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Três camadas de noite

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Neste tão aguardado retorno ao romance, a escritora, jornalista e tradutora Vanessa Barbara se debruça sobre escrita, depressão, maternidade e mitologia grega para criar uma narrativa híbrida, na qual se intercalam passagens autobiográficas com investigações acerca de escritores que, assim como ela, sofreram de depressão. Sylvia Plath, Clarice Lispector, Henry James e Franz Kafka entram em cena para mostrar continuidades e particularidades da relação entre o abatimento e o fazer literário, apesar das diferenças de época, gênero e classe social. Enquanto acompanhamos o puerpério da narradora ― tradutora freelancer que pesquisa mitologia grega para um projeto autoral ― assistimos desde a quebra de expectativa com a experiência do aleitamento até a espiral depressiva da privação do sono. O crescimento do bebê ao longo de dois anos, e o estreitamento dos laços entre mãe e filho, são descritos entre mitos gregos e detalhes anedóticos que Barbara usa a serviço do bom humor do texto. Em uma constante mistura de registros, Três camadas de noite é uma leitura original entre aquelas que tratam de maternidade e saúde mental. Com acidez e sagacidade características, a autora trata de temas tão antigos quanto as intrigas do monte Olimpo e, ainda assim, mais urgentes que nunca.

216 pages, Paperback

First published May 6, 2024

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About the author

Vanessa Barbara

25 books80 followers
Vanessa Barbara is a Brazilian journalist and author. She writes for the magazine Piauí and the newspaper Folha de S. Paulo. Her articles are also featured in the International New York Times.

Barbara won the 2009 Jabuti Prize in Journalism for her work O Livro Amarelo do Terminal, about the Tietê Bus Terminal. She was shortlisted for the São Paulo Prize for Literature in 2008 for her debut book O Verão do Chibo. She was also listed by Granta among the Best of Young Brazilian Novelists in 2012.

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Displaying 1 - 25 of 25 reviews
Profile Image for Adriana Scarpin.
1,739 reviews
September 25, 2024
Essa pequena obra-prima da Vanessa Barbara é uma espécie de livro curinga da autora. Explico: é de fácil identificação por seus leitores, sejam eles de profissões artísticas, pais ou mães, ou que se digladiam pela saúde mental a vida inteira, é difícil não se identificar em algum nível com ele.
Quem acompanha a Vanessa Barbara há algum tempo sabe da sua luta contra a depressão crônica e acho que aqui ela desenvolveu seus demônios quanto a isso de forma tão brilhante mesclando a história de vida de escritores que sofriam da mesma coisa (irmãos James, Kafka, Plath, Lispector), sua experiência de ser mãe (a identidade do bebê é preservada, o que achei ótimo, já que vira um personagem da Ilíada) e vinhetas costurando tudo sobre mitologia grega.
Três camadas de noite é um livro sensacional em várias instâncias, mas o modo que discorre sobre saúde mental é um alento para quem também sofre de depressão crônica como eu.
Profile Image for Andre Aguiar.
478 reviews118 followers
Read
May 22, 2024
Cada qual à sua maneira, escritores depressivos tentam improvisar artifícios para se manter de pé: natação, horticultura, internações em SPA, tampões de ouvido. Ainda assim, permanecer vivo é um tremendo esforço.
Profile Image for Barbara Maidel.
109 reviews44 followers
February 24, 2025
NOITE, MAIS NOITE, AINDA MAIS NOITE

Vanessa Barbara é uma dessas escritoras que encontraram no “feminismo” um colchão pras suas insatisfações: se não é reconhecida como gênio da palavra e não consegue viver apenas das suas histórias — se precisa traduzir, aceitar encomendas, dar palestras pra idosas que rabiscam falsas memórias em caderninhos —, então é porque O Patriarcado impede que voe. No país onde mesmo a maioria do público leitor é uma porcaria e onde até bons escritores são esquecidos — Machado de Assis segue espadaúdo porque virou grife —, Vanessa preferiu não culpar a incultura geral pelo fracasso das suas altas expectativas: há anos vem denunciando a tramoia dos homens que maltratam as pobres mulheres. Valerie Solanas sorri enquanto pule seu revólver.

Já pretendia ler este Três camadas de noite, mas antecipei a leitura depois do escândalo causado pelo episódio “CPF na nota?”, da Rádio Novelo, onde Vanessa narrou uma história de traição que viveu há mais de uma década: ela era casada com André Conti, foi traída, teve a traição exposta num grupo de e-mails do qual o marido participava com amigos do ramo literário, supostamente sofreu abuso psicológico. Quando procurei o outro lado da história, encontrei apenas um parágrafo de Conti pedindo desculpas, sem contestar nada do que Vanessa tinha narrado. Presumi que não havia ficção no que lera (preferi ler a transcrição do episódio a ouvir o podcast).

Mas a atual esposa de Conti não foi se encolher com ele numa caixa de sapatos embaixo da cama: veio a público, no seu Substack, zombar das sobrancelhas de Vanessa, do rosto do atual marido de Vanessa, do gosto de Vanessa por tartarugas, dos amigos do vôlei de Vanessa, do fato de Vanessa ter dificuldade pra vender livros. No meio desse surto fútil, todavia, Natércia Pontes trouxe algum contexto: “a maior vítima do Mandaqui” — palavras dela — às vezes mandava e-mails pro seu abusador, e seis meses antes do desabafo na Rádio Novelo tinha pedido pra que Conti ajudasse a divulgar seu último livro, coisa que ele não fez.

Muitas conclusões podem ser tiradas dessa história, mas destaco esta: há abusos (ou “abusos”) tão negociáveis que as mulheres só vão divulgá-los — ou divulgá-los novamente, num Zeitgeist mais justiceiro — como forma de vingança porque não tiveram suas necessidades materiais atendidas “depois de tudo que eu passei com você”. Pra ver como até “feministas” ainda enxergam o homem como provedor. Se o ex-marido de Vanessa tivesse aceitado divulgar o último livro dela, provavelmente não existiria o episódio do podcast, nem Conti estaria na geladeira por no mínimo um mês na editora que ajudou a fundar — editora esta que veio mijar discursos sobre equidade nos nossos olhos e orelhas. Um homem se nega a prestar favores pra compensar seu mau comportamento e isso muda a vida de tanta gente.

*

Ao livro. São quatro capítulos, cada um com os mesmos três eixos: 1) o desenvolvimento do bebê Heitor, 2) a depressão da escritora e tradutora não nomeada que protagoniza e narra a trama e vive com frio, 3) a história de deprimidos célebres (Sylvia Plath, Clarice Lispector, os irmãos Henry e Alice James, Kafka — nesta ordem). Mudados alguns pontos aqui e ali, é autoficção: Vanessa sofre duma depressão resistente, teve uma filhinha, e há cenas em Três camadas de noite que são muito semelhantes a descrições reais feitas no seu blog A Hortaliça, como a instalação dum telescópio na sacada que é também aproveitado pra espiar a feira de verduras do bairro.

Alguns leitores podem gostar duns eixos e não doutros: quem veio ao livro em busca de sintonia & teoria pras suas camadas de noite pode ficar entediado com a lista de novas palavras, o relatório fraldário e as estripulias de Heitor; quem se interessa pela depressão de escritores perenizados pela elite cultural não necessariamente se interessará pelo vazio da personagem principal. Há algo de arriscado aqui — o risco maior é detalhar a vida de Heitor pra quem nunca teve que acompanhar a evolução dum bebê querido —, mas tirando umas gracinhas sorriso-amarelo e os momentos de linguajar pra-gostar-de-ler:-oitavo-ano, tão habituais nos textos de Vanessa, o resultado é positivo.

Separei nesses eixos algumas passagens do livro:

EIXO HEITOR

Não está muito claro por que Heitor foi gerado, especialmente depois da protagonista ter lido tanto sobre depressões que são transmitidas por hereditariedade. Talvez ela tenha preferido acreditar naqueles que asseguraram que um bebê resolveria muitos dos seus problemas, e talvez pensou que Heitor teria sorte na loteria genética.

[…] a decisão não chegou a ser propriamente tomada. Aconteceu muito rápido. A sombra de um traço vermelho no teste de gravidez foi ganhando forma e batimento cardíaco nos ultrassons, inflando de maneira constante e esboçando dedos, unhas, cabelo. “Silêncio! Estou ocupada fabricando uma córnea”, eu dizia, deitada no sofá.


Mas ele nasce e cansa — o recém-nascido era “um bebê zangado que passava boa parte do tempo aos berros” —, tanto que o seu sossego está entre os “momentos de luz” da mãe, uma escritora interessada por mitologia grega:

Um dia em que ele cochilou ao meu lado na cama, eu liguei o abajur e fiquei lendo um livro. Assim que ele acordou, contei a lenda grega de Damão e Pítias, dois amigos que gostavam de Pitágoras.


São meses de viver pro bebê: quando os pais só vivem pra si mesmos na medida necessária pra dar o que o filho precisa. A mãe está sempre exausta, precisa dar de mamar o tempo todo — tendo dificuldade pra produzir leite —, dorme mal:

Hoje sei que uma lactante deprimida e em estado de severa privação de sono não conseguiria ordenhar muita coisa além de lágrimas. Eu passava trinta minutos em cada peito e tirava, no máximo, sessenta mililitros — e apenas quando estava sob efeito de medicamentos. Num dia desses, atrapalhada de sono, derrubei sem querer meio frasco de leite materno no chão e chorei como se a casa inteira tivesse pegado fogo.


Esta não é a experiência de todas as mães modernas, mas é uma experiência realista, e acredito que muitas mulheres deveriam aproveitá-la pra não romantizar a maternidade — principalmente se você não tiver familiares pr’ajudar, se não puder pagar empregados e se sofrer de depressão severa.

Vários “diários de campo” permeiam o livro. Alguns são… não vou dizer dispensáveis — porque o nonsense e a chatice do bebê também fazem parte da história —, mas relatos onde só os pais veem valor. Já outros fisgam:

DIÁRIO DE CAMPO

“Hoje é dia de fazer cocô na banheira, de mamar até cair, de dar P.T. no macacão de coelhinho, da fazer pum fedido e arroto cavernoso, hoje é dia de maldade. Hoje é sexta-feira. Dia de acordar no susto com um cocô bem súbito, de arranhar o próprio olho, de enfiar o dedo no nariz dos outros, de sujar três fraldas na sequência só de zoeira. Dia de sujar o pé de cocô e depois chutar a cara do pai. É dia de mamar a luva e espirrar para cima. Hoje é dia de fazer pum com som de cornetinha, de cuspir leite na cadeirinha vibratória, fazer xixi na cara da pediatra e murchar os peitos da mãe até pegar soluço. Hoje é sexta-feira. Dia de maldade.”


A linguagem transforma Heitor de “bolinho de carne” em sujeito com opiniões, o que o torna mais carismático pra nós e proporciona melhores instantes pra sua mãe:

O advento da palavra falada causou uma tremenda revolução no nosso dia a dia. Agora o ônibus podia demorar a chegar, já que assunto não faltava para nos entreter durante a espera.


Dentre as tiradas do bebê estão as da sua faceta poética, donde a mãe passa a catar exemplos como “o vento mordeu o menininho”, “eu estava de olho perdido” (quando tinha se distraído) e “o leite fez arroto em mim”. É bonita essa transição de quem só come, defeca, grita, dorme e baba prum animal político. A protagonista, embora depressiva e às vezes arrastada pela fadiga — um dos seus azares foi aprender a ser mãe numa pandemia —, zela pelo filho e toma nota desses encantos que o fazem singular: quando ele acorda no meio da noite e grita “¡viva o pepino!”, quando diz que gosta do “O” porque é uma letra que está sempre espantada, quando afirma “tem que crescer pra saber falar amarelo”, quando diz ao despertar “acordou o amorzinho”, quando tenta consolá-la nas crises:

Nos momentos mais agudos, eu chorava muito e o Heitor ficava impressionado. Tentava tomar alguma providência. Atravessava a sala correndo para segurar a minha mão, fazer carinho no meu braço ou me dar uma florzinha de plástico. Contava a única piada que sabia: a do elefante que passava por baixo da porta dentro de um envelope. Corria até o meu quarto e pegava da gaveta uma meia de lã bem grossa. “Não precisa chorar se você tem um balão”, ele me ofereceu outro dia. Era uma bexiga amarela com o rosto dele desenhado com canetinha.
[…]
“Eu também quero ser escritor que nem a mamãe”, ele decidiu naquele dia na biblioteca, devolvendo à estante um exemplar de O grande rabanete. “Só que eu não vou chorar.”


Uma boa criança, parece. Espero que seja feliz.

*

EIXO A DEPRESSÃO DA PROTAGONISTA

Nada me afetava tanto quanto um dia nublado.


A Mulher Sem Nome tem problemas pra dormir — e troca o dia pela noite —, chora por pequenos motivos e aparentemente já tentou de tudo pra combater a depressão que a atormenta. Desagrados do cotidiano que são enfrentados por pessoas comuns com estoicismo e senso de proporcionalidade podem se transformar em tragédia na sua cabeça:

Eu tentava explicar as razões circunstanciais de uma determinada crise: por exemplo, não estava conseguindo concluir um texto e me julgava incapaz. Ou: não tinha tempo para lavar o cabelo e perdi o bilhete do ônibus. Ou: passei a última quinzena resfriada e só encontrei batata para o jantar. Quase sempre eu havia acordado cedo por dois dias seguidos, não tinha nenhum controle das emoções e precisava dormir.


É pra se ter misericórdia, mas imagine o estrago que o “feminismo” não faz numa mentalidade que já tende a catastrofizar as coisas. A gente acompanha a miséria desse alter ego de Vanessa Barbara e lembra de The coddling of the american mind, livro que trata o identitarismo como uma forma de antiterapia.

Esse demônio do dia inteiro também parece prejudicar uma assunção necessária quando alguém está no papel de mãe: a autoridade. Não me lembro de em nenhuma parte do livro a mãe assumir a função de quem manda perante a criança. Embora sua fraqueza mental explique a falta de garra, a falta de garra também explica parte da dificuldade com o guri: sem ordem e regras estabelecidas, ele consome tanto o tempo e as energias da mãe — e bagunça tanto a casa — que a creche se torna um alívio. Lá, nas creches, são só duas professoras pra cuidar às vezes de 10 a 16 crianças. E elas dão conta, graças à autoridade e à rotina.

A protagonista ama seu filho — não recusa cuidados, o menino se sente um “amorzinho” na casa, por enquanto ele nem suspeita que sua mãe às vezes o vê como um empecilho —, mas remói a vidinha que pensa levar, e tem devaneios de Madame Bovary — outra escrava das vontades. Uma das lamentações surge quando a personagem faz um dos seus passatempos preferidos durante o confinamento: “procurar na internet vídeos que os hóspedes faziam em hotéis chiques ao redor do mundo”:

Nessas horas, pensava que algo havia saído dos trilhos, em algum momento, mas não sabia dizer quando e o que foi. Eu, que já havia sido convidada a participar de conferências em universidades pelo mundo, publicara três livros premiados e vários artigos em revistas internacionais — eu, que traduzia do grego e sabia os nomes de todas as filhas de Zeus com Mnemósine — agora passava dias inteiros sem pisar fora de casa, rodeada de patinhos de banho com o miolo mofado. Minha grande realização artística e intelectual era cantar “Alecrim Zoiúdo” e imaginar rimas bobas com a metrificação adequada.


Há vários trechos em que a Mulher Sem Nome descreve sua depressão:

Minha depressão é unipolar, o que significa que, ao contrário de outros poetas e escritores, nunca tive períodos de mania alternados com os episódios de desalento. Para essas pessoas, as fases de baixa energia podem ser circunscritas, delimitadas no tempo, e cedem o espaço a fases mais eufóricas. Confesso que já cheguei a pensar que a bipolaridade seria artisticamente “preferível”; o fato de esse pensamento ter passado pela minha cabeça me envergonha muito. Sei que a mania é uma fase devastadora e desorganizadora, permeada por um sofrimento que eu seria incapaz de mensurar.

Em todo caso, escrevo sobre o que sei, e, para os unipolares como eu, a sensação é a de andar com duas bigornas presas aos pés. O tempo todo. O esforço é gigantesco, e ainda assim mal consigo sair do lugar. Na maior parte dos dias, a impressão que se tem de fora é que estou apenas de pé, parada no lugar, porém mexendo vertiginosamente os braços.
(E agora, com um desses braços, eu tinha de segurar um bebê.)


Leio isso e parece que sinto o astral baixando um pouco também: talvez uma forma involuntária de empatia pela mulher do livro que me faz companhia sem saber. O mais assustador na depressão de Vanessa e de sua personagem-irmã — que tem um filho em vez duma filha e que traduz grego em vez de inglês — é o constante choro, a exaustão causada por suas bigornas metafóricas e esse jeito de pessoa enlutada que não tira as vestes negras, embora consiga grampear um pisca-pisca de humor nos seus infortúnios e às vezes nos envie baldes de água do fundo do poço — como quando explica a Heitor que a bula “é o livrinho do remédio”. Momentos de luz.

*

EIXO ESCRITORES COM DEPRESSÃO

Sylvia Plath se matou “no inverno mais frio do século na Inglaterra”. É a primeira das deprimidas célebres retratadas em Três camadas de noite, e por limite de caracteres vou priorizá-la. A protagonista sente pelas frustrações dela:

O que me dá mais pena é que ela tentou. Em outubro de 1962, abandonada pelo marido com dois filhos pequenos em uma casa na zona rural da Inglaterra, uma poeta com histórico de suicídio declarou a um amigo: “Estou me divorciando, e você tem razão: é libertador. Estou escrevendo pela primeira vez em anos, um eu real, há muito abafado. Saio da cama às quatro da manhã; quando acordo, está tudo escuro, e escrevo até os bebês acordarem. É como escrever em um túnel de trem, ou dentro do intestino de Deus”.


Não há dúvida de que Vanessa se identifica com Sylvia Plath por outros motivos além da depressão. A respeito de ter sido traída e abandonada pelo marido, Ted Hughes, agora apaixonado por outra poeta, diz Plath, sem saber que sintonizava uma mandaquiense enganada por um homem-moleque no século 21:

“Todas as minhas perspectivas estão bloqueadas por uma vista enorme dos corpos dos dois entrelaçados, apaixonados, ele escrevendo poemas imortais para ela. E todas as pessoas do nosso círculo estão com eles, do lado deles. […] [É difícil] encarar um domínio profissional de bisbilhotices no qual os melhores amigos do meu marido são meus empregadores, todos sabem que ele me abandonou, por quem e em que condições.”


Plath também oscilou. Quando recebia ampla aceitação externa, melhorava; quando se sentia depreciada — esperando um sucesso comercial que não vinha ou recebendo cartas de rejeição da New Yorker pros seus poemas —, caía. ¿Quantas depressões não são causadas ou aprofundadas por expectativas muito altas? Disse Isócrates: “Lembra-te: nada é estável nas coisas humanas. Evita, pois, tanto a euforia na prosperidade quanto a depressão na adversidade”. Mas nem um dos melhores conselhos de vida já dados pode com a força de certas noites.

Quando estava tão mal que o médico que a tratava decidiu interná-la numa clínica psiquiátrica, Plath se matou. Não deu tempo pra que a enfermeira viesse ajudá-la com seus filhos antes da internação: deixou “duas mamadeiras de leite e pão com manteiga no quarto das crianças, que estavam dormindo”, ligou o gás e enfiou a cabeça no forno.

*

Por último, é uma pena que já ao final do livro tenhamos que deparar com uma feministice dramática como esta:

As viagens eram o artifício de preferência da privilegiada família James — o que não significa que eles tiveram uma vida livre de depressão. Henry guardava segredos sobre sua sexualidade e sofreu de solidão, enquanto Alice foi quase esmagada em vida por ser uma mulher livre, criativa e potente. Quase todos os irmãos James herdaram a doença e a manifestaram em graus dos mais severos.


Mesmo se fiando apenas na janela da vida de Alice James editada por Vanessa, o leitor verá que ela não foi quase esmagada em vida: nos 1800, viajava, teve uma companheira, participava de eventos — uma liberdade que muitas mulheres não tinham nem na segunda metade do século 20, e não só porque eram do sexo feminino, mas porque eram pobres.

No que diz respeito às insatisfações com a própria potencialidade esmagada pel’O Patriarcado, Vanessa deveria pensar quais das suas lamúrias são justas e quais são apenas as lamúrias dalguém que trata como “misoginia” uma escritora não viver da escrita — sendo que o contexto é um país burro que esmaga autores diversos. Também deveria parar de projetar sua paranoia noutras mulheres visando cooptá-las pra esse buraco do ressentimento hiperbólico. Estamos em 2025 no Ocidente, não estamos na Idade Média do Oriente Médio.

*

Três camadas de noite — sua autora se gaba de apenas nomes femininos aparecerem na página de copyright — é um bom livro; li até o fim com vontade. Apesar do título se referir à noite densa da depressão, a expressão veio deste pedaço de mito, narrado pro bebê Heitor:

“Em volta do Tártaro [a personificação do mundo inferior; o filho ou o irmão do Caos], havia uma cerca de bronze e um colar com três camadas de noite. Um rio de fogo corria em seu interior.”


Espero que Vanessa Barbara continue escrevendo, e que coloque em prática sua ideia de criar um livro sobre notívagos — desejo que declarou a uma revista portuguesa. Enquanto a femista que ela é não contaminar demais sua literatura com delírios que pisoteiam a qualidade, valerá a pena lê-la.
Profile Image for Bicho da Galáxia.
249 reviews231 followers
April 26, 2025
Sabem aqueles livros que se começam a ler meio às cegas, sem grandes expectativas, e, de repente, estamos completamente agarrados? Foi exactamente isso que me aconteceu assim que comecei este livro, detentor de um estilo muito prórpio, que mistura humor ácido, paranóia e um toque de melancolia urbana que me apanhou desprevenida. No fundo, é um belo exemplo de literatura híbrida, uma ficção abraçada a uma reflexão autobiográfica.

Do Monte Olimpo ao inglório estatuto de sermos mulheres, esta é uma reflexão profunda, com relatos de depressão e puerpério, onde Vanessa Barbara chega mesmo a referir personalidades que também sofreram de depressão crónica, como Kafka, Silvia Plath e Clarice Lispector - tendo ficado com imensa vontade de me entregar à obra de Lispector!

Não é uma leitura conveniconal, nem tenta ser. Mas, se gostam de livros com personalidade, com um toque de excentricidade mordaz e temas surpreendentemente sensíveis, Três Camadas de Noite tem a narrativa ideal.
Alienado, triste, humorístico, memorável - assim se resume este texto que todos deveriam ler.

Antes de iniciar a leitura, fui ouvir o episódio “CPF na nota?” do podcast Rádio Novelo, onde Vanessa Barbara narra a história de uma traição que vivenciou. Foi um complemento indireto muito bem-vindo!
Profile Image for Andrea Nunes.
79 reviews3 followers
January 20, 2025
Comecei amando o livro. Identifiquei muito a minha história com a da autora. Me comovi ao ler sobre sua depressão e a dificuldade em lidar com ela. Também me comovi muito com a história de depressão de diversos autores, como Clarice Lispector, Sylvia Plath e Kafka. Mas os entremeios das histórias dessas personalidades, em algum momento do livro, começaram a ser histórias bonitinhas do filho da autora, o Heitor, que nada têm a ver com o tema, que não ajudam a autora a aprofundar sobre o mote principal, que é sua depressão ainda cansam. Sabe mãe que só fala do filho? Essa é a impressão que ficou. Foi um livro arrastado da metade para a frente, tanto que, para terminar, acabei pulando as historinhas do que o Heitor fez, o que falou, que palavra inventou, etc e me foquei nas narrativas paralelas dos demais autores.
Profile Image for Catarina Mourato.
312 reviews88 followers
March 1, 2025
não conhecia o livro nem a autora, neste caso, fui conquistada pela sinopse e que bom é quando assim acontece.

apesar de não ser mãe, sou tia babada de 2 crianças e tenho acompanhado muito de perto a maternidade vivida pela minha irmã, então ainda que não sendo mãe, temas como depressão pós-parto, acompanhar o crescimento de um pequeno ser, interessam-me imenso.

aliado a isto acompanhamos a própria depressão da autora, que nos vai contando momentos da sua vida após ser mãe, na altura covid, mas com um toque de humor, muito bem contado e escrito, não há como ficar indiferente e não é preciso passar pelas mesmas experiências exatas da autora, para não nos identificarmos com tantos pensamentos e sentimentos.

além disso, Vanessa Barbara faz algo neste livro que é alternar entre as suas vivências e investigação sobre autores que viveram toda a sua vida com depressão nos seus maiores variados espectros e que bem conseguido.
se já tinha vontade de conhecer a escrita da Clarice Lispector e de Sylvia Plath, agora depois desta leitura, subiram bem para o meu top de próximos a serem lidos.

fala também de Henry James, Franz Kafka e Natalia Ginzburg e além de ficar com imensa vontade de conhecer a obra de todos, senti-me ligadas a estas pessoas de uma maneira complicada de explicar.

a saúde mental, o mundo da mente, é assustador e inexplicável. eu encaixo-me neste grupo de pessoas, ainda que não seja fácil admitir, porque parecemos sempre mais frágeis e debilitados em relação aos outros, hoje em dia tenho vindo a aceitar esta minha faceta, que não está nestes níveis, mas claramente oscila e sem explicação, muitas vezes, esta coisa disforme, sem causa, chega, instala-se e tenho de me reerguer das cinzas, como a fénix, como eu gosto de dizer.

voltando ao livro, a autora também traz a mitologia grega para fazer certas analogias e sendo um tema do qual gosto, mas que não estou familiarizada, fiquei com muita vontade de adentrar nesse mundo.

recomendo bastante!
Profile Image for Manuela Stelzer.
33 reviews
July 15, 2024
livros que causam gargalhadas e ao mesmo tempo dão vontade de chorar :,)
Profile Image for Margarida.
90 reviews28 followers
January 20, 2025
"Em uma tarde de novembro, enquanto voltávamos de um passeio pelo quarteirão, Heitor se pôs a espernear porque queria banana. Naquele instante. Não era capaz de esperar mais nem um segundo. Expliquei que comeríamos quando chegássemos em casa, dali a cerca de três minutos, e ele continuou a berrar. Mantive o sangue-frio, cumprimentei os vizinhos — explicando que não era necessário chamar o Samu — e tentei argumentar com toda a energia que me restava. Agora aparentemente meu filho chorava porque as lágrimas estavam molhadas demais. Respirei fundo. Lembrei que Dalai Lama, em tibetano, significa “aquele que nunca cuidou de uma criança de dois anos”.
Profile Image for Andrea.
6 reviews1 follower
April 2, 2025
Parafraseando Marcelo Rubens Paiva, "terrivelmente bem escrito". Porém - aqui a minha opinião - um pouco entediante e repetitivo, possivelmente resultado de um cérebro em depressão. Deveria vir com um alerta de gatilho.

3.75 estrelas pelo texto impecável.
Profile Image for Fernanda Fujiki.
71 reviews1 follower
July 12, 2024
Não conhecia a autora e comprei o livro por indicacao de uma pessoa que trabalha com livros. Adorei o formato da escrita, mesclando narrativa pessoal e fatos sobre outros escritores, bem como uma pitada de mitologia grega. Apesar de narrar anos e temas de muito sofrimento, a autora da um tom leve e comico. Recomendo e acredito que muitas pessoas que convivem com parentalidade e maternagem vao gostar
Profile Image for Renan Simão.
23 reviews35 followers
September 11, 2024
Simpático, bem-humorado, cheio de informação sobre escritores entristecidos. Tudo isso não foi suficiente para me emocionar, mas impressionam o trabalho de pesquisa e o mergulho nos detalhes do relato ficcionalizado da vida com o filho e da convivência com a depressão. Se você tem ou quer ter filho, isso já te pega. Se não, basta abrir a janela da tristeza (que todos temos) para entrar nessa história profundamente feminina.
Profile Image for Lorenzo Nuncio.
68 reviews
December 27, 2025
Esse livro é híbrido entre a ficção e o ensaio é delicioso. Depressão e puerpério.
Profile Image for Carla Parreira .
2,056 reviews3 followers
Read
May 7, 2025
A protagonista, uma escritora e tradutora diagnosticada com depressão, enfrenta os desafios do pós-parto enquanto cuida de seu recém-nascido, lidando com a exaustão física e mental, privação de sono e incertezas. Durante as noites em claro, ela pesquisa a vida de escritores que também enfrentaram a depressão, como Virginia Woolf e Kafka, revelando como cada um buscou formas de lidar com seu sofrimento. A narrativa também inclui elementos de mitologia grega, que a protagonista compartilha com seu filho, Heitor, trazendo um alívio e um toque de humor à sua experiência. O livro é como um diário de campo que documenta o crescimento do bebê e as diferentes fases da maternidade, destacando as dificuldades da amamentação e a transformação da identidade da mãe, que muitas vezes se vê em segundo plano. Essa jornada é marcada por desafios, mas também por momentos de descoberta e conexão, enquanto a protagonista tenta equilibrar suas responsabilidades como mãe e escritora. A protagonista do livro enfrenta a realidade desafiadora da amamentação, um momento que se torna ainda mais complicado para aquelas que têm dificuldades nesse processo. A privação do sono, que é crucial para a saúde emocional, se torna um fator agravante, especialmente para quem já lida com a depressão. A autora destaca a importância do sono âncora, que deve ser contínuo e respeitar o ritmo circadiano, e como a falta dele pode intensificar a sensação de impotência durante o puerpério. Em busca de apoio, a protagonista se volta para a obra de escritores que também enfrentaram problemas de saúde mental, como Kafka e Virginia Woolf, encontrando consolo e inspiração em suas experiências. A narrativa é enriquecida por momentos de leveza, como as conversas sobre mitologia grega que a mãe compartilha com seu bebê, trazendo um toque de humor à sua jornada. A autora também menciona a pandemia, refletindo sobre como a preocupação em proteger os filhos pode ser ainda mais intensa em tempos de crise. Para as mães que já passaram por essa fase, a leitura provoca uma identificação profunda, enquanto para aqueles que ainda não são pais, especialmente homens, oferece uma visão rica e necessária sobre o adoecimento mental. A obra é descrita como uma leitura que, apesar de não evocar saudades da maternidade, proporciona um entendimento valioso sobre essa fase complexa da vida.
Profile Image for Vinicius Felix.
12 reviews2 followers
May 27, 2024
Natália Timerman escreve na orelha do livro que estamos diante de um relato "entre a ficção, o relato autobiográfico e a pesquisa minuciosa de outras histórias". "Três camadas da noite" é exatamente isso, mas vale um adendo: a autoficção de Vanessa não é essa que ficou gasta no Brasil, praticada em excesso por homens, héteros, cis e brancos. Em geral, esses relatos usam a ficção para enfraquecer a realidade - geralmente por falta de talento, enfim. Vanessa vai pelo caminho oposto - sua experiência como mãe vem acompanhada de todos os detalhes mais proibidos, autocensurados pela maioria das mães. A parte ficcional parece cuidar dos detalhes menos importantes, que na ironia de Vanessa se transformam em um espaço para rirmos e chorarmos com essa mãe pelas madrugadas. Todos nós, juntos, afundando os pés na neve.
Profile Image for Julia Landgraf.
157 reviews83 followers
May 14, 2025
Me parece que as leitoras desse livro costumam ter um dos dois interesses: depressão, ou maternidade e puerpério. Em qualquer grupo que tu estiver, as partes do livro que retratam o outro tema podem se tornar enfadonhas.

Foi meu caso com os recortes do livro que tratam da vida de outros escritores que sofreram com depressão ao longo da vida. Me pareceram trechos desconectados, que principalmente na metade final do livro, já não agregavam nada à história (diferentemente dos trechos iniciais, que traziam autoras mulheres lidando com a depressão no puerpério).

Ainda assim, o livro como um todo é muito bom de ler. É fácil se conectar com os desafios da autora, por mais distantes que sejam das minhas vivências (tanto em termos de saúde mental quanto de maternidade), e é lindo acompanhar o desabrochar da relação dela com o filho, que vai se construindo junto aos percalços.
Profile Image for Pedro Alban.
10 reviews
May 30, 2024
Pode ser que eu aumente essa nota em algum momento,

O livro é genuinamente intessante, não só pelos grandes insights do minipersonagem heitor, mas pela costura entre a história pessoal da personagem central e as diversas histórias de escritores depressivos. Ainda assim, tendo lido Verdade Tropical (caetano) recentemente, me incomodou o corte entre os diversos modelos de escrita do livro - tendo como pior momento o final, uma conclusão do tipo resumo digna de redação do enem.

A inserção do humor (as vezes muito bom) também é mais desconcertada nesse livro do que no livro amarelo do terminal, que eu amo de coração.
Profile Image for Bárbara Hernandes.
99 reviews10 followers
July 19, 2024
A mistura de estilos de escrita é uma ótima sacada pra prender a atenção do espectador (e certamente prendeu a minha!). Mas mais do que isso: os relatos sobre depressão e maternidade me atingiram em cheio no meu momento de vida pessoal (puerpério e depressão pós parto). No entanto, o livro também traz muitos momentos bem humorados que me fizeram rir e sorrir. Excelente leitura!
Profile Image for Healthy Dose of Self-Destruction.
496 reviews3 followers
March 6, 2025
★★★★★★✩✩✩✩
6/10 Um pouco bom
Concordo com (e recomendo) a resenha feita pela Barbara Maidel, incluindo-me entre os leitores que acharam enfastiantes os trechos que perscrutam os balbucios, diversões, birras e excrementos do bebê Heitor.
Profile Image for Libene Fernandes.
136 reviews1 follower
October 5, 2025
“Quando eu morrer, por favor, não pense em mim apenas como uma criatura que poderia ter sido outra coisa, caso a ciência das neuroses já tivesse nascido. A despeito da pobreza de minha experiência externa, eu sempre tive importância para mim.”
Profile Image for Thales.
12 reviews
January 8, 2025
O livro começa muito interessante, apresentando a psicologia da narradora e reflexões acerca de sua própria depressão, sobre maternidade e sobre o papel da mulher. No entanto, um pouco depois do começo, o livro passa a ser como quando um colega de trabalho seu tem um filho e toda conversa com ele apartir disso passa a ser monotematica:
Acabam-se quaisquer visitas ao interior da narradora, acaba-se o aspecto cru e honesto acerca da maternidade, acaba-se a ideia construída no início do livro.
Surgem então as mil e uma peripécias do menino Heitor. E é isso. "Heitor aprendeu a falar X", "Heitor desenhou Y", "olha que engraçado o que o Heitor fez".
Num geral, isso não foi necessariamente ruim - funcionaria muito bem em uma coluna em uma revista, para descontrair.
O problema é que o livro é inteiro costurado com as histórias de diversos autores e suas relações com a depressão. Então, constantemente, a seriedade e a melancolia de suas histórias é quebrada para dar lugar a mais um relato engraçadinho e casual sobre Heitor; e tudo isso com um humor muitas vezes fraco e descomprometido, recheado de ironias insonsas, e uma descontração irritante, de quem tem medo de assumir o risco de falar sério. Sendo sincero, eu me diverti nas primeiras vezes, mas passou a ser tão repetitivo e que não vai a lugar nenhum, que virou um trabalho árduo terminar o livro.
O ensaio sobre os autores, sinceramente, foi o que me segurou ao livro. Me emocionei e me engajei ativamente com em suas histórias, e gostei muito da maneira que a autora as contou. Até por isso, quando eram quebradas em um ponto particularmente emocionante, para alguma anedota sobre peripécias de criança era extremamente frustrante.

Além disso, talvez por culpa minhas, mas fui incapaz de identificar qualquer paralelismo ou simbolismo que explicasse essa costura entre essas histórias e os relatos da narradora, excetuando-se o começo do livro. Eu sabia que havia (ou deveria haver) esse paralelismo pois a autora dizia existir, mas só.
Acontece que o tema da depressão parece ter sido tão jogado de escanteio, que não se mostrava nem que eu procurasse muito.
Profile Image for Miki Matsuda.
2 reviews
June 26, 2025
Esse foi bem arrastado mas foi. Descobri que claramente não quero ler histórias sobre maternidade por um tempo.
58 reviews
June 21, 2025
relatos de uma mãe puérpera e deprimida na pandemia com história de grandes escritores. Mais interessante foi descobrir que Clarisse Linspector era mto doida
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