tinta da China é agora bimestral, e pela mesma razão pela qual ele se tornou bimestral, eu decidi ganhar vergonha e pegar neste "Souvenir" de Marta Hugon e folheá-lo. O primeiro conto "Conceição" conquistou-me imediatamente, recordou-me que os bons contos me ficam sempre a saber a pouco.
"Quando chegaram a casa no dia do casamento, Custódio tinha-a olhado com um misto de desdém e indiferença e pedira-lhe que servisse o medronho do costume. Conceição não se levantou logo e Custódio talvez tenha visto cintilar nos seus olhos o brilho de desafio da mulher alentejana. A chapada de mão aberta que lhe virou a cabeça nesse dia foi apenas a primeira de muitas. (...) Não era uma mulher frágil, mas aquilo ia-a desfazendo por dentro, a sua juventude consumindo-se em desamor e ensaios de pancada."
Já não o consegui largar. Adorei cada uma destas pequenas histórias sobre os mais diversos personagens, suas experiências e memórias. Tenho a sensação que enquanto leitores vamos desentrelaçando e colhendo os pedaços destas vidas que cada conto nos oferece até sermos arrebatados pelos finais (sempre) surpreendentemente inesperados. Escolho entre os favoritos "Casta Diva", "A Carta", "Viagem na Irrealidade Quotidiana" e claro, "Souvenir". Muito bom!
Uma excelente surpresa. Os vários contos são breves e surpreendentes, em torno da memória e da lembrança individual, e de como nos podem trair, ou, por outro lado, nos podem salvar.
Sendo um primeiro livro da autora, tem naturalmente uma menor maturidade literária do que aquilo que, normalmente, se encontra nas edições da Tinta da China. Não encontrei nos contos muita consistência (temática ou linguística); alguns são cativantes, outros um tanto ou quanto banais. No geral, é um livro de lançamento que não me deixou muita curiosidade para obras futuras.
" Quando chegaram a casa no dia do casamento, Custódio tinha-a olhado com um misto de desdém e indiferença e pedira-lhe que servisse o medronho do costume. Conceição não se levantou logo e Custódio talvez tenha visto cintilar nos seus olhos o brilho de desafio da mulher alentejana. A chapada de mão aberta que lhe virou a cabeça nesse dia foi apenas a primeira de muitas. Não que fosse sempre. Alturas havia em que Custódio parecia serenar e até gostar dela. Desculpava-se com a bebida e o trabalho. (...) Não era uma mulher frágil, mas aquilo ia-a desfazendo por dentro, a sua juventude consumindo-se em desamor e ensaios de pancada. Desabafou com a mãe, mas de pouco lhe serviu. A vida de casada era território sagrado onde ninguém se atrevia a interferir, até ser tarde demais. Os anos passaram. O cabelo embranqueceu-lhe num instante e os filhos não vieram. Conceição estava grata por isso. A violência de Custódio deixava-a em constante sobressalto e fora com alívio que aceitara que o seu corpo se fechara."
Gostei muito da escrita da autora. Os contos são breves e surpreendentes e abrangem temas muito familiares do quotidiano luso. Adorei logo este primeiro "Conceição" e fiquei com pena que tivesse acabado, ainda que considere o seu final perfeito. Os contos seguintes não ficaram nada atrás. Sendo que este é o primeiro livro da autora antevejo uma carreira literária muito promissora.
11 contos muito bem escritos, que agarram o leitor até à última palavra. A Marta Hugon demonstra que, para além de ser uma fantástica cantora, também consegue encantar na escrita. Obrigado Marta!