Em 99 crônicas recheadas de informações e histórias de bastidores, Ruy Castro revela o lado humano, crítico e mordaz do fascinante e plural Tom Jobim.
Tom Jobim mudou a história da música brasileira com a bossa nova e suas canções, que influenciaram pelo menos duas gerações de compositores. E levou essa música para o mundo. Mas disso os leitores provavelmente já sabem. O que Ruy Castro mostra em O ouvidor do Brasil é um Tom por vezes inesperado e desconhecido, que emerge sob diferentes ângulos em cada crônica. Em conjunto, os textos formam uma espécie de perfil biográfico fragmentado de um dos maiores artistas que o Brasil já teve. O fio condutor de todo o livro é a relação de Tom com o Brasil. Onde quer que estivesse, ele mantinha olhar e ouvido atentos à preservação da natureza, em uma época em que meio ambiente e ecologia passavam longe dos discursos. Com o estilo inconfundível de Ruy Castro, esses escritos revelam também fatos inéditos, histórias de bastidores e informações sobre os grandes personagens da cena musical nos anos 1950 e 1960.
Rui Castro, na ortografia oficial. Nasceu em 1948. Começou como repórter em 1967, no Correio da Manhã, do Rio, e passou por todos os grandes veículos da imprensa carioca e paulistana. A partir de 1990, concentrou-se nos livros. Publicou, entre muitos outros, as biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, e obras de reconstituição histórica, sobre a Bossa Nova, Ipanema e o Flamengo. É cidadão benemérito do Rio de Janeiro.
É sempre um prazer prestigiar a escrita primorosa de Ruy Castro, no entanto, sua habilidade com a língua nem sempre sustenta algumas das crônicas incluídas nessa edição. Me impressiona o esmero editorial empregado à obra, fazendo textos que claramente foram escritos em décadas diferentes parecerem peças únicas, nascidas para se complementar. Infelizmente, a façanha não se repete de capa a capa: a breve menção a Tom Jobim às vezes é suficiente para tornar certas crônicas dignas de integrar o cânone, criando casos em que o leitor é obrigado a esperar até a última linha para que se veja somente a sombra do personagem principal.
Apesar das decepções trazidas pelo método "control + F: Tom Jobim" sendo empregado como critério editorial, a experiência foi muito positiva. Dono de uma das prosas mais elegantes, o autor não deixa de entregar o prometido de forma leve e engraçada. Aos admiradores do maestro carioca, recomendo a leitura.
Crônicas curtas e agradáveis de ler sobre um gigante (eu arriscaria dizer, o maior e mais bem-sucedido) da música popular brasileira na segunda metade do século 20.
Ruy Castro, nascido em 1948, começou no mundo das letras como jornalista. Atuou com destaque, competência e talento em vários jornais e revistas. A partir de 1990 dedicou-se à escrita e seu talento como escritor, já reconhecido através dos artigos e matérias que publicava tornou-se notório e internacionalmente reconhecido. Autor de vasta obra com destaque para os best-sellers “não ficção”, “Chega de saudade: a história e as histórias da bossa-nova” (1990 e reedição em 2016), “O anjo pornográfico: a vida de Nelson Rodrigues” (1992), “Estrela solitária: um brasileiro chamado Garrincha” (1996), “Carmen – uma biografia” (2005) e para os ótimos romances “Bilac vê estrelas” (2000), “Era no tempo do rei: Um romance da chegada da corte” (2007) e “Os perigos do imperador: Um romance do segundo reinado” (2022), o mineiro, natural de Caratinga (MG) mas carioca por opção e cidadão benemérito do Rio de Janeiro, já recebeu o prêmio Nestlé de literatura, o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e, nada mais, nada menos, do que quatro prêmios Jabuti. “O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim” é uma coletânea de crônicas de autoria de Ruy Castro publicadas no jornal “Folha de São Paulo” no período 2007/2023 e como o título deixa explícito o foco desse livro é o músico, cantor, compositor, maestro, arranjador e produtor Antônio Carlos Jobim (1927/1994) mais conhecido como Tom Jobim, um dos responsáveis pela criativa ( e para muitos revolucionária) fusão de cool jazz e samba conhecida mundialmente como “Bossa Nova” e criador, solo e ou em parcerias diversas de clássicos do gênero como “Garota de Ipanema”, “Wave”, “Chega de saudade”, “Água de beber”, “Samba de uma nota só”, “Pela luz dos olhos teus”, “Só tinha de ser com você”, “Samba do avião”, “Ela é carioca”, “Eu sei que vou te amar”, “Águas de março” e vários outros. Ruy Castro faz verdadeiras reverências a Tom Jobim e não esconde em seus textos a verdadeira idolatria que a ele dedica. E, creio, que, não fosse ele um ateu convicto, Ruy Castro poderia propor, talvez, uma canonização de Tom Jobim, como em muitos momentos dos ótimos textos ele perece propor. Ruy Castro, também não se preocupa em esconder, a adoração que dedica à “Bossa Nova” e essa adoração o faz, amiúde, desprezar outros gêneros como o rock, por exemplo, a quem ele “dedica” um verdadeiro e incontornável desprezo e, confesso, isso me incomodou bastante, rockeiro juramentado que sou. Ressalvas e ironias à parte “O ouvidor do Brasil” é uma delícia de livro em que o autor, mais uma vez, nos brinda com sua rica verve, eivada de erudição e de um senso de humor afiado e (na maior parte do tempo) sutil que ele coloca a serviço da nobre tarefa de preservar a memória da pessoa Tom Jobim, de sua obra e da “Bossa Nova”, gênero que tanto aprecia quanto venera e de quebra nos mostra um lado pouco conhecido do maestro; o lado ligado à ecologia que ele defendia numa época em que o termo mal era empregado. Todos os 99 textos merecem ser lidos e relidos e fatalmente, independentemente do gênero ou gêneros musicais de sua preferência você vai querer ouvir de novo (ou conhecer) canções de Tom Jobim (como eu, confesso, fiz várias vezes). Um dos momentos mais divertidos da obra foi a definição de “ouvidor” (“adaptada” é claro) incluída pelo autor nesse livro:
OUVIDOR: S.M. Do latim auditor, -oris; auditor, ouvinte. Aquele que ouve. Atento aos valores ambientais, urbanos, vegetais, animais, humanos e culturais, e de prontidão para defende-los. Que ouve os sons do país, venham da floresta ou da cidade. EXEMPLO: ANTONIO CARLOS JOBIM
Bela homenagem a Tom Jobim de, talvez, seu maior fã. Excelente!
Ler O Ouvidor do Brasil é como sentar-se numa mesa de bar ao lado dos amigos do maestro, ouvindo histórias saborosas. Cada crônica traz a sensação de uma boa conversa, daquelas que a gente não quer que acabem.
Coletânea de crônicas sobre Tom Jobim escritas por Ruy Castro, 90 já existiam, 9 inéditas. São crônicas curtas, algumas muito divertidas e interessantes, outras não tanto. Inegável que Ruy sabe muito sobre o Tom e a história da bossa nova, mas o formato de crônicas tão curtas deixa um pouco a desejar. A temática não é estrita também, algumas crônicas só se relacionam ao Tom Jobim por uma menção rápida em que usa ele de exemplo para algum assunto avulso (não me incomodou tanto, já que gosto da escrita de Ruy Castro, mas é uma questão recorrente). De tudo, é uma leitura leve e agradável, da qual vai extrair boas curiosidades, mas não vale esperar muito.