Demorei bastante a perceber que não depende da paisagem o silêncio que por vezes há em mim.
No início do mês, ouvi Susana Moreira Marques no podcast “O Poema Ensina a Cair” e fiquei encantada com a gargalhada fácil e a forma entusiasmada como falou dos poemas que escolheu para ler. Talvez porque os livros dela, “Agora e na hora da nossa morte” e “Lenços pretos, chapéus de palha e brincos de ouro”, abordem questões tão sérias e até mesmo pesadas, não esperava uma pessoa tão luminosa. Pela escrita intimista e pelo ambiente mais doméstico e familiar, “Terceiro andar sem elevador” está talvez mais próximo de “Quanto tempo tem um dia” do que dos dois livros anteriormente referidos, que apesar de terem também o cunho pessoal da autora, têm um carácter mais sociológico, onde ela é sobretudo observadora. Aqui, porém, SMM é a protagonista destes apontamentos inspirados pela cidade de Lisboa mas também por outras por onde ela passou.
Não imagina, necessariamente, como olhará para o lugar de partida, nem pensa na possibilidade de ter de fazer o luto de si mesmo, da pessoa que vai deixar de ser quando se mudar. Isso – podia eu explicar-lhe, porque já vivi noutras cidades – é saudade.
- Sobre saudade
Tal como eu, SMM vive num prédio antigo sem elevador e, trabalhando também em casa, os critérios de escolha ideais são semelhantes: sossego, luz, vista. É neste cenário que surgem meditações em torno de 19 temáticas diversas que acabam por parecer cerejas: uma puxa outra e mais outra.
A mais breve correspondência do mundo é talvez aquela que mantemos connosco próprios: pequenas notas que escrevemos a nós mesmos. Listas. Lembretes. Coisas importantes no meio do mais banal.
- Sobre enviar bilhetes
Qual teria sido a narrativa – e o tanto da nossa cultura que assenta nela – se tivesse sido dada a Penélope a possibilidade de partir, deixando Ulisses à espera? Teria vivido grandes aventuras? Teria fundado cidades? Ou será que teria, ainda assim, escolhido ficar em casa?
- Sobre um tecto
Uma carta de despedida é, de certa forma, uma espécie de obituário. O obituário de uma relação, por exemplo.
- Sobre despedidas
Todas as canções parecem ter sido compostas para nós, individualmente, quando as escutamos em determinados momentos. Numa grande matemático universal, pode não existir uma perfeita cara-metade, mas existe sempre a música perfeita.
- Sobre música
Quando alguém morre, quando há um acidente, os jornalistas relatam os últimosposts de Instagram, as últimas fotos, como se a representação da vida fosse a vida.
- Sobre estar à janela
É um livro que convida à reflexão, mas também à criação dos nossos tópicos pessoais e, apesar de o ter lido relativamente depressa, vai saber-me bem retornar a ele mais tarde.
As notas, escritas no presente, são sempre dirigidas ao futuro. Nisso, partilham com o diário esse desejo de diálogo connosco mesmos. Nesse futuro, talvez nos surpreenda tudo o que está ausente daquele tempo da nossa vida (…). Mas talvez nos surpreenda ainda mais verificar como somos tão parecidos ainda com aquele retrato.