A avó é forçada a cuidar do neto, quase adolescente, quando a mãe lho entrega. Depois de ter sofrido durante a revolução (por estar «no lado errado da história»), de perder tudo e de regressar à vida, tem de cuidar de um neto que mal conhece. Quando ele entra na adolescência e na droga, ela procura um emprego duro para conseguir pagar as contas.
Até que a doença muda tudo - é lenta, mas imparável. Ela precisa de cada vez mais cuidados; ele quer começar uma vida nova, mas vai percebendo que morre um pouco de cada vez que a avó se esquece das suas histórias e do seu nome. Para se resgatar, tem de lidar com o passado e com a sua própria culpa. Mais do que isso: tem de aprender a olhar para ela, ouvi-la e guardar as memórias para a salvar do esquecimento.
Aquele livro que te faz sentir e pensar no modo como criamos intensas relações com alguns dos nossos familiares. Uma história sobre a relação de ternura e cuidado de um neto para com a sua avó embrenhada num vórtice de demência. Mas também um retrato da pobreza material como limitador da vida das personagens e do cuidado. Um leitura que não consegui parar. Escrita irrepreensível e intensamente poético na dureza do tema.
3.5 ⭐️ “Um neto pequeno, mau como as piores cobras, não dava para educar. E o meu filho era novo, queria tentar a sua sorte”, contava. Ela subtraía-lhe a culpa e aquilo fazia doer. (…) Não percebia porque ele resistia, a razão de ele sobreviver e eu ter ficado pequenito e plasmado numa imagem de maldade e recusa.”
É uma história comum mas que nos faz refletir sobre a velhice e as suas doenças, um sentimento de culpa, a rendição, numa realidade que um dia nos pode apunhalar. A escrita é simples mas com uma ferocidade que nos deixa a pensar…
Primeiro romance deste autor. Conta-nos a relação entre uma avó e um neto. A avó, cujo neto criou e muitas "noites" perdeu à sua conta pelas preocupações que lhe foi dando ao logo do seu crescimento, vai perdendo faculdades, a sua memória, sem que o seu neto, já homem feito, se aperceba quanto.
Que maravilha de escrita tão cuidada, tão profunda na sua abordagem aos sentimentos da avó e neto ! Fiquei encantada com a sensibilidade com que este tema foi abordado, O neto que não se apercebe do declínio da avó e que depois não o quer ver, e a avó que vai sentido medo, dor e aflição por estar a perder as suas capacidades. É impossível ficar indiferente à escrita apurada, ao amor que se sente nas palavras escritas, que se adivinham próximas do coração do autor e que chega directamente ao nosso, como leitores. Adorei, na verdade. É livro que quero reler.
Acho que não estava à espera disto e portanto foi uma montanha russa de emoções. É um livro muito cru, é impossível ficar indiferente a isto. Adorei! Tenho a certeza que vou pensar ainda muito neste livro...
"Não aconteceu num ápice, não foi um momento infeliz, ela foi-se apagando sem eu ver. Estava a olhar para o lado. No dia em que levantei a cabeça, era menos gente. Só aí pensei na idade dela, qual seria a idade, ia a caminho dos setenta, mas não sabia o número certo. O tempo foi-lhe agreste, não lhe deu mar manso nem brisas. Reagia e tentava manter a cabeça fora de água, num obstinado espernear para não ser puxada para baixo. Estava já tão longe quando tentei aproximar-me."
Neste seu romance de estreia, Mário Rufino, dá-nos a conhecer a história de uma avó e do seu único neto. Uma avó que no auge da sua vida vê despejado em sua casa o neto que mal conhece, vítima de uma mãe negligente e de um pai ausente. À medida que o neto cresce ela repara na sua revolta, atribui isso à rebeldia da adolescência, as más companhias e perdoa a falta de carinho do neto pensando que um dia ele vai reconhecer que ela gosta dele e tudo fará para o manter junto dela em segurança. Já o neto tem outras razões para a sua revolta: não gosta da casa onde vive, não gosta de estar na escola e não sente nada em relação à avó que o acolheu, sente mesmo um certo desprezo e só sonha com o dia em que vai sair de casa para nunca mais voltar como o seu próprio pai fez. Um dia percebe que a avó já não é a mesma, anda esquecida e confusa mas no alto do seu egoísmo atribui esses esquecimentos à idade avançada e ao cansaço. Quando o médico numa consulta lhe diz que a avó está num estado avançado de Alzheimer ele começa a questionar todos os seus sentimentos e atitudes. Cadente é um relato cru de um neto que perante a decadência da saúde da avó se encontra num emaranhado de emoções e que se interroga constante o que poderia ter feito de diferente ao longo da vida. Mário Rufino escreve de uma forma directa, sensível e exemplar que nos faz pensar que mesmo perante as vicissitudes da vida quotidiana não devemos de deixar de estar atentos a quem nos amou e cuidou sob pena de um dia ser tarde demais.
“Perdemos a dignidade que nos restava. Fomos ven- cidos pela doença.
As lágrimas corriam-lhe pelas mãos engelhadas, paravam na aliança de casamento, as mãos sufocavam os soluços e tinha falta de tudo, de ar, de paz, de rotinas amenas, tinha falta de si.”
Este livro vai ficar comigo durante muito tempo, é de uma enorme profundidade, com passagens muito bonitas.
Que leitura tão bonita! Triste mas bonita! A escrita do Mário é bonita, mas crua. A história e as personagens não poderiam ser mais reais. É impossível não revermos situações e momentos aqui descritos com familiares com os quais já passamos pelo mesmo. Este neto e esta avó ficarão comigo.
✨ “Um dia começaria a esquecer-me do seu rosto e tudo se tornaria uma nuvem no passado. Espero que, de tudo o que me for retirado, fique o nome dela, o nome que me agarrou pelos braços quando caí, o nome de quem nunca me largou a mão.”
Ler este livro foi mergulhar numa realidade que me é muito próxima. Consigo sentir cada palavra do Mário como se também eu a tivesse escrito, daí me ter emocionado muito com a leitura deste livro. Esta é uma história sobre uma avó e sobre um neto. É um retrato dilacerante da doença de Alzheimer e o quão destrutiva consegue ser, sobre a sua atuação lenta, mas intensa e imparável. Um livro que me arrepiou e deixou comovida, e que recomendo muito a quem goste de leituras mais imersivas e que vos façam refletir sobre o sentido da vida e a decadência da velhice, mas especialmente a pessoas que admirem uma escrita crua, reflexiva e poética, que é o que irão encontrar neste romance de estreia do autor. O que não adorei nesta história… o neto. Não consegui gostar desta personagem nem relacionar-me com os seus sentimentos e falhas. Simplesmente só me apetecia dar-lhe uma chapada na cara e dizer-lhe para acordar para a vida. No entanto, simultaneamente, também tenho compaixão por ele, por ser humano, imperfeito, e por ter tentado fazer o que estava ao seu alcance para ajudar a avó… Sem dúvida, uma história que não nos deixa indiferentes.
Cadente conta-nos a história de um neto e de uma avó. Um rapaz revoltado com a sua vida e uma mulher que sempre foi independente até que a doença a consegue alcançar. Uma obra que nos mostra que tomamos por garantido quem sempre cuidou de nós, e que de um dia para o outro os papéis podem inverter-se.
A história de uma mulher de garra que após perder o marido, o negócio e o filho se dedica a criar o neto que, à deriva nos seus problemas, demora a perceber as dificuldades daquela que tem sido o seu porto seguro. Até que os papéis se invertem e o neto tem de enfrentar a perda de capacidades da avó. Numa escrita fluída e com momentos de grande ternura e lirismo, o primeiro romance de Mário Rufino leva-nos à reflexão sobre o sentido da vida.
Um 4.5. Gostei muito. Um hino à memória e ao esquecimento. Sentimentos de perda e crescimento em simultâneo. A ler, principalmente por quem acha que vai ser eterno
visceral. duro. a minha experiência é bastante diferente na forma mas com muitos pontos comuns, especialmente a nível dos sentimentos. grande estreia do Mário Rufino.
O romance de estreia de Mário Rufino é tocante e extremamente profundo. A importância dos laços familiares, a forma como a avó se dedica ao neto e posteriormente o tratamento que o neto dá a avó marcam a história e a narrativa até ao final do livro.
O abandono na infância e a doença de Alzheimer na velhice são ponto chave para este Cadente. O neto, abandonado pela mãe que prefere uma vida fácil em detrimento de cuidar o filho, faz com que este passe a estar sob a alçada da avó. A convivência não é fácil. Cuidar de um adolescente cheio de raiva e curiosidade pelas coisas perigosas da vida, fazem com que esta mulher sofrida leve ainda uma vida mais agitada.
Viúva desde muito cedo e com contas para pagar esta mulher sente-se obrigada a trabalhar no duro para cuidar da família, até que vem a doença que muda radicalmente a vida dos dois. Como é que uma doença pode salvar?
A dedicação que o neto tem para a avó que lhe deu tudo o que podia é enternecedora. O esquecimento de tudo, vai fazer com que o neto viva de memórias passadas para conseguir lembrar-se delas futuramente. Um romance magistral.
“Caminhei sozinho para a saída, parei para ver as crianças a brincar no infantário. Tão leves e tão ignorantes sobre o que as espera, serão amansadas e domesticadas pelos caprichos de um destino sabe-se lá moldado por quem. Que se mantenham cândidas, não tenham pressa em crescer.”
"Deixou o chão da sua casa, os passos sem necessidade de luz a desvendar os caminhos repetidos de cor. Foi subindo de manhã para o dia inteiro até ficar para passar a noite. Subindo como o Sol sobe e se põe. Anoiteceu até não sobrar réstia de luz. Foi ficando, e a sua casa sem alma, sem respiração, acumulando pó em cima da cristaleira. (…) A cristaleira foi marcada com o meu indicador. Deixei um caminho a rasgar o pó. Mas deveriam ser os seus dedos, deveria ser ela a continuar a marcar a batida do coração da sua casa." Pág. 196
Um livro que retrata abandonos.
Um homem abandona a mãe, a mãe do seu filho e o próprio; este mais tarde vê também a mãe subtraída da sua vida. Um neto a quem lhe resta uma avó que é atraiçoada na velhice com mais um abandono, a sua identidade.
Uma avó que soube amar um neto, que não se sabe amar a si mesmo.
"Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência, ainda que eu tenha tão grande fé que transporte montanhas, se não tiver amor, nada sou. O que fica agora é: fé esperança, amor, estas três coisas. Mas, destas, a maior é o amor." Pág. 82
Uma relação feita de silêncios e de mágoas profundas. E de amor. Evidente? Enviesado? Subtil? Presente, sem sombra de dúvida. Na fatalidade da doença insidiosa que resgata a avó deixando apenas o invólucro, o neto entra numa espiral de receios e de egoísmos, de medo e de redenção. Nunca deixou de se sentir menos estimado do que a idealização de um filho que nunca mais voltou.
"Teria de voltar à casa de partida e assumir o papel contrário, o papel de cuidador de uma criança riscada pelas rugas. O papel que não queria assumir." Pág. 124
"A cobardia e o egoísmo não me deixavam estar mais presente. Dizia que não podia parar, não podia perder o ordenado, mas era o medo de não me ver nos seus olhos." Pág. 145
"Não morras sozinha. Olha para mim, vê-te no meu rosto, sente as minhas mãos, preciso que saibas uma coisa: não tens de ir sozinha. Se não me reconheces, olha para dentro. Encontras o teu filho, o teu marido, a tua mãe. Não partas sem abraçares um deles, não partas sem sentires a minha mão na tua mão, os meus dedos no teu cabelo." Pág. 218
O livro de Mário Rufino é um livro de díficil leitura, é um murro no estomâgo, um dilacerar de dor no coração. Li este livro como se estivesse do outro lado do espelho, como se acompanhasse diáriamente esta viagem belíssima entre o neto e a avó. Um retrato dilacerante da doença de Alzheimer . Trilho armadilhado este percurso, que tantos de nós temos ou teremos de percorrer, o adiar o que não conseguimos mais segurar, entregar quem nos amou mais que ninguém numa instituição. Um livro corajoso e verdadeiro.
"Não morras sozinha. Olha para mim, vê-te no meu rosto, sente as minhas mãos, preciso que saibas uma coisa, não tens de ir sozinha. Se não me reconheces, olha para dentro. Encontras o teu filho,o teu marido, a tua mãe. Não partas sem abraçares um deles, não partas sem sentir a minha mão na tua mão, os meus dedos no teu cabelo."
Deixava-me estar na cadeira junto à cama a ouvir a respiração. Inspirava e expirava como uma brisa a afastar-se. Via os seus olhos vagos a despedirem-se da luz. Foram fechando devagarinho, foram esquecendo que era preciso manterem-se abertos para o coração continuar a bater.
O corpo desistiu de se levantar e num sopro esqueceu-se de si próprio "Cadente" pág 218 Mário Rufino
É livro que conta uma história comovente e triste, com uma trajectória de queda, impregnada de sofrimento, esquecimento e culpa. Revela a perda progressiva de memória, desencadeada por um processo degenerativo provocado pela doença de Alzheimer. O autor descreve de forma exímia, inúmeras situações que demonstram o quão vulneráveis somos, quando nos encontramos numa ambiguidade de vazios e carências que não conseguimos contextualizar. Revela a nossa inaptidão para dar um sentido à existência e o quão perdidos podemos estar, quando insistimos em mergulhar numa espécie de dormência, que nos deixa alheios e nos inibe de pensar. É um livro que nos faz refletir, sobre o constante confronto que sentimos em relação aos outros e, sobretudo, acerca de nós próprios. É uma narrativa que sublinha de forma comovente a importância dos laços familiares e da família, porque são, de facto, eles que nos acendem os afetos e nos ligam uns aos outros. Somos feitos de histórias de memórias. Em suma, é uma história que me comoveu, que me tocou, à qual não consegui ficar indiferente, porque é mais o que nos une, do que o que nos separa e há sempre algo do outro lado, que nos liga uns aos outros. Gostei muito!
O livro que me fez repensar a forma como devemos viver cada dia com as pessoas que amamos e construir memórias. Adorei cada história, cada momento, com uma escrita que me empurrou para a o dia a dia daquelas pessoas, sentindo as emoções, tristezas e angústias da perda, no sua mais amplo sentido. Perder quando fisicamente se tem. Mas terminei a leitura com o sentimento de que o amor, mesmo na ignorância do seu conhecimento, é o sentimento que no fim vai sempre perdurar e que nos faz, conscientemente, sofrer, rir ... SENTIR.
O Romance de Mário Rufino é tocante e profundamente comovente. O autor habilmente tece uma narrativa que não apenas ilustra os efeitos devastadores da doença de Alzheimer, mas também mergulha nas relações que são moldadas e testadas durante este processo.
Cadente é um livro que recomendo pela homenagem brilhante e tocante à resiliência do espírito humano e à força dos laços familiares.
“Somos memória, e sem memória não passamos de uma bolsa de entranhas, cartilagens e ossos”.
E se, sem memória já quase tudo se foi, indo-se o resto ficam somente as nossas memórias, as nossas histórias. Um livro que dói mas que ao mesmo tempo nos sossega por sabermos que partilhamos com outro os nossos sentimentos, vergonhas e medos.
Nem sei que escrever... Trouxe-me memórias da minha avó materna. Não foi num lar mas em casa dos pais. Mas os sintomas foram os mesmos. Na força da vida foi sempre uma senhora dócil e bondosa, que toda a gente apreciava. Na doença degenerativa que a foi apagando... foi o mesmo. Gostei do livro. Aguardo o próximo do autor. Este fica gravado nas memórias e com "memórias"!
Um livro escrito de maneira genial sobre o processo de perda de um familiar ainda antes de morrer. Uma história que descreve de forma crua e intensa os episódios de confusão, os esquecimentos, o stress causado no doente, a dor de ver desaparecer de dentro do corpo a pessoa que amamos. Gostei muito deste primeiro romance do Mário Rufino.
Este pequeno livro desperta muitas emoções no leitor, nem sempre muito boas. Um relato muito cru sobre a relação entre um neto e a sua avó. Confesso que achei a escrita por vocês confusa, nem sempre entendia o que o escritor queria dizer. Ainda assim gostei da leitura… toca-nos profundamente, mesmo que não tenhamos contatado diretamente com a doença nele espelhada.
Se há doença que tenho mais medo, será a da minha mente não ter mais consciência da vida, ver-me reduzida a um invólucro, estar praticamente morta sem estar. Tenho medo da demência ou Alzheimer tome conta da minha vida, ser um peso para outros, provoque dor para quem vê uma vida a definhar-se.