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92 pages, Kindle Edition
Published April 10, 2024
Após a leitura de Katabasis, tornou-se necessária uma obra que funcionasse como antídoto à ressaca literária e, em certa medida, como um processo de reconstrução cognitiva. A escolha recaiu sobre Seduzida pelo meu chuveiro senciente, livro cuja recepção positiva já se anunciava desde a nota introdutória da autora.
Logo na dedicatória, o texto estabelece o tom da obra e convida o leitor a refletir — ainda que de forma involuntária — sobre os limites entre ficção, sanidade e coragem criativa:
“Querido leitor, eu sei que quando você terminar esse livro vai se perguntar se faço terapia. […] Loretta Lins é um pseudônimo, afinal de contas, eu tenho uma reputação para manter. […] mas acredito que Emma não deseja ser vinculadas a essa obra-prima sem precedentes na literatura brasileira contemporânea. […] Aquele banho foi um verdadeiro marco na minha vida.”
Trata-se de um paratexto tão impactante quanto revelador, capaz de despertar, desde as primeiras páginas, uma saudável desconfiança crítica. Como não questionar, afinal, a sanidade por trás de tal proposta narrativa?
A obra cumpre, com notável eficiência, aquilo a que se propõe: provocar o riso. Em grande parte da leitura, o riso surge de maneira espontânea, ainda que frequentemente acompanhado de um estado de incredulidade diante do que se apresenta em cena. Fica, por vezes, a dúvida se a comicidade é intencional ou se emerge do espanto provocado pelo próprio texto — o que, curiosamente, acaba jogando a favor da experiência.
O aviso ao leitor merece destaque especial:
“Esta é uma obra de ficção, não use seu chuveiro para atos duvidosos.”
Trata-se de um esclarecimento tão necessário quanto simbólico, reforçando a consciência metanarrativa da obra e sua relação provocativa com o absurdo.
É nesse ponto que o leitor se vê confrontado com perguntas incômodas e, ao mesmo tempo, libertadoras: por que não escrever algo assim? ou ainda por que não ler sobre isso? Afinal, se a literatura também é espaço de experimentação e prazer, negar-se a esse tipo de leitura seria limitar suas próprias possibilidades.
Para esta leitora, a experiência se alinha a uma concepção clara: ler é, acima de tudo, divertir-se. E esse objetivo é plenamente alcançado ao longo da obra.
A avaliação não atinge a pontuação máxima apenas porque a incredulidade, em determinados momentos, se impõe de maneira quase avassaladora. Ainda assim, é impossível ignorar o mérito de uma narrativa que assume seus excessos sem pedir desculpas.
Por fim, não se pode deixar de mencionar o nome do protagonista: Aidan Lorenzoni. Poucas escolhas seriam tão eficazes em afirmar, com tamanha convicção, o caráter profundamente brasileiro desta obra.