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216 pages, Paperback
First published May 6, 2024
[…] a decisão não chegou a ser propriamente tomada. Aconteceu muito rápido. A sombra de um traço vermelho no teste de gravidez foi ganhando forma e batimento cardíaco nos ultrassons, inflando de maneira constante e esboçando dedos, unhas, cabelo. “Silêncio! Estou ocupada fabricando uma córnea”, eu dizia, deitada no sofá.
Um dia em que ele cochilou ao meu lado na cama, eu liguei o abajur e fiquei lendo um livro. Assim que ele acordou, contei a lenda grega de Damão e Pítias, dois amigos que gostavam de Pitágoras.
Hoje sei que uma lactante deprimida e em estado de severa privação de sono não conseguiria ordenhar muita coisa além de lágrimas. Eu passava trinta minutos em cada peito e tirava, no máximo, sessenta mililitros — e apenas quando estava sob efeito de medicamentos. Num dia desses, atrapalhada de sono, derrubei sem querer meio frasco de leite materno no chão e chorei como se a casa inteira tivesse pegado fogo.
DIÁRIO DE CAMPO
“Hoje é dia de fazer cocô na banheira, de mamar até cair, de dar P.T. no macacão de coelhinho, da fazer pum fedido e arroto cavernoso, hoje é dia de maldade. Hoje é sexta-feira. Dia de acordar no susto com um cocô bem súbito, de arranhar o próprio olho, de enfiar o dedo no nariz dos outros, de sujar três fraldas na sequência só de zoeira. Dia de sujar o pé de cocô e depois chutar a cara do pai. É dia de mamar a luva e espirrar para cima. Hoje é dia de fazer pum com som de cornetinha, de cuspir leite na cadeirinha vibratória, fazer xixi na cara da pediatra e murchar os peitos da mãe até pegar soluço. Hoje é sexta-feira. Dia de maldade.”
O advento da palavra falada causou uma tremenda revolução no nosso dia a dia. Agora o ônibus podia demorar a chegar, já que assunto não faltava para nos entreter durante a espera.
Nos momentos mais agudos, eu chorava muito e o Heitor ficava impressionado. Tentava tomar alguma providência. Atravessava a sala correndo para segurar a minha mão, fazer carinho no meu braço ou me dar uma florzinha de plástico. Contava a única piada que sabia: a do elefante que passava por baixo da porta dentro de um envelope. Corria até o meu quarto e pegava da gaveta uma meia de lã bem grossa. “Não precisa chorar se você tem um balão”, ele me ofereceu outro dia. Era uma bexiga amarela com o rosto dele desenhado com canetinha.
[…]
“Eu também quero ser escritor que nem a mamãe”, ele decidiu naquele dia na biblioteca, devolvendo à estante um exemplar de O grande rabanete. “Só que eu não vou chorar.”
Nada me afetava tanto quanto um dia nublado.
Eu tentava explicar as razões circunstanciais de uma determinada crise: por exemplo, não estava conseguindo concluir um texto e me julgava incapaz. Ou: não tinha tempo para lavar o cabelo e perdi o bilhete do ônibus. Ou: passei a última quinzena resfriada e só encontrei batata para o jantar. Quase sempre eu havia acordado cedo por dois dias seguidos, não tinha nenhum controle das emoções e precisava dormir.
Nessas horas, pensava que algo havia saído dos trilhos, em algum momento, mas não sabia dizer quando e o que foi. Eu, que já havia sido convidada a participar de conferências em universidades pelo mundo, publicara três livros premiados e vários artigos em revistas internacionais — eu, que traduzia do grego e sabia os nomes de todas as filhas de Zeus com Mnemósine — agora passava dias inteiros sem pisar fora de casa, rodeada de patinhos de banho com o miolo mofado. Minha grande realização artística e intelectual era cantar “Alecrim Zoiúdo” e imaginar rimas bobas com a metrificação adequada.
Minha depressão é unipolar, o que significa que, ao contrário de outros poetas e escritores, nunca tive períodos de mania alternados com os episódios de desalento. Para essas pessoas, as fases de baixa energia podem ser circunscritas, delimitadas no tempo, e cedem o espaço a fases mais eufóricas. Confesso que já cheguei a pensar que a bipolaridade seria artisticamente “preferível”; o fato de esse pensamento ter passado pela minha cabeça me envergonha muito. Sei que a mania é uma fase devastadora e desorganizadora, permeada por um sofrimento que eu seria incapaz de mensurar.
Em todo caso, escrevo sobre o que sei, e, para os unipolares como eu, a sensação é a de andar com duas bigornas presas aos pés. O tempo todo. O esforço é gigantesco, e ainda assim mal consigo sair do lugar. Na maior parte dos dias, a impressão que se tem de fora é que estou apenas de pé, parada no lugar, porém mexendo vertiginosamente os braços.
(E agora, com um desses braços, eu tinha de segurar um bebê.)
O que me dá mais pena é que ela tentou. Em outubro de 1962, abandonada pelo marido com dois filhos pequenos em uma casa na zona rural da Inglaterra, uma poeta com histórico de suicídio declarou a um amigo: “Estou me divorciando, e você tem razão: é libertador. Estou escrevendo pela primeira vez em anos, um eu real, há muito abafado. Saio da cama às quatro da manhã; quando acordo, está tudo escuro, e escrevo até os bebês acordarem. É como escrever em um túnel de trem, ou dentro do intestino de Deus”.
“Todas as minhas perspectivas estão bloqueadas por uma vista enorme dos corpos dos dois entrelaçados, apaixonados, ele escrevendo poemas imortais para ela. E todas as pessoas do nosso círculo estão com eles, do lado deles. […] [É difícil] encarar um domínio profissional de bisbilhotices no qual os melhores amigos do meu marido são meus empregadores, todos sabem que ele me abandonou, por quem e em que condições.”
As viagens eram o artifício de preferência da privilegiada família James — o que não significa que eles tiveram uma vida livre de depressão. Henry guardava segredos sobre sua sexualidade e sofreu de solidão, enquanto Alice foi quase esmagada em vida por ser uma mulher livre, criativa e potente. Quase todos os irmãos James herdaram a doença e a manifestaram em graus dos mais severos.
“Em volta do Tártaro [a personificação do mundo inferior; o filho ou o irmão do Caos], havia uma cerca de bronze e um colar com três camadas de noite. Um rio de fogo corria em seu interior.”